AMERICAN FILM MARKET – JOGO DE “GENTE GRANDE”

O AFM (American Film Market) é uma excelente vitrine para a negociação de filmes e entender suas regras aumenta as chances de se fazer bons negócios

Texto: Tristan Aronovich
Imagens: Divulgação

Em Los Angeles (na divisa entre as charmosas praias de Santa Monica e Venice), anualmente, acontece o concorrido American Film Market, ou simplesmente AFM. Considerado o mais importante evento do gênero em todo o mundo, o AFM reúne, em pouco mais de uma semana, milhares de vendedores e compradores de filmes oriundos dos quatro cantos do planeta. Muito dinheiro é movimentado em negócios e acordos de distribuição milionários. Mas, antes de discutirmos os detalhes do AFM, é importante saber a diferença entre um “festival” de cinema e um “mercado” de cinema.

Festival x Mercado
Tipicamente, um “festival” de cinema é um evento onde diversos filmes são exibidos seguindo o formato de uma mostra – que pode ou não ser competitiva e proporcionar premiações a diversas categorias, como melhor filme, melhor direção, prêmio do júri popular etc. Via de regra, a principal função (e propósito) dos festivais é gerar mídia e atenção junto ao público, crítica e imprensa para os filmes selecionados. Outra função, um pouco mais sofisticada, é aquilo que a indústria chama de “gerar pedigree” para o filme.

Explicando: mesmo que não receba prêmios ou “vença” festivais, o simples fato de ser oficialmente selecionada ou convidada faz com que a obra se torne automaticamente mais atraente aos olhos de distribuidores, veículos de comunicação e do grande público. Alguns festivais, no entanto, são exceções: além de cumprirem as funções citadas, também servem como plataformas para compra, venda e negociação (distribuição) de filmes, garantindo contratos para exibição em salas de cinema, canais de TV ou streaming na Internet. Os casos mais notáveis de festivais que atuam dessa forma incluem o Sundance Film Festival, Festival de Cannes, Berlin / Berlinale, Toronto Film Festival, Tribeca Film Festival e South By Southwest.

Já os “mercados”, diferentemente dos festivais, não têm a função de premiar filmes ou agregar valor e pedigree. Como as feiras de negócios, os mercados se destinam única e exclusivamente a transações financeiras que envolvem direitos de exibição/veiculação dos filmes. Com pequenas variações e diferenças, essencialmente um mercado é composto por centenas de escritórios (ou booths/stands) de empresas que representam catálogos inteiros de filmes (por exemplo: os sales agents), além de empresas interessadas em adquirir conteúdo.

Os catálogos de títulos são extremamente variados no que se refere a gênero, estilo e qualidade. É possível encontrar desde filmes obscuros de horror (os chamados filmes “B” ou trash) oriundos do Japão, Tailândia e Polônia até densos dramas protagonizados por Cate Blanchet, ou o retorno triunfal de Harvey Keitel (no belíssimo filme Youth). Sem contar documentários ou fitas de ação com astros dos anos 1980 que continuam na ativa, mas fazendo filmes para um público mais reduzido (vi mais de dez pôsteres de títulos estrelados por Steven Seagal no AFM deste ano).

E para onde vão todos esses filmes? Serão exibidos em salas de cinema? Não! Não há salas suficientes para todos. Aliás, a maioria não passa nem perto do circuito de salas de cinema, sendo vendida para: plataformas de streaming ou aluguel via Internet (desde os gigantes Netflix, Amazon Prime e Hulu até canais menores do YouTube e Vimeo inseridos no mercado de aluguel); Video On Demand (VOD), como a NET NOW; canais pagos e abertos; e veículos mais “exóticos” para o público leigo, como exibição em linhas aéreas, escolas, presídios, órgãos governamentais etc.

Consequentemente, além dos “vendedores” de filmes que vão aos mercados com seus catálogos, há representantes de absolutamente todas essas plataformas de exibição (os “compradores”). Representantes de canais de TV aberta do Egito, plataformas de Internet do Japão, canais a cabo da Inglaterra e linhas aéreas do Oriente Médio! Filmes de todos os estilos, gêneros e orçamentos para atender a compradores que representam os mais variados públicos, gostos e culturas.

Por fim, além das reuniões e encontros destinados exclusivamente à negociação de títulos e direitos, a AFM promove um ciclo de palestras muito relevantes para profissionais do audiovisual. Alguns “gigantes” da indústria comparecem ao AFM todas as manhãs para debates acalorados com direito a interação com o público! Mas não espere encontrar celebridades ou carinhas conhecidas – quem ministra ou media esses debates e palestras são justamente as pessoas que ficam por trás das câmeras ou em escritórios que definem, por meio de contratos e projetos milionários, o presente e o futuro da indústria audiovisual. É puro “business” (entendo que, para os cineastas, artistas e realizadores, como eu, não é um cenário muito atraente; mas é necessário compreendê-lo para jogar o jogo!)

Preferências do mercado
Em meio a tantos filmes, compradores e mercados exibidores, é possível perceber certas tendências – por exemplo, os títulos que despertarão mais interesse e que serão vendidos com mais facilidade? Sim, dá para distinguir algumas características onipresentes. Para filmes dos gêneros Drama, Romance, Comédia ou Comédia Romântica, as opções são árduas. A obra deve contar com nomes de peso (pense em Bruce Willis, Brad Pitt, Matt Damon, Robert Downey Jr etc.) ou, ao menos, ter muito pedigree! Isso significa muitos louros, seleções oficiais e prêmios em festivais respeitados, além de artigos veiculados na mídia. Se o seu filme for um drama sem nomes conhecidos ou pedigree, infelizmente, as chances de bons negócios serão bastante escassas.

Um gênero que, até recentemente, era vendido com facilidade era o Horror. Nos últimos dois anos, porém, houve uma mudança no mercado: justamente por conta dessa facilidade de venda, a indústria recebeu uma enxurrada desses títulos e o resultado é que, agora, o mercado ficou saturado deles. Ainda vendem bem (mais que os dramas), mas, agora, os compradores estão mais exigentes e esperam encontrar elementos inovadores ou inusitados.

Este ano, um gênero que parecia em alta no mercado eram as fitas de ação e aventura – mesmo aquelas sem grandes nomes se mostraram relativamente populares. Para a geração que cresceu nos anos 1980, uma notícia boa (e engraçada): filmes de Artes Marciais estão em alta novamente! Muitos dizem que isso se deve à entrada forte da China no mercado consumidor, mas, por enquanto, é só uma teoria.

Preparação
Você concluiu seu filme (ou filmes)? Possui vários projetos prontos e acredita que está na hora de arriscar uma aventura de “gente grande”? Então, se prepare: ter os filmes prontos é só o começo! Em primeiro lugar, garanta que suas obras estejam devidamente legendadas ou dubladas em Inglês e certifique-se de que tem absolutamente todos os formatos digitais em pronta entrega: vídeo encodado em formato de alta resolução, como Apple Pro Res HD422 HQ (não utilize proxies como LT), DCP package e áudio do filme exportado em pistas separadas (pista para diálogos, pista para foley e pista para trilha sonora). Todas as pistas de áudio devem estar em 48Khz, 24 bits e True Stereo!

Além desses formatos e arquivos (também chamados de “deliverables”), é importante ter toda a documentação que comprove que você é o detentor dos direitos da obra e, consequentemente, está apto a negociá-la (no Brasil, é essencial obter o CRT) além de materiais promocionais como: trailer, teaser, website, pôster do filme e cartões de visita profissionais. Vale frisar que provavelmente não vale a pena visitar um mercado caso você tenha somente um filme. Os compradores ficam mais receptivos quando os vendedores possuem mais de uma opção em seus catálogos. Com tudo isso pronto, resta separar o orçamento: ingresso (o ingresso para o AFM não é barato; consulte o site do mercado para preços atualizados!), passagem para Los Angeles, estadia, alimentação, aluguel de carro etc.

Finalmente, é essencial frisar que os contatos e agendamentos de reuniões devem ser feitos antecipadamente. Isto significa que você precisa criar/estabelecer relacionamentos com os compradores/vendedores de antemão para conseguir horários com eles. A maioria dos escritórios não estará aberta para recebê-lo, caso não haja um horário previamente agendado. Ufa!… Parece um jogo complexo, não? E é mesmo! Mas, para os que amam cinema e pretendem desenvolver suas carreiras na Sétima Arte, é importante se preparar e saber jogar.