A RESSURREIÇÃO DO ULTRA PANAVISION

Um formato “gigante”, que fez sua última aparição nas telas em 1966, voltou às salas de cinema em uma superprodução badalada. Mas, afinal: o que ele tinha de tão especial?

Texto: Ricardo Bruini
Imagens: Divulgação

Em 1966, o mundo viu pela última vez a exibição de um longa-metragem captado e projetado em Ultra Panavision, um processo que utilizava película de 70mm em conjunto com uma proporção de tela extremamente larga. Agora, depois que J.J. Abrams “relançou” o antigo 70mm com o novo filme de Star Wars, Quentin Tarantino resolveu dar um passo ainda maior e ressuscitar o quase extinto Ultra Panavision em seu novo longa, Os Oito Odiados. Mas, afinal: o que é esse tal de Ultra Panavision?

Cronologia das proporções de tela
Para entender o Ultra Panavision, é preciso, primeiramente, compreender um pouco os diversos tipos de proporção de tela utilizados pelo cinema ao longo das décadas. A proporção de tela (aspect ratio) trata da relação matemática mantida entre as duas dimensões (largura e altura) de uma imagem, podendo ser representada por dois números inteiros (4×3, 16×9), por decimais (1.33, 1.77) ou até mesmo, por proporções (1.33:1, 1.77:1).

Desde o início do cinema, o aspect ratio tem sido aprimorado e modificado, o que gerou algumas dezenas de formatos ao longo dos anos; alguns sobreviveram, outros ficaram pelo caminho. No início, logo após a invenção do rolo de filme feita por Eastman, a proporção de tela era de 1.33:1 (ou seja, ligeiramente mais larga do que alta, quase um quadrado) e se baseava em quatro furos do filme 35mm para a altura do fotograma (esses furos existiam para tracionar a película no interior da câmera). Também conhecida por proporção clássica, adotava a dimensão 4×3, também expressa por 1.33, ou ainda 1.33:1.

Uma pequena adaptação foi necessária com a chegada do som, o que obrigou uma suave mudança do 1.33 para o 1.37, a fim de comportar a trilha sonora na borda da película. Durante muito tempo, esse formato de tela foi adotado como padrão da indústria do cinema.

O advento da TV obrigou os estúdios de cinema e os fabricantes de equipamentos a criarem uma tecnologia diferenciada e mais impactante. Afinal, se agora era possível ver filmes no conforto de casa, as salas de cinema passariam a perder público. A televisão adotava a mesma proporção de tela 4×3 (1.33), o que tornava fácil a exibição de filmes na proporção clássica.

A partir de então, começou uma busca frenética pela criação de proporções de tela e sistemas de captação/exibição que dessem aos espectadores uma maior imersão na “Sétima Arte”. O Cinerama surgiu nessa onda como uma nova experiência sensorial. Baseado em experiências com simuladores de batalhas na Segunda Guerra Mundial, o Cinerama utilizava um intrincado sistema de três câmeras 35mm para captar uma única imagem fracionada em três partes (com lentes fixas de 27mm para minimizar os problemas de fusão entre as três imagens).

Na exibição, três projetores precisamente ajustados e sincronizados faziam a junção das três imagens (uma ao lado da outra) em uma grande tela larga e curva em 140 graus, com aspect ratio de 2.59:1. Além da imagem, o som era tratado com detalhismo, com sete trilhas de áudio individuais que criavam um efeito surround que percorria a tela de exibição de acordo com os elementos em cena. Entretanto, apesar do excelente impacto sensorial, o Cinerama era muito caro e de difícil operação. A equipe técnica (tanto para captação quanto para exibição) era enorme, pois qualquer mínimo problema com os gigantescos equipamentos inviabilizava a projeção. Além disso, as lentes 27mm não permitiam uma grande gama de utilizações, ficando o filme muito preso a planos gerais de paisagens e a tomadas aéreas.

Ainda no início dos anos 1950, surgiu uma alternativa mais barata e prática que utilizava película 35mm e criava um “crop” nas partes superior e inferior da imagem, a fim de se obter um aspect ratio de 1.66:1. O problema dessa técnica é que, embora barata, ela impunha uma inevitável perda de resolução da imagem, pois parte de cada fotograma da película não era utilizada. Foi então que o Cinemascope foi criado, para solucionar os problemas do crop na película 35mm. Utilizando lentes anamórficas, a imagem era “espremida” lateralmente e impressa na película 35mm com essa distorção. Na hora da projeção, outra lente anamórfica permitia que a imagem voltasse à proporção original. Dessa forma, era possível obter um aspect ratio de incríveis 2.35:1 utilizando a superfície completa de um fotograma padrão de película 35mm.

Na implacável concorrência da época, logo em seguida foi lançado o Vistavision, que utilizava a película 35mm correndo lateralmente na câmera (como nas câmeras fotográficas reflex), utilizando oito perfurações para cada fotograma ao invés das quatro perfurações tradicionais. Dessa forma, além do larguíssimo aspect ratio de 1.85:1, a imagem ganhava muito em resolução. Afinal, o dobro da área da película era utilizado para cada fotograma. Posteriormente, no laboratório, as imagens eram impressas em outra película, agora na posição tradicional, para facilitar a projeção nas salas de cinema convencionais.

De olho no mercado crescente, uma pequena empresa lançou o Ultra Panavision, que utilizava película de 70mm e lentes anamórficas. O inacreditável aspect ratio de 2.76:1 e a alta resolução obtida pela película de 70mm fizeram do Ultra Panavision o formato comercial mais largo visto até hoje. A última exibição de um filme rodado em Ultra Panavision se deu em 1966, menos de uma década após ter sido inventado. O motivo? Os altos custos de fabricação dos equipamentos, bem como da cara película de 70mm.

Afinal: Qual é a vantagem?
Em uma época com tantos avanços tecnológicos, é difícil compreender como cineastas de renome ainda preferem utilizar equipamentos e tecnologias de 50 anos atrás. Bem, a verdade é que, embora a película de 70mm e os equipamentos Ultra Panavision sejam de outra era, os equivalentes digitais ainda não são capazes de oferecer a mesma resolução e textura. Isso mesmo! Os novíssimos equipamentos digitais 4K ainda não são páreo para a boa e velha película!

Se a película de 35mm já oferece resolução de imagem, latitude de exposição e gama de cores superiores àquelas oferecidas pela maioria das câmeras digitais de cinema, imagine o que uma película de 70mm (com três vezes mais área exposta por fotograma) pode oferecer? Além disso, diferentemente das câmeras digitais, que normalmente trabalham com algum tipo de compressão de sinal, a película entrega uma imagem físico/química sem qualquer tipo de perda.

Evidentemente, todo o processo de captação de imagens utilizando-se película é bem mais caro e bem menos prático. Não é possível ver com precisão o que está sendo impresso no filme (somente após o processo de revelação); não se pode deletar arquivos; e não se pode expor os rolos de filme à luz (o que deixa o material captado sob constante risco de perda). Além disso, cada rolo dura poucos minutos, sendo necessário todo um enfadonho processo para retirar um rolo exposto e substituí-lo por um novo. E o que dizer do alto custo de cada pé de filme de 70mm? Ainda assim, os ganhos na qualidade da imagem final compensam (se for “qualidade” o que se busca…).

Além da altíssima qualidade de imagem garantida pelo 70mm, o Ultra Panavision conta com objetivas anamórficas que “espremem” a imagem lateralmente (assim como acontecia no Cinemascope) e permitem uma aspect ratio de 2.76:1. Dessa forma, os enquadramentos passam a comportar mais elementos, diminuindo-se a quantidade de planos necessários para cada cena. Também a quantidade de cortes de um take para o outro é sensivelmente diminuída, afinal, o corte só existe quando não é possível se passar uma ideia em um único quadro (embora muitos cineastas se esqueçam disso). Com a proporção “super-larga”, a linguagem cinematográfica do Ultra Panavision passa a ser bastante distinta das linguagens empregadas em formatos menores. Até a iluminação tem que ser pensada de outra forma, pois grande parte do cenário fica sempre em quadro, e a luz precisa ser pensada para toda a cena, e não somente para cada take (como é feito em enquadramentos menos amplos).

O Ultra Panavison é um formato tão raro que somente um kit de lentes foi fabricado. Ou seja: Tarantino utilizou, em Os Oito Odiados exatamente as mesmas objetivas usadas no clássico Ben-Hur!