Com um impressionante currículo de peças criadas para o mercado publicitário, produtora de som LOUD não tem medo de desafios

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Ricardo Kruppa

Contar histórias utilizando o som: com essa filosofia, a produtora LOUD assinou diversos trabalhos marcantes para agências como: DM9DDB, Ogilvy, W/McCann, Y&R e AlmapBBDO (e para anunciantes do porte de C&A, Ambev, Claro, Vivo, GM, Audi, Volkswagen e Coca-Cola). Criada por Janecy Nascimento, Simone Marinho e Felipe Vassão, a empresa, hoje, também conta com os talentos de Filipe Derado e Paula Zakia. É uma equipe de experts que foca sua atuação no segmento de publicidade, mas que também se aventura em outros nichos (incluindo os de discos, conteúdo e cinema).

Neste bate-papo com a reportagem de Zoom Magazine, a maestrina e diretora artística Janecy Nascimento e o maestro Filipe Derado descrevem o dia-a-dia da produtora, comentam os desafios da área e relembram alguns cases memoráveis da LOUD.

Durante o 27º FEST’UP (Festival Universitário de Propaganda), os maestros Janecy Nascimento e Felipe Vassão ministraram uma palestra focada nas etapas de trabalho de uma produtora de som. Quais são os “mitos” mais difundidos sobre a área de vocês?

JANECY NASCIMENTO: Na palestra, nosso objetivo era oferecer ferramentas práticas para os futuros publicitários. Abordamos um assunto fundamental nas relações entre as agências e a produtora: “como brifar áudio.” Sabemos que há muitos equívocos neste processo e que, bem-informados, os futuros publicitários poderão evitá-los. Um deles é pensar que o publicitário deve falar com os produtores musicais na linguagem específica. Em 90% dos casos essa abordagem não ajuda. O criativo não precisa tentar falar dos elementos musicais ou entender de música. A intenção é boa, mas isso, às vezes, causa ruídos na comunicação entre as partes. Se um criativo acha que uma trilha está “pesada”, por exemplo, não deve fazer “pedidos técnicos”, como diminuir o volume do contrabaixo. O produtor atenderá ao pedido, porém, nem sempre esta ação resolve o problema de uma trilha “pesada”.

FILIPE DERADO: O melhor é que o criativo use a linguagem que conhece de fato. Isso permite que o produtor tome a melhor decisão e, inclusive, alivie a ansiedade do futuro criador da campanha.

J.N.: E o criativo pode (e deve) contar com a produtora de som na criação da campanha, que conseguirá ajudar muito mais se participar da reunião de briefing, conhecendo o objetivo que vai além de um único filme. É preciso chegar ao objetivo da marca e da campanha.

Outro tema abordado na palestra foi a importância da pesquisa e de se contar com boas referências no processo de produção. A “era do google” “refinou” ou comprometeu o senso crítico das pessoas no momento crucial da pesquisa?

J.N.: Ampliou as possibilidades de forma monstruosa, pois começamos a buscar uma coisa, que leva a outra, e outra… Enfim: é perigoso perder o foco e é preciso, realmente, desenvolver a capacidade de mantê-lo. Quanto ao senso crítico, acho que não comprometeu, ao contrário: o que jamais imaginaríamos usar em uma peça, hoje, está tão acessível que não custa nada experimentar. E os resultados são surpreendentes.

Muitos são os jingles que marcaram época em nosso país. Vocês concordam com a afirmação de que o brasileiro é naturalmente “musical” e que daí vem nosso talento para a criação de boas peças do gênero? E a inspiração? É uma ferramenta essencial para a criação de jingles marcantes?

J.N.: Um bom jingle depende de muita coisa: de uma boa ideia, que pode vir da agência ou da liberdade que esta dá à produtora de som. Se cliente, agência e produtora não estiverem afinados, o “super jingle” não vai ao ar. A LOUD acredita muito que um jingle perfeito nasce a partir de uma boa produção. O sucesso (mesmo de jingles ruins) também está ligado à divulgação, já que mesmo a melhor propaganda do mundo não alcançará seu valor sem uma veiculação adequada. Lembrando que, muitas vezes, a inspiração conta com uma formação, com um repertório, que vai sendo construído ao longo de anos. O sujeito trabalha há três décadas na área, cria um jingle em dez minutos e as pessoas dizem: “por que cobrar tão caro? Você levou 30 minutos para fazer esse jingle!”. Mas, na verdade, ele levou 30 anos! Então, a experiência e a formação são essenciais para dar suporte ao talento e à inspiração. E qualquer área deve considerar esses aspectos.

Como a loud aborda os demais segmentos de atuação de uma produtora de som? Produção de discos, por exemplo?

F.D.: Os produtores da LOUD usam a estrutura da produtora para trabalhar em suas produções, mixagens etc. O maestro Felipe Vassão, por exemplo, produziu alguns discos paralelamente ao trabalho publicitário. Um deles foi o “O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui” (2013), de Emicida, no qual também é coautor de nove faixas do álbum (eleito como o melhor do ano por revistas como “Rolling Stone” e pelo 3º Prêmio Contigo MPB FM de Música, entre outras premiações). Eventualmente fazemos alguns “curtas”, mas, realmente, não é nosso foco. Nosso trabalho com publicidade nos toma bastante tempo e envolvimento. Sei que muita gente considera menos nobre fazer trilha para este mercado, ao invés de produzir shows ou peças “autorais”. Mas sempre buscamos desenvolver nosso trabalho da melhor maneira possível, independentemente do segmento atendido.

Qual é a infraestrutura da loud? Vocês contam com equipamentos e estúdios próprios? Ou terceirizam esses recursos de acordo com as demandas de cada projeto?

F.D.: Contamos com cinco salas para criação, produção, gravações, sound design e mixagem. Mas há casos em que a terceirização se faz necessária. Já precisamos gravar um coral de 60 vozes e, para isso, alugamos um estúdio com uma estrutura que comportasse tudo.

Vocês terceirizam profissionais para trabalhos específicos? Colaboradores eventuais são convocados para determinados jobs?

J.N.: Sim, não só os clássicos “cantores e locutores”, mas, também, em casos que necessitam de alguém que domine alguma linguagem específica. No Tango, por exemplo, chamaríamos um instrumentista que domina o bandoneón. Mas, na equipe, temos seis pessoas bastante ecléticas – então nossa abrangência em termos de estilo é grande: Samba, Orquestral, Rock, Jazz, Pop etc.

Como é a relação de vocês com as agências? Administrar “conflitos” (e eventuais diferenças criativas) é parte da rotina de vocês?

J.N.: Sabemos que vamos fazer uma trilha sob encomenda para uma campanha e temos clareza de que atenderemos aos objetivos da agência ou do cliente. Algumas vezes estamos todos afinados e é maravilhoso. Ficamos empolgados e comemoramos cada aprovação, cada peça de sucesso. Outras vezes estamos alinhados apenas com o cliente, ou apenas com a agência. Acontece de nos decepcionarmos, sim, mas temos maturidade para lidar com as pequenas frustrações e aproveitar as alegrias, que são em maior número.

Quais foram os grandes desafios profissionais enfrentados pela loud? Há algum trabalho específico que exigiu maior dedicação ou empenho da equipe?

F.D.: De uma forma geral, nós vivemos em desafios. O tempo todo tentamos descobrir novos caminhos ao pensar diferentes possibilidades para cada peça. Os desafios criativos são, sem dúvida, os mais recompensadores. Trabalhos como os que fizemos para Dove Men Care (“Slow”), Claro (“Seguidor”), Conti Bier (“Conti de Fadas”), McDonald’s (“Batata Turbinada”), Skol Beats (“Beats of Tomorrow”) e as nossas produções para a C&A – por exemplo, “Outono Inverno”, “Virada Abusada”, “Fim de Semana Abusado” e “São João”. São sempre desafiadores e, ao mesmo tempo, nos permitem contribuir de forma criativa. É uma característica da LOUD nunca se contentar com a primeira ideia. E pensar assim exige muito!

Vivemos um momento de crise econômica. Este cenário também afetou o segmento de vocês?

J.N.: O discurso da crise existe, mas, sinceramente, a LOUD está trabalhando bem. Não diminuímos a infraestrutura e nem a equipe. Temos parcerias muito bacanas e acredito na confiança que existe entre nós e a criação, um dos aspectos que nos assegura. Estamos otimistas.

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