ARMAZENAMENTO DIGITAL: VALE MESMO A PENA?

Por mais prática que possa ser a tecnologia digital, o armazenamento de dados dessa natureza é um dilema que ainda não conseguimos solucionar  

Texto: Ricardo Bruini 
Imagens: iStockphoto

Dados digitais estão por toda parte: documentos, livros, vídeos, imagens… Praticamente todo o conhecimento gerado pela humanidade está, hoje, armazenado em formato digital (ou, ao menos, sendo rapidamente convertidos para dados). Até mesmo os museus têm digitalizado seus acervos, para que o público possa ter acesso a esses conteúdos sem precisar estar em frente às obras de arte propriamente ditas.

Dos documentos que você tem em casa aos álbuns de família modernos, passando por vídeos de eventos caseiros ou contas bancárias, tudo, hoje, é convertido para dados. Pilhas de documentos, estantes de livros, prateleiras de filmes e caixas de CDs foram substituídos por pequenos pen drives, hard discs compactos ou pelo armazenamento em “nuvens”.

Uma ameaça real
Entretanto, manter essa descomunal quantidade de dados por longo prazo é um problema cuja solução definitiva ainda está longe de ser encontrada. De fato, essa solução simplesmente ainda não existe em escala comercial. Não temos garantias de que nossos álbuns de família no Instagram, vídeos no YouTube, agendas no i-Cloud ou mesmo o backup de todas essas informações, que guardamos em um pen-drive de última geração,“evaporem” e deixem de existir de uma hora para a outra (e sem qualquer aviso prévio). DVDs, CDs, discos ópticos, hard discs, memórias sólidas, pen drives e “nuvens”, definitivamente, não são meios confiáveis para o armazenamento por vários anos.

É um fato que nos apresenta um enorme dilema. Afinal, se, por um lado, estamos cada vez mais ágeis e temos acesso fácil a dados e informações, por outro, estamos cada vez mais dependentes de uma tecnologia extremamente instável. Por mais imediatista e efêmera que nossa sociedade tenha se tornado, ainda assim, existem dados que não podemos perder, em hipótese alguma.

Se, para a humanidade, o armazenamento de dados já é um enorme problema a ser contornado, para os profissionais do audiovisual há um aspecto a mais com que se preocupar: como armazenar suas pesadas obras em longo prazo?

Backups não bastam
Poucas coisas demandam maior espaço de armazenamento digital que vídeos – e quanto maior a resolução, mais espaço é preciso. Guardar um filme ou uma coleção de vídeos, ou mesmo, capítulos de um programa ou série de TV, não é uma questão tão complicada (se for por alguns meses ou anos).

Mas manter este acervo por vários anos já não é algo tão elementar. Não bastam backups reservas. É preciso, de tempos em tempos, remasterizar (criar um novo máster) este material; ou, no mínimo, rearmazenar os arquivos em dispositivos mais recentes. Assim, minimizamos os efeitos da perda de capacidade de armazenagem dos dispositivos que já estão em uso há algum tempo.

Fitas magnéticas
A melhor opção para o armazenamento digital de longo prazo disponível atualmente é a fita magnética, que tem uma vida útil estimada de 40 ou 50 anos (desde que armazenadas da maneira correta). É por isso que empresas e governos utilizam sistemas de armazenamento e backup em fitas magnéticas.

A vida útil estimada dos discos ópticos, como CDs e DVDs, não passa de dez anos, uma marca da qual os discos rígidos nem se aproximam, devido ao desgaste constante de suas partes móveis. Pen drives e memórias sólidas são ainda menos confiáveis e só são recomendados para armazenamento transitório e provisório de dados. Mesmo arquivos de vídeo digital com alta resolução podem ser armazenados em fitas magnéticas, embora o espaço ocupado seja muito grande.

Entretanto, as fitas magnéticas possuem os mesmos inconvenientes que todo entusiasta de vídeo já conhece (das antigas fitas VHS, Betacam ou DVCAM). Cada fita possui capacidade bem limitada de armazenamento e várias delas ocupam um espaço físico considerável.

Qualquer fonte magnética ou eletromagnética pode causar danos irreparáveis ao conteúdo das fitas. Mofo, umidade, temperaturas elevadas e outras condições climáticas desfavoráveis danificam fisicamente (e com relativa facilidade) as fitas e cartuchos. Mesmo o armazenamento em condições ideais requer cuidados, pois, de tempos em tempos, é importante ventilar as fitas e girar os cartuchos (para que a fita não cole dentro do carretel ou se deforme).

Rolos de filme
Na edição anterior, falamos sobre rolos de filmes que foram encontrados praticamente intactos após mais de um século de armazenamento. Se, para dados digitais, esta não é uma alternativa viável, no caso de imagens, o melhor meio físico para se armazenar é, sem dúvidas, o bom e velho rolo de filme. Sabemos que, se mantidos em condições adequadas de umidade e temperatura do ar, rolos de filme podem durar muito tempo.

Por isso, muitos produtores de conteúdo audiovisual acabam fazendo o transfer do material digital para rolos de filme, garantindo, desta forma, um meio mais estável para o armazenamento das obras em longo prazo. Fazendo-se 2 ou 3 cópias e armazenando-se cada uma delas em locais distintos, minimiza-se muito alguma perda causada por um eventual incêndio ou enchente (algo que sempre deve ser considerado).

Placas de vidro
No entanto, a única forma verdadeiramente confiável de se armazenar dados e imagens digitais é fazer o caminho inverso: transformá-las em informações analógicas (letras, fotos, fotogramas etc.) e imprimi-las no meio de duas placas de vidro. Basicamente é como se fosse um microfilme feito em um “sanduíche” de vidro.

Desta forma, minúsculas páginas de documentos, diminutas fotos e finas tiras de fotogramas podem ser fisicamente armazenadas por longos períodos sem perder informações e sem deteriorar com o tempo. Nem mesmo é preciso de tecnologias ou softwares proprietários para ler este material no futuro. Afinal, uma simples lente de aumento já revela o que há armazenado em cada placa de vidro.

Por enquanto, esta tecnologia de armazenamento em longo prazo esbarra em dois pontos cruciais: a capacidade de armazenamento (mesmo em miniatura, cada informação analógica ocupa espaço na área da placa de vidro, o que limita sua capacidade) e o alto custo de fabricação de cada placa.
São necessários ambientes esterilizados e sem qualquer partícula de poeira para se confeccionar as placas e se gravar as informações no interior das mesmas. Fora isso, as matérias-primas utilizadas precisam ser extremamente puras e cristalinas. As informações são gravadas com metais preciosos, o que encarece ainda mais o processo.

Enfim: por enquanto, ainda temos que aguardar pelo surgimento de alguma tecnologia comercial que possibilite o armazenamento de dados em longo prazo. É esperar para ver – e torcer para que nossos dados não desapareçam.

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