CONHEÇA A PRODUÇÃO POR TRÁS DO FILME “XINGU”

Dirigido por Cao Hamburger, Xingu é um filme que “enche” os olhos e o coração

 

Por Eduardo Torelli Fotos Divulgação

 

 

A Retomada permitiu um amplo campo de experimentação a nossos cineastas, seja no que se refere à técnica, ao estilo ou ao escopo das produções. Xingu (dirigido por Cao Hamburger em 2011) inovou em todas essas instâncias, fazendo uso exemplar das novas tecnologias de captação e finalização, flertando com o ficcional e o documental e apostando em um gênero pouco explorado em nossa cinematografia: o épico. Com uma reconstituição de época irrepreensível e um providencial senso de aventura, o filme nos transporta para os “Brasis” compreendidos entre os anos 1940 e 1960, quando os irmãos Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo Villas-Bôas (Caio Blat) travaram contato com uma cultura diferente e se empenharam em criar a primeira reserva indígena do país.

A eficácia da produção pode ser creditada a toda equipe que trabalhou no projeto – tanto o diretor quanto o elenco (que mesclou atores “profissionais” e “não-profissionais”) se empenharam em tornar o drama visto na tela verossímil e relevante. Uma qualidade de Xingu, inclusive, é não incorrer no erro de muitas cinebiografias brasileiras rodadas recentemente: a “santificação” dos protagonistas. No filme, os Villas-Bôas são apresentados com todas as suas virtudes e defeitos. Esta liberdade narrativa é ainda mais louvável quando consideramos que o filme foi proposto à produtora O2 pelos próprios descendentes dos criadores do Parque Nacional do Xingu.

 

CAUSA INDÍGENA

Em entrevista concedida à Zoom Magazine na época da estreia de Xingu nos cinemas, Cao Hamburger afirmou que a história dos irmãos Villas-Bôas não estava “em seu radar” de realizador, embora a questão indígena sempre o tenha interessado. “Noel Villas-Bôas, filho de Orlando, é que bateu à porta da produtora e conversou com Fernando Meirelles, propondo a ideia”, recordou o diretor. “Ele achava, com razão, que a história estava sendo esquecida e que era importante registrá-la. Simpatizei com o projeto, mas tinha alguns receios. Não queria que fosse um longa ‘chapa branca’, que todo o meu trabalho estivesse subordinado à aprovação da família. Pedi um tempo para pensar e mergulhei em uma pesquisa sobre os Villas-Bôas. Não há muita documentação disponível, mas, quando entendi as personalidades de Orlando e de Cláudio, me dei conta de que era uma história com personagens interessantes.”

As principais cenas foram captadas no Tocantins e no Xingu (sequências adicionais foram feitas em São Paulo e em duas locações cenográficas que fizeram as vezes dos Postos Leonardo e Diauarum, onde viveram, respectivamente, Orlando e Cláudio Villas-Bôas). Antecipando-se aos problemas logísticos de filmar no Xingu, a produção decidiu mandar para lá apenas um efetivo reduzido (cerca de 70 dos 150 profissionais que trabalharam nas cenas no Tocantins). Mesmo assim, houve uma série de imprevistos a se contornar, o que colocou à prova o empenho e a resistência física dos realizadores. “Não sei como concluímos o filme sem um estouro de orçamento”, disse Cao. “Muitas produções feitas em condições parecidas tiveram suas filmagens estendidas, o que implica em prejuízos. Um exemplo é Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, que demorou um ano para ser rodado. Passamos muito perto disso, muitas vezes.”

 

PROBLEMAS LOGÍSTICOS

No primeiro dia de filmagem no Xingu, diretor e técnicos descobriram que a locação selecionada para a cena a ser gravada não podia mais ser utilizada. Embora tenha escolhido a época da seca para filmar (evitando o problema das chuvas e das cheias), a equipe teve que lidar com outro transtorno frequente da região: as queimadas, que criaram problemas em outros momentos das filmagens. “Algo semelhante aconteceu quando fomos filmar o primeiro encontro da expedição com os kapalos”, lembrou Cao. “Tivemos que mudar de locação no mesmo dia, de modo a completar a sequência, uma vez que, em se tratando de cinema, tempo é dinheiro.”

A fotografia principal de Xingu foi captada em 2010 (em 35mm e com duas câmeras, uma Penélope e um modelo Arri). A bitola escolhida foi sugerida pelo diretor de fotografia, Adriano Goldman (de Cidade dos Homens – O Filme e Filhos do Carnaval), que convenceu Cao a utilizá-la em lugar do 16mm por conta das possibilidades visuais do projeto. “Com o 16mm, tanto a mata como a palha das ocas dos índios, que são elementos importantes na estética do longa, pareceriam ‘borradas’, um risco que não enfrentaríamos trabalhando com 35mm. Obviamente, ouvi pessoas reclamando que a narrativa de Xingu é muito clássica, que não trabalhei com a câmera na mão etc. Mas creio que esta história pedia esse tipo de tratamento”, afirmou o diretor.

 

VOLTA NO TEMPO

Também por conta de percalços logísticos e das condições do meio-ambiente, as cenas aéreas (sendo que algumas têm importância vital para a trama) tiveram que ser registradas em uma segunda etapa, seis meses depois. Houve, ainda, um trabalho de pós-produção para assegurar a legitimidade da reconstituição de época: digitalmente, todos os elementos contemporâneos das aldeias foram eliminados da fotografia – fios, portas e até pistas de pouso. Efeitos especiais superelaborados ainda garantiram a viabilização de uma emocionante cena de acidente aéreo.

Foram precisos quase cinco anos para que o longa finalmente se materializasse na tela. Mas tanto esmero valeu a pena: Xingu é um filme que “enche” os olhos e o coração e que nos faz repensar conceitos muito arraigados sobre culturas que desconhecemos e que, por consequência, não entendemos. Um “gol de placa” do Cinema da Retomada!

 

 

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