Nascido no Uruguai, o diretor de fotografia César Charlone se mudou para o Brasil em 1970. Antes de se tornar mundialmente conhecido, através de filmes como Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira (estes dois capitaneados por Fernando Meirelles), Charlone construiu uma sólida reputação na Publicidade e como autor de documentários (seu gênero predileto). Também teve uma experiência marcante na direção (em O Banheiro do Papa, eleito o Melhor Filme na Mostra Internacional de São Paulo, em 2007), algo que considera fundamental na trajetória de um diretor de fotografia.
Indicado a um Oscar de Fotografia (por Cidade de Deus) e tendo concorrido ao BAFTA por sua contribuição a O Jardineiro Fiel, Charlone é um profissional qualificado para traçar comparações entre os mercados de produção nacional e do exterior. Ele nos adverte: sem uma política adequada de exibição, os esforços e recursos aplicados na retomada não reverterão em um cinema capaz de andar com as próprias pernas (o desejo comum de espectadores, críticos e cineastas).
COMO FOI SEU ENVOLVIMENTO COM ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, DE FERNANDO MEIRELLES?
Sempre há várias razões para se pegar um filme. Uma é o roteiro, outra é o diretor e uma terceira é a própria comodidade física: às vezes, poder trabalhar na cidade onde se mora e ficar perto da família já são razões suficientes para abraçar um projeto. No que se refere ao Fernando Meirelles, tenho uma dívida eterna com ele – é o meu padrinho de casamento, foi a pessoa que me impulsionou a dirigir e é o co-produtor de O Banheiro do Papa. Assim, o que ele me chamar para fazer, eu faço. Não havia lido o romance de Saramago quando aceitei trabalhar nesse projeto – e ao ler o roteiro, não compreendi bem porque Fernando queria fazer aquele filme. Nos demais projetos que realizamos juntos – Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel –, entendi a proposta e a abracei. Mas esta adaptação de Saramago fugia à linha naturalista / realista dos projetos anteriores. De fato, tenho dificuldades em ler poesia. Sou alguém apegado à realidade, aos fatos. Mas, por confiar em Fernando, entrei de sola e fui seguindo o “mestre”.
COMO FOI DEFINIDA A ESTÉTICA DO FILME, CUJAS CENAS ABUSAM DOS CONTRASTES E TÊM UMA ILUMINAÇÃO PECULIAR?
Na primeira página do livro de Saramago já se fala em uma “cegueira branca”, em um “mar de branco”. Assim, o tipo de fotografia já era indicado logo de cara. Procedi a uma pesquisa preliminar, utilizando livros de referências, e fui separando algumas imagens adequadas. Em princípio, sem obedecer a uma lógica – era mais um processo intuitivo de colecionar “sensações visuais”. Digitalizei as imagens e brinquei com elas no computador, branqueando-as e esfumaçando-as para ver o que acontecia. Logo notei que as imagens ficavam muito lavadas e percebi que os olhos precisavam de algum ponto de referência colorido para que o branco parecesse natural. Com o auxílio de contrapontos coloridos foi possível contrastar o branco. Sempre que abusávamos desse tom, recorríamos a algum contraponto – podiam ser os olhos de Julianne Moore, o detalhe de um sapato, a visão de uma maçaneta... E sempre trocando idéias com o diretor,
amadureci esta visão preliminar do filme...