LUZ E CONTRASTE

A função do Diretor de Fotografia não é eliminar as sombras, mas saber onde colocá-las em uma cena

por: Emerson Calvente

O leitor fiel e atento de Luz e Ação já percebeu que todas as cenas mostradas e estudadas na coluna têm grande contraste de luminosidade, ou seja: há diferenças notáveis de intensidade luminosa entre as áreas claras e escuras. A palavra “contraste” significa “diferença”.

Há diversos tipos de contraste que podemos estudar em linguagem visual: luminosidade, cor, tamanho, textura, forma, movimento etc. O contraste de luminosidade também é chamado de “contraste de brilho ou tonalidade” e pode ser indicado por uma relação de contraste (Lighting Ratio).

Em um esquema de iluminação, a relação de contraste indica a diferença de intensidade entre a luz principal (Key Light) e a luz de preenchimento (Fill Light). Exemplos: 2:1, 4:1, 8:1, 16:1. O número “1” refere-se à luz de preenchimento.

A relação de contraste aplica-se apenas às pequenas áreas e, principalmente, ao rosto das pessoas. Em termos de ajuste de exposição, por exemplo, uma relação de contraste 2:1 representa uma diferença de 1-stop (número f:) na íris/diafragma, ou seja: a intensidade da luz principal é o dobro da luz de preenchimento. Vale lembrar: cada passagem de um “número f:” para o imediatamente posterior ou anterior corresponde à alteração da abertura em duas vezes. Dessa forma, quando abrimos um ponto no diafragma, estamos dobrando a quantidade de luz; e quando fechamos um ponto, estamos reduzindo-a pela metade (veja tabela ao lado). Matematicamente, o que se deve lembrar quando se trabalha com relações de contraste é dividir ou multiplicar por 2. Se você desejar saber qual é a diferença de “número f:” na relação de contraste 5:1, por exemplo, basta dividir por 2, ou seja: 2 ½ stops. Se tiver uma cena com 2 pontos de diferença e deseja saber qual é a relação de contraste, basta multiplicar por 2 (4:1).

SENSAÇÕES ESTÉTICAS

Olhe ao redor. Observe atentamente a luminosidade de diversos ambientes, em diferentes horários. Avalie, também, os espaços externos. Perceba os efeitos da luz no rosto das pessoas.

A iluminação é sempre homogênea ou há diferenças de luminosidade (claro/escuro)? As características da iluminação variam em diferentes horários? Certamente, você perceberá que há sombras por toda parte! Lembre-se: “onde há luz, há sombras”. Você perceberá, também, que as sombras mudam de lugar, de tamanho, de intensidade etc.!  Portanto, ao iluminar uma cena, não tenha “medo” das sombras! A função do Diretor de Fotografia não é eliminá-las, mas saber onde colocá-las.

A IMPORTÂNCIA DA PINTURA

A minissérie Caravaggio é uma superprodução italiana que conta a história de Michelangelo Merisi (nome real do pintor), mais conhecido como Caravaggio, “o pintor da luz”.

A Direção de Fotografia é de Vittorio Storaro, certamente, um dos melhores profissionais desse ramo em atividade. Storaro é, também, autor do livro “Escrever com a Luz” (Scrivere con la Luce). Concluímos o artigo deste mês reproduzindo o pensamento de Storaro sobre a relação entre a pintura e o cinema:

“O cinema como arte complexa traz em si a arte da pintura, e não há dúvida de que somos o resultado de todos os artistas, de todas as emoções, todas as ideações e criatividade que nos precederam no campo das artes figurativas. Também não há dúvida de que Caravaggio é um dos principais protagonistas da relação entre luz e sombra nas artes figurativas. A princípio me baseei nisso para restituir visualmente sua vida, sua atividade sacra, analisando a relação figurativa que esse artista estabelece com a luz. No início de sua atividade, a luz é muito difusa, nórdica (ele nasceu em Caravaggio, um povoado na Província de Bergamo). Depois, pouco a pouco, a paisagem se anula, o fundo se torna escuro e dali extrai as personagens colhidas pela luz. Chega assim à “Vocação de São Matheus”, que constitui um momento revolucionário da arte pictórica, uma relação extraordinária entre luz e sombra, com aquele raio de sol que atravessa toda a cena e a divide em duas entidades. Foi esse traço revolucionário que tentei colocar no centro da história, uma vida passada entre luz e sombra, duas partes que se unem num conjunto harmônico e ao mesmo tempo conflituoso. Estou convencido de que, em Caravaggio, a sombra é mais importante do que a luz, luz que ele faz emergir da sombra, da escuridão”.

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