A VOLTA DO FILME FOTOGRÁFICO?

Grandes blockbusters recentes foram captados em película e até o Super-8 foi “ressuscitado”. Será uma nova tendência ou um modismo passageiro?

Texto: Ricardo Bruini
Imagens: Divulgação

Com o advento das tecnologias de fotografia e cinema digitais, o secular filme fotográfico viu seu uso cair em um gradativo e constante declínio, chegando a ser considerado uma “peça de museu” há alguns anos. A outrora imponente Kodak fechou fábricas ao redor do mundo e chegou à completa falência. O filme fotográfico, embora permanecesse superior às novas tecnologias digitais, nelas encontrou um adversário quase imbatível em termos de praticidade, custo e compartilhamento. Agora, o resultado era visualizado no mesmo momento da captação e as cópias ficavam limitadas apenas à quantidade de “bytes” da mídia de memória.

Entretanto, uma tendência inusitada (e para alguns, impensável) tem tirado o antigo filme fotográfico do “coma” em que esteve na última década. Cada vez mais, cineastas de renome tentam ressuscitar a utilização da película no processo de captação de imagens cinematográficas. O capítulo mais emblemático desta saga foi a opção do diretor J.J. Abrams em filmar o novo Star Wars com película Kodak 65 milímetros. Sim: o blockbuster mais badalado da temporada foi captado com o bom e velho filme fotossensível!

Um pouco de história

As constantes evoluções da tecnologia digital foram, gradativamente, tomando o espaço da captação física/química. Atualmente, salvo um ou outro exemplo isolado, quase tudo o que é produzido no mundo audiovisual é feito por meios eletrônicos. Mas, no passado, era inconcebível vislumbrar o mundo da captação de imagens sem o uso do filme.

Em 1888, o bancário norte-americano George Eastman fundou a Kodak (não queiram encontram significado na palavra, pois o termo “Kodak” foi criado pelo próprio Eastman para ser uma palavra impactante e fácil de ser lembrada pelos clientes), que viria a se tornar um império nas décadas seguintes.

Depois de fundar a empresa, Eastman demitiu-se do banco e passou a pensar em como simplificar o processo fotográfico (até então, muito complexo e repleto de equipamentos pesados). Em pouco tempo, chegou ao filme flexível acondicionado em rolo. Em 1884, criou o papel fotográfico. Percebeu, então, que também a câmera deveria ser aperfeiçoada.

A primeira câmera Kodak surgiu em 1888. Era portátil, fácil de manejar e custava, à época, US$ 25,00 (valor relativamente baixo se comparado aos custos da fotografia praticada até então). Após bater 100 poses (quantidade possível no rolo de filme existente no interior da câmera), o consumidor enviava, por apenas US$ 10,00, a máquina inteira para a cidade de Rochester (no Estado de Nova York, EUA), onde o filme era retirado e revelado. As fotografias em papel e o negativo eram mandados para o cliente pelo correio, junto com a câmera, já com um novo rolo de filme instalado.

O lançamento da Kodak número 1 acabou por criar uma das primeiras campanhas publicitárias da história, com o slogan “You push the button, we do the rest” (“Você aperta o botão e nós fazemos o resto”). Com o advento do filme em rolo, também foi possível o desenvolvimento do cinema. Os primeiros títulos produzidos para o telão foram criados por Eastman em 1889, mesmo ano em que a empresa passou a se chamar Eastman Company.

Nas décadas seguintes, o filme fotográfico se popularizou pelo mundo, tanto para o uso na fotografia estática quanto para o cinema. Durante muito tempo, as duas empresas-gigantes do segmento (Kodak e Fujifilm) abocanharam 90% do mercado mundial.

Em 1976, a Kodak desenvolveu a primeira câmera digital do mundo. Entretanto, achou o invento pouco prático e sem futuro e, durante os 20 anos seguintes tomou medidas muito tímidas no segmento eletrônico. Afinal, os executivos da Kodak não conseguiam imaginar um mundo sem o filme fotográfico. E esta arrogância da centenária empresa custou-lhe muito caro.

No início dos anos 2000, as vendas de filme (produto principal da companhia) começaram a cair vertiginosamente, à medida que cada vez mais as câmeras digitais (tanto para fotografia quanto para cinema) evoluíam e ganhavam a confiança dos usuários. A Kodak não suportou a concorrência e, entre 2000 e 2010, mergulhou em uma crise sem precedentes. Dos 200 edifícios da sede de Rochester, 80 foram demolidos e outros 59, vendidos. Em 2012 a empresa declarou oficialmente sua falência.

Quem diria?

Mas algo inesperado aconteceu em 2014, quando um grupo de cineastas renomados (entre eles, J.J. Abrams, Quentin Tarantino, Christopher Nolan, Judd Apatow e Steven Spielberg) se reuniram para estabelecer um acordo com os principais estúdios cinematográficos norte-americanos para ajudar a salvar a remanescente divisão de filmes para cinema da Kodak (que ainda emprega 700 pessoas em sua fábrica de Rochester). Sendo assim, Universal Pictures, Warner Brothers, Paramount Pictures e Walt Disney Studios se comprometeram a comprar uma quantidade determinada de filmes da Kodak por ano.

Por conta desse acordo, J.J. Abrams decidiu rodar Star Wars – O Despertar da Força com película Kodak 65 milímetros. E as informações dão conta de que o próximo filme da nova trilogia também seguirá este caminho. Ironicamente, foi com outro filme da saga Star Wars, o Episódio I (de 1999), que as grandes produções do cinema passaram a usar equipamentos digitais (na época, utilizaram-se câmeras Sony e objetivas Fujinon, equipamentos típicos de TV).

Uma das vantagens de se utilizar a película no lugar do digital (alguém imaginaria que ainda estaríamos falando deste assunto atualmente?) é a inegável superioridade na qualidade de imagem (a qualidade de imagem obtida com película ainda é muito superior às tecnologias digitais), o que permite manipulação na pós-produção e crops sem perda de qualidade aparente. Além disso, a textura da película oferece uma característica estética bastante orgânica e natural. Para J.J. Abrams, que tentou ao máximo aproximar o novo filme da estética da trilogia original (e, por conseguinte, apagar a má impressão deixada pela segunda trilogia, considerada “artificial” e “sem alma”), o naturalismo obtido com a película foi uma “arma” muito eficiente.

Outros filmes de peso de 2015 também foram rodados com filme Kodak, incluindo Os Oito Detestáveis, 007 Contra Spectre e Ponte dos Espiões, entre outros. E, para 2016, a lista de títulos de renome rodados com película é ainda maior: Batman Vs Superman, Salve César, Esquadrão Suicida, Os Sete Magníficos e a nova sequência da infinita franquia Bourne.

O SUPER-8 voltou!

Os nostálgicos fãs da famosa câmera Super-8 também podem comemorar – afinal, a Kodak anunciou uma nova versão atualizada da clássica “camereta”. A “Kodad Super-8” combinará características do antigo equipamento com funcionalidades digitais do presente. Será possível gravar áudio digital e visualizar as imagens no monitor eletrônico.

A empresa pretende conquistar os jovens estudantes de cinema, uma geração que já cresceu no mundo digital, mas que também gosta de experiências nostálgicas e admiram uma estética que só a película pode oferecer.

Por enquanto, ninguém sabe dizer se essas novas estratégias serão suficientes para salvar a Kodak. Moda passageira ou uma tendência definitiva? Só o tempo dirá. Mas o certo é que a película, ainda que tudo dê certo, nunca mais tomará o lugar do digital. No máximo, conseguirá ser uma ferramenta complementar utilizada por quem busca uma estética específica (ou por aqueles que tentam salvar uma histórica e centenária empresa).

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