CINEMA 3D – AS DIMENSÕES DO MUNDO REAL

Longe de ser uma novidade, o cinema 3D é uma “mania” que reaparece de tempos em tempos

A sigla “3D” está muito em voga atualmente, o que pode dar a impressão de que este conceito é fruto das últimas conquistas tecnológicas. Mas, diferentemente do que se possa pensar, trata-se de um conceito antigo, tendo aparecido para o público em diversas ocasiões, décadas atrás.

Para quem trabalha com câmeras no registro de imagens, é familiar a noção dos diferentes tipos de resultados proporcionados por diferentes tipos de lentes. Algumas lentes “enxergam” uma área maior que outras e são denominadas grande-angulares, exatamente, devido ao seu maior ângulo de visão. Entre as lentes do tipo grande-angular encontramos, ainda, variações: algumas têm ângulo de visão maior que outras. No limite extremo aparecem as lentes fisheye: recebem esse nome porque seu ângulo de visão imita o ângulo de visão do olho da maioria dos peixes. Eles veem uma área de 180 graus com cada olho, o que significa que têm amplo domínio do que acontece ao redor.

Nossos dois olhos também servem para proporcionar uma ampliação de nosso campo de visão. O que vemos com os dois é mais do que o que vemos apenas com um. Considera-se que a visão de um único olho, para a maioria das pessoas, gira em torno de 90 graus, o que pode ser comprovado fechando-se um dos olhos e medindo-se mentalmente o campo de visão. Mas essa não é a única nem a principal característica da nossa visão com dois olhos: o mais importante é que a visão de um olho se sobrepõe parcialmente à do outro olho. Basta olhar para frente e fechar alternadamente um e outro olho para perceber isso. Existe uma área vista apenas por um dos olhos e outra enxergada pelos dois olhos. E é essa área com visão sobreposta a responsável por nos proporcionar a visão em três dimensões: largura, altura e profundidade, representada pela sigla “3D”.

Ela pode ser facilmente percebida se olharmos para nossas mãos e fecharmos / abrirmos qualquer um dos olhos: em uma situação estaremos percebendo o volume e os contornos de profundidade das mãos; em outra, somente um recorte em duas dimensões, “2D”. Se tentarmos imitar essa visão com duas câmeras fotográficas posicionadas de modo a imitar o posicionamento de nossos olhos, obteremos duas fotos distintas, cada uma “vendo” determinado objeto um pouco mais de lado que a outra. Se sobrepusermos as duas, em um software que permita a sobreposição de imagens, deixando-as ligeiramente transparentes, veremos que não aparecerá o efeito 3D.

VISÕES SEPARADAS

Isto ocorre porque a noção das três dimensões é proporcionada por nosso cérebro, que funde as duas imagens diferentes vistas por cada um dos olhos em uma só, transmitindo à área responsável pelo entendimento e análise das informações visuais a ideia de volume em uma forma contínua do objeto. O segredo para reproduzir artificialmente essa visão, assim, é fornecer a cada olho a visão que este teria se estivesse na realidade em questão – o local de uma filmagem, por exemplo. Neste local, cada olho teria a visão ligeiramente deslocada para um dos lados, ou seja: a distância de cada olho no rosto humano. A tarefa, portanto, consiste em registrar simultaneamente duas visões separadas lateralmente umas das outras, o que se traduz em utilizar duas câmeras gêmeas, “grudadas” lateralmente.

A segunda etapa, complementar à primeira, é fazer chegar a cada olho dos assistentes na platéia apenas uma dessas imagens, o que leva a diferentes tecnologias, que vão desde o uso de filtros colocados sobre os olhos de forma que uma das duas imagens projetadas não seja vista (alternadamente a outra imagem para o outro olho), filtros, estes, montados sob a forma de óculos ou telas especiais (ainda em fase de protótipos) que não deixam um olho ver o que o outro vê. No meio do caminho entre essas duas tecnologias há diversas outras, já abandonadas ou ainda em desenvolvimento.

Mas as tentativas de capturar e mostrar imagens em 3D – muitas com sucesso experimental, mas não comercial – remontam há muito tempo. Afinal, quem poderia imaginar que três anos antes de a Princesa Isabel assinar a Lei Áurea (1888), um inventor estadunidense (Frederick Eugene Ives) demonstrava, em uma exposição na Filadélfia, um sistema de fotografia colorida em 3D? E que, anos mais tarde, no início da década de 1920, juntamente com seu colega Jacob Leventhal, produziria uma série de filmes em 3D denominada Plastigrams?

A partir daquele começo de século, registraram-se diversas experiências, inclusive exibições comerciais temporárias. Dizem os historiadores que o primeiro filme em 3D exibido comercialmente teria sido The Power of Love, no Ambassador Hotel, em Los Angeles, em 1922. Na sala de exibição era empregado o processo de duas imagens simultâneas sobrepostas na película e os expectadores utilizavam óculos contendo os filtros para que cada vista captasse apenas uma das projeções. Para os padrões atuais, a ilusão era bastante precária, devido às dificuldades na construção desses filtros em associação com a separação das imagens nas películas feitas através de filtros nos projetores e na sincronização dos mesmos. Mas, como ninguém vira algo parecido, a sensação era muito real.

APLICAÇÕES NADA PRÁTICAS

Algumas dessas experiências teriam aplicações nada práticas se fossem realizadas hoje. Por exemplo, a dos projetores sincronizados, estreada em 1922 no Selwyn Theatre de Nova York, com a projeção de um filme de 95 minutos (The Man From M.A.R.S.). Os projetores exibiam, de forma alternada, imagens que deveriam ser vistas com o olho esquerdo e outras a serem captadas com o olho direito. A diferença é que, em cada poltrona (!), havia um dispositivo sincronizado com os projetores, nada portátil, que as pessoas seguravam à frente dos olhos para ver a tela…

O próprio Lumiére faria, em 1934, um remake (outra coisa que já existia naquela época!) de seu primeiro filme, o famoso A Chegada do Trem à Estação, que tanta sensação causara em 1895 (com pessoas saltando das poltronas, crentes de que uma locomotiva realmente invadia as salas de exibição) – só que, agora, em 3D.

Seguiram-se outros lançamentos em 3D, como Third Dimensional Murder, dos estúdios MGM e em Technicolor – aqui, uma curiosidade: apesar de o filme ser registrado em película colorida, o uso das cores destinava-se a criar películas coloridas filtradas, uma para cada visão do olho; e no final do process, as pessoas no cinema viam o filme em preto e branco.

Anos mais tarde surgiria outro processo que levaria ao uso de óculos polarizados, ao invés de filtros coloridos. Quem já fotografou – ao menos, como hobby – conhece o chamado “filtro polarizador” que filtra as ondas de luz conforme o plano espacial em que se propagam. Ou, de maneira mais simples e direta, elimina algumas luzes e outras não, como as dos reflexos em metais e vidros, por exemplo. Este filtro foi criado por Edwin H. Land, outro inventor estadunidense, em 1929.

Com ele, a separação das vistas esquerda e direita podia ser feita em um processo que exigia a projeção sincronizada de duas películas e uma tela diferente, chamada Silver Screen – a luz polarizada não dava bons resultados com o uso das telas comuns. Os assistentes utilizavam óculos diferentes: ao invés dos filtros coloridos, equivalentes polarizadores. Seguiram-se vários filmes utilizando o mesmo processo na década de 1930, como In Tune With Tomorrow (1939).

Depois da Segunda Guerra houve um ressurgimento do 3D, mas com uma inovação: as imagens, que até então eram em preto e branco, passaram a ser coloridas, como em Bwana Devill, de 1952. O filme também utilizava o processo polarizado, com dois projetores sincronizados. Houve então um boom do cinema 3D, com algumas dezenas de filmes: Now Is The Time, Around is Arond, A Solid Explanation, The Black Swan, American Life e muitos outros. O início dos anos 1950 também marcou a estreia do som estéreo e House of Wax (1953) foi o primeiro filme em 3D a empregá-lo. A Disney também embarcaria na onda, com o filme Melody, no mesmo ano. A febre do 3D espalhava-se através dos grandes estúdios: Colúmbia, Universal, Paramount, 20th Century Fox…

DECLÍNIO E RENASCIMENTO

A década seguinte assistiu o declínio desses sistemas, principalmente, com o surgimento do Cinemascope, em 1953: até então, apesar do efeito 3D, todos esses filmes traziam o aspecto 4:3 (o mesmo da TV tradicional, denominado Academy Aspect). No entanto, muitos eram os problemas práticos desse tipo de projeção, desde a necessidade dos dois projetores sincronizados e problemas decorrentes das constantes falhas até a questão da necessidade de uma tela especial, que não era apropriada para filmes comuns.

O Cinemascope trouxe uma solução que, se não era 3D, ao menos causava sensação junto à platéia, devido à novidade da área de exibição bem mais larga. Com uma grande vantagem: o baixo custo, já que um único projetor, com lentes especiais, dava conta do recado.

Até o final dessa fase que coincide com a ascensão do Cinemascope, terminando no meio da década de 1950, dezenas de filmes 3D foram feitos: Kiss Me, Kate, Hondo e diversos outros, incluindo um desenho do Popeye e Disque “M” Para Matar, de Alfred Hitchcock. O 3D ainda debutaria em tela larga na versão Cinemascope no início da década de 1960, com September Storm.

Embora não tenham desaparecido de vez, os filmes em 3D daquele período trouxeram outra inovação: finalmente, abandonavam-se os dois projetores sincronizados e a película passava a registrar sobrepostos os dois fotogramas – processo utilizado até hoje. O filme The Bubble estreava a nova tecnologia. A década de 1970 traria a junção do processo dos fotogramas sobrepostos com a tela larga de maneira definitiva, tanto no formato Cinemascope quanto em 70mm. E na década de 1980, o 3D entrava como opção para o IMAX, que, como 2D, já existia há muitos anos, em diversos países.

A tecnologia 3D tornou-se bem mais complexa, fazendo experiências com a captura em vídeo, como em Fantasmas do Abismo, de James Cameron (2003), capturado em HDTV com equipamentos especiais ou com a projeção em telas especiais sem a necessidade do uso de óculos. E, nos dias de hoje, encontrou outro forte aliado: a projeção digital. A alta resolução, equivalente à da película de 70mm, chega ao IMAX digital – a primeira sala IMAX instalada no Brasil, em São Paulo (SP), também será a última com este sistema a funcionar com a tradicional película. As próximas já serão digitais.

Como se vê, o 3D vem acontecendo em “ondas” no cinema, sempre acompanhado da disputa com a TV, que agora torna-se Full HD em tela larga, com os sistemas HDTV. Para 2009 e 2010, os grandes estúdios já planejam diversos novos lançamentos em 3D. Outra onda se levanta, tentando puxar o público “Full HD” para uma experiência sensorial na qual crianças tentam pegar peixinhos virtuais que flutuam pela sala de projeção.

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