CINEMA BRASILEIRO – UM NOVO CINEMA!

Da alegria das chanchadas à brasilidade contemporânea de Casa Grande e Boi Neon, nossa cinematografia é constituída por “eras” muito peculiares

Texto: Luiz Carlos Lucena
Imagens: Divulgação

O cinema brasileiro tem uma história marcada por ciclos que se sucedem, às vezes de forma evolutiva e outras, de maneira antropofágica – para usar o termo andradiano. Primeiro vieram as produções esparsas, mas muito representativas, dos anos 1930: Limite, o grande filme de Mario Peixoto, e a obra de Humberto Mauro, Ganga Bruta. Mas estes não constituíram um ciclo, e sim, tentativas isoladas de se fazer um cinema com paisagens e linguagem brasileiras.

O primeiro grande ciclo aconteceu com a Chanchada – filmes musicais e de humor que reinaram nas telas dos cinemas nas décadas de 1940 e 1950. Grande Otelo, Oscarito, Aurora Miranda, Dercy Gonçalves, Ankito e outros artistas levavam milhares de brasileiros aos cinemas dos centros de São Paulo e Rio de Janeiro e, também, das cidades do interior, em filmes que competiam de igual para com igual com os westerns e outros títulos hollywoodianos. Um período nobre para a Sétima Arte, quando a TV ainda não era o modelo da indústria cultural e o cinema reinava absoluto, junto com o teatro de revistas, no interesse do público.

Cinema Novo
No final dos anos 1950, surgiram as primeiras produções que abririam caminho para o que é considerado o ciclo mais importante do cinema brasileiro – o Cinema Novo. Nelson Pereira dos Santos foi o cineasta que primeiramente absorveu os experimentos do novo realismo italiano e que colocou na tela personagens parecidos com pessoas reais. Rio Zona Norte e Rio 40 Graus abrem as portas para a entrada de Glauber e “turma” com seu cinema cheio de alegorias e identificações com o país, a câmera na mão e uma ideia na cabeça. As produções, antenadas com o espírito da época (e que, mesmo sem a resposta de um público que já se identificava mais com as novelas da TV), ganharam o respeito de plateias e críticas internacionais, marcando presença nos festivais e enchendo as páginas da revista “Cahiers du Cinema”.

Glauber Rocha virou o “dândi” do cinema do Terceiro Mundo, ocupando o mesmo pódio de grandes realizadores, como Godard e Truffaut. Mas o Cinema Novo marcou um ciclo breve: os filmes-cabeça não interessavam ao público, a censura do Governo Militar “cortava” as ideias dos “cinemanovistas”. No lugar do Cinema Novo entrou um Cinema Marginal, com filmes toscos, baratos, mas ainda antenados à nossa realidade.

Anos difíceis
O Cinema Marginal não conseguiu sequer marcar um ciclo, tão poucas foram suas produções e representantes. Em contraposição, nasceu, na zona de prostituição paulista, o chamado Cinema da Boca do Lixo – a Pornochanchada. Esta sim, muito mais vibrante em número de produções e na empatia e que teve grandes estrelas, como Vera Fischer e Matilde Mastrangi, além de diretores consagrados. Na sequência, vieram produções importantes, mas que não se enquadravam em nenhum ciclo, mesmo que algumas tenham sido blockbusters – Dona Flor e Seus Dois Maridos e Bye Bye Brasil, entre outros.

Fernando Collor quase decretou o fim do cinema brasileiro ao fechar a Embrafilme, no início dos anos 1990. Mas Carla Camurati conseguiu, em 1994 – dois anos após a queda do presidente –, colocar o cinema brasileiro de novo nas telas, com Carlota Joaquina. Estava aberto o ciclo da Retomada. São, portanto, 22 anos de produções que novamente tornaram o cinema brasileiro uma realidade, com um número considerável de grandes filmes, incluindo Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Um novo ciclo?
A Retomada, acredito, está sendo ultrapassada, apesar da crítica e dos cineastas ainda não terem observado uma clivagem – um corte que possa indicar uma nova fase na produção tupiniquim. Nos últimos anos, essa produção consistente, diferenciada, autoral e de apelo popular vem ocupando as telas, principalmente os filmes de uma região que se consolida como polo cultural e produtor de arte – os filmes do Pernambuco (além de algumas produções dos interiores mineiros e cariocas).

Vamos falar de duas produções que exemplificam esse novo ciclo que se abre dentro da Retomada. Dois filmes recentes, com um estudo aprofundado das mazelas e dos maneirismos da sociedade brasileira: Casa Grande, do carioca Felipe Barbosa, e Boi Neon, de Gabriel Mascaro, de Pernambuco.

Casa Grande contrapõe o executivo que joga na bolsa e que está falido – a semelhança com Eike Batista não é mera coincidência – e a estudante da nova classe média que vai seduzir o corpo e a mente do filho burguês. O filme é um retrato interessante dos embates que se colocam nos últimos tempos – agora acirrados com a crise política –, com a corda puxada de um lado pela classe média de nível sócio-econômico mais elevado, que os marxistas chamariam de burguesia, e a nova classe média que ascendeu com os programas sociais e adquiriu conhecimento e até poder econômico e contesta o sistema.

O executivo quer manter o “status quo” e procura excluir a família, aqui representada muito mais pelo filho do que pela mulher, com seus fetiches burgueses. Mas está falido, literalmente – um paralelo, inclusive, com o país que entra em recessão. O garoto que frequenta a escola de elite vai descobrindo as jogadas do pai para mantê-lo na escola sem dinheiro – o que tem a ver, também, com as artimanhas do governo para tentar se manter em uma posição confortável. A garota da nova classe média vai detonar e acender o pavio que faz o garoto entender todo esse processo – e ele terá que optar entre o falso conforto da família burguesa e a realidade da vida real, representada pelo motorista, quase um alter ego do pai, e pela empregada que lhe dá os prazeres da vida real, inclusive o sexual.

Um filme importantíssimo na filmografia brasileira recente, Boi Neon pega outro caminho ao discutir sexualidade e gêneros, principalmente. Aliás, o filme subverte totalmente a questão do gênero: o vaqueiro que trabalha preparando o gado para a vaquejada desenha e costura as roupas da companheira dançarina e sonha trabalhar em uma fábrica de tecidos e ter uma máquina overlock para substituir a geringonça chinesa que usa; gosta de perfume Azarro, pois vaqueiro que mexe com bosta de gado também quer se sentir bonito e cheiroso. O parceiro tem, como principal preocupação, os longos cabelos, que trata usando uma chapinha. Em uma terra de “machos”, todos são femininos também.

Boi Neon chega devagar com seu roteiro sem história linear (com começo meio e fim). Fala de sensações, conta partes de uma história, mostra situações do cotidiano e consegue trazer, principalmente para o público do sul-sudeste, a realidade da vaquejada, com sua câmera quase documental e os diálogos que parecem naturais, como se não existisse um roteiro pré-concebido. No final, a obra brinda o espectador com um “tour de force”: a cena do vaqueiro que transa com a vendedora de perfumes grávida que acabou de conhecer e que o seduz. Grávida também transa e tem tesão, nos diz o filme.


Casa Grande e Boi Neon, no entanto, podem ser as pontas de um movimento no qual talvez se incluam outros filmes desse mesmo “novo ciclo”. Por exemplo: Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, Amarelo Manga, de Claudio Assis, e uma obra que entusiasmou a crítica e o público, na história que contrapõe o usineiro tradicional ao mundo contemporâneo, O Som ao Redor. Todos do nordeste, com diálogos que trazem uma nova sonoridade com as palavras e os sotaques nordestinos, em contraponto ao “carioquês” que domina as novelas da TV Globo e seus filmes. Histórias da vida real, roteiros bem estruturados, personagens bem definidos e que conquistam os festivais e o público. Vale a pena acompanhar essas obras, que trazem um sopro de novidade para a cinematografia nacional.

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