ANÁLISE: CHATÔ – O REI DO BRASIL

Luiz Carlos Lucena, colaborador de Zoom Magazine, analisa o longa Chatô – O Rei do Brasil que teve uma produção conturbada e cheia de impasses

Glauber Rocha, Orson Welles, Tarsila Amaral, Macunaima, Carmem Miranda, Chacrinha… todos esses santos “baixaram” em Guilherme Fontes durante a realização do filme que é um retrato de uma era do país: Chatô – O Rei do Brasil. As alegorias e a verve de Glauber estão nos cenários e na interpretação alucinada do Chatô de Marco Ricca, nos diálogos e nas intervenções malucas que ele faz na TV – então, recém-nascida e na qual tudo era ao vivo (lembra a todo momento o programa Abertura).

Orson Welles se delineia em todo o filme, também – no “olho Rosebud” de um moribundo, no flashback do roteiro etc. O Brasil está nos cenários e nos musicais que remetem à velha Atlântida. É um filme transbordante de nacionalidade.

Abordagem histórica
Guilherme Fontes sai da crônica quase policial para ocupar um lugar merecido na história do cinema brasileiro. Seu filme nasce um clássico, não apenas na abordagem histórica, mas, principalmente, nas referências que utiliza (sem chegar à cópia) para construir um painel de imagens que brinda o espectador com o melhor do cinema: emoção, envolvimento, catarse e expectativa.

Chatô foi o primeiro grande orçamento de nosso cinema (algo na casa dos R$ 10 milhões, quando a média eram investimentos de R$ 2 a R$ 3 milhões). Hoje, outros filmes já superaram essa marca, mas poucos deixam um rastro tão brilhante.

A obra é “puro” cinema – em tudo: roteiro, direção de atores, arte e cenografia. Há diálogos magistrais e interpretações (caricatas ou não) que sempre estão no timing correto. A família se arvorou na defesa da memória do homenageado e tentou interditar a exibição do filme. A estreia (a princípio, em poucos cinemas) e a aceitação da crítica e do público jogaram a produção para novas salas, ajudando-a a fazer história.

Marco
Apesar de tocar em fatos que exigem conhecimento histórico do espectador mais antenado, a estrutura do filme leva o público para dentro dos acontecimentos e revela um Brasil que todos conhecem, com sua luxúria carnavalesca, politicagem safada e um homem com ideias que tenta defender a qualquer custo.

Atores que há 20 anos se projetavam (e outros já revelados) se consolidam como grandes intérpretes – que delícia é ver Marco Ricca se autodestruindo e Leandra Leal, muito jovem, já antecipando a grande e sensual atriz que se manifestaria completamente em O Lobo Atrás da Porta.

É um filme com letras maiúsculas, a ser comemorado. Não abre um novo ciclo no cinema brasileiro, mas é um marco da Retomada.

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