COMO CRIAR UM DOCUMENTÁRIO COM WOLNEY ATALLA

Realizado com tato e sensibilidade, documentário Sequestro, de Wolney Atalla, mostra o cotidiano da Divisão Antissequestro de São Paulo

 

Por Eduardo Torelli

Fotos Divulgação

 

Acompanhando a rotina da DAS, Wolney Atalla descobriu que seus investigadores e delegados não apenas agem com rigor na elucidação desses crimes, como aliam muita sensibilidade às suas investigações. Isto é mostrado em imagens tão chocantes quanto redentoras – afinal, elas nos mostram que, apesar da má-fama da Polícia no Brasil, há mecanismos de inteligência aptos a nos defender da violência.

 

IMAGINO QUE FOI DIFÍCIL LEVAR À FRENTE UM PROJETO COMO SEQUESTRO, NÃO SÓ PELO TEMA “PESADO”, MAS PELOS ENTREVISTADOS GUARDAREM TRAUMAS DESTA EXPERIÊNCIA.

Foi um filme complicado, pessoal e profissionalmente. Quando conhecemos a Divisão Antissequestro, nos indicaram o Dr. Eduardo Ferreira Santos, do GORIP, grupo de psicólogos e psiquiatras que trabalha gratuitamente com vítimas de sequestro. Através desses médicos fomos apresentados às vítimas. Antes das entrevistas, o médico me explicava o caso e o que eu poderia abordar. Antes de entrar no estúdio, conversava a sós com cada uma delas. Muitas pediam que o médico as acompanhasse. E para passar mais tranquilidade, éramos uma equipe reduzida. O diretor de fotografia operava duas câmeras e o técnico de áudio ficava do lado de fora. Também orientava a vítima a, quando quisesse, interromper a entrevista. Depois, com a câmera gravando, conversávamos um pouco para relaxar, sobre qualquer assunto que não fosse o sequestro. Ao iniciar as perguntas, pedia que o entrevistado contasse em detalhes o que lembrava sobre os dias de terror, do começo ao fim. Anotava tudo e, após a vítima terminar de falar, voltava aos temas principais. O importante é nunca explorar o sentimento da pessoa, forçando-a a lembrar-se de algo que não queira, induzindo-a a chorar. As moças deram depoimentos muito fortes, e nunca demonstraram fraqueza. Uma foi estuprada no cativeiro – ela relata o acontecimento em frente à câmera. Outra ficou menstruada no primeiro dia de sequestro e passou mais de uma semana sem tomar banho. São pessoas extremamente fortes, corajosas.

 

TODAS AS VÍTIMAS CONCORDARAM EM DAR DEPOIMENTOS?

Nenhuma vítima concordou, imediatamente, em dar entrevista. Muitas quiseram, antes, conversar com a família, trocar ideias com o psiquiatra e comigo, antes de gravar. Junto ao psiquiatra, todas passaram por um processo de preparação para as entrevistas.

 

QUAL FOI O CASO QUE MAIS O IMPRESSIONOU?

O primeiro foi o de Marina. Ela foi arrebatada junto com o namorado, quando estavam em um carro, na Praça do Pôr-do-Sol, em Pinheiros (São Paulo – SP). Ambos acabavam de sair da USP. Sequestraram-na por causa do carro, um Pajero. Abandonaram o namorado ao perceber que o veículo era dela e a levaram para o cativeiro. Marina foi encapuzada e amarrada. Logo nos primeiros dias, um sequestrador a estuprou. Forçou-a a se despir enquanto empurrava o cano de um revolver contra sua nuca, coberta por um capuz.  Depois, foi transferida para outro cativeiro e só foi libertada após o pai pagar o resgate, 22 dias mais tarde. O segundo caso foi de Washington L.  Ele tem uma fábrica em Osasco e, quando chegou ao trabalho, foi arrebatado por dois homens armados. Levado à Lagoa de Carapicuíba, foi forçado a entrar em uma manilha de obra, um tubo de concreto, que estava enterrado perto de um lixão. Permaneceu dentro do tubo por 42 dias, enterrado a um metro de profundidade. Ficou acorrentado todo o tempo, passando frio e calor, e fazendo suas necessidades em sacos de supermercado. Após o pagamento do resgate, foi deixada a chave do cadeado que o acorrentava. Ele teve que se libertar sozinho, se arrastar por um quilômetro (pois suas pernas não respondiam mais a qualquer estímulo), atravessar uma pinguela, um trilho de trem e subir um morro usando apenas as mãos. Quase perdeu as duas pernas, mas, hoje, está andando, após dois anos de fisioterapia.

 

A “ESPINHA DORSAL” DO DOCUMENTÁRIO É UM SEQUESTRO EM ANDAMENTO. TRATA-SE DE UMA SITUAÇÃO REAL OU DE UMA SIMULAÇÃO?

Não tem há nenhuma simulação no filme. Todas as situações são reais. Não tínhamos controle sobre o ambiente e as situações. Apenas quatro equipes – Alfa, Bravo, Delta e Eco – nos autorizaram a acompanhá-las. Assim, esperávamos pacientemente até uma delas ter uma vítima em cativeiro. Isto agregou ao filme: criou-se, com o tempo, um laço de confiança entre a equipe e os policiais. Uma confiança que nos permitiu filmar de perto operações de pagamento de resgate, estouros de cativeiro e o caso inédito que conseguimos, e que se tornou o fio condutor do documentário.  O sequestro começou no dia 12 de outubro de 2007, com o indulto do Dia das Crianças, quando o sequestrador “Gilberto” (sentenciado a 25 anos de cadeia por homicídio) não voltou à cadeia e se estabeleceu na favela de Paraisópolis. De lá, ele fez cinco sequestros em três meses, que não chegaram a ser comunicados à polícia. O sexto crime foi o que acompanhamos. Quando o sequestro começou, já estávamos há dois anos acompanhando os policiais. Quando os familiares chegaram à delegacia, no primeiro dia, conseguimos a autorização para que um cinegrafista acompanhasse o primeiro relato do filho e da mãe ao Delegado-Chefe da Equipe Alfa. O tempo foi passando e nosso cinegrafista, Dario Dezem, fez um ótimo trabalho de aproximação com o filho da vítima, ganhando a sua confiança. Os familiares cooperaram conosco, sob a condição de que só autorizariam as imagens no corte final, após assistirem ao filme. Dessa forma acompanhamos os passos do filho negociador durante 33 dias angustiantes. Após o corte final, levei o documentário à residência da família e todos assistiram. Ficaram emocionados e nos autorizaram o uso das imagens.

 

A DIVISÃO ANTISSEQUESTRO IMPÔS ALGUM LIMITE À SUA CÂMERA? OU VOCÊ PODE FILMAR TUDO O QUE QUISESSE?

Sem a ajuda da Divisão Antissequestro de São Paulo, não teríamos o filme. O Delegado Geral de Polícia de São Paulo em 2005 me recebeu junto com o Diretor do DEIC. Expliquei a eles o trabalho, a seriedade da proposta e nosso comprometimento de sempre seguir as orientações policiais durante as filmagens, e eles nos autorizaram a iniciar as filmagens. A única condição foi que, antes do corte final, a polícia poderia nos pedir para editarmos quaisquer trechos que comprometessem o sigilo de seu trabalho. Algumas equipes eram mais abertas em relação às filmagens. As equipes Alfa e Delta foram as que mais nos “abriram” as investigações, desde o arrebatamento das vítimas. Já a Eco e a Bravo preferiram nos deixar acompanhá-las apenas quando já tinham descoberto a identidade do sequestrador, para que nenhuma informação vazasse, o que poderia colocar a vítima em risco. Já no primeiro dia, os policiais nos disseram: “não somos atores; não nos peçam para agir desta ou daquela maneira ou para corrermos e segurarmos a arma desta ou daquela maneira, para o seu filme; não interrompam nosso trabalho; e se forem baleados, o problema é de vocês.”

 

OS INVESTIGADORES JÁ ASSISTIRAM AO FILME?

Todos os investigadores e delegados que nos ajudaram assistiram ao filme. Muitos viram os mais de 15 cortes da edição. Isto foi muito bom, pois, ao fim de cada seção, ouvíamos suas sugestões para que pudéssemos melhorar o corte seguinte. Quando iniciamos as filmagens, os policiais nos tratavam como “mais uma equipe” de reportagem de TV, sem dar importância ao trabalho. Muitos duvidavam que pudéssemos fazer um filme para o cinema. Ficaram impressionados com o trabalho final, quando o assistiram na telona. O Dr. Carlos Castiglioni, Delegado Titular da Divisão, disse que nunca sentiu tanto orgulho de suas equipes.

 

VOCÊ REALIZOU DOIS DOCUMENTÁRIOS MUITO DIFERENTES, AMBOS COM TEMAS ESPECÍFICOS: A VIDA EM CANA (SOBRE OS CORTADORES DE CANA DO BRASIL) E, AGORA, SEQUESTRO. HOUVE MOTIVAÇÕES ESPECIAIS PARA ABORDAR ESSES ASSUNTOS?

Minha motivação, em ambos os casos, foram as pessoas. Nesse caso, seres humanos que não têm seu trabalho reconhecido pela sociedade e com histórias e experiências de vida fantásticas. No caso de A Vida em Cana, estava terminando o curso de cinema em Nova York quando fui assistir ao documentário Buena Vista Social Club, que mostra um grupo de músicos cubanos esquecido, após fazer muito sucesso. Vivendo na pobreza cubana, foram convidados a fazer um show nos EUA e tiveram seu trabalho como músicos novamente reconhecido e aplaudido. Foi durante esta seção do filme que tive vontade de filmar o cotidiano dos cortadores de cana no Brasil. No caso do Sequestro, estava em Miami, em 2001, mostrando o filme A Vida em Cana no Festival Brasileiro de Cinema. No mesmo ano ocorreu o sequestro do publicitário Washington Olivetto. Estava conversando com um amigo que morava em Miami, e ele disse que não voltaria ao Brasil pela falta de segurança. Falou sobre o sequestro do publicitário e que ninguém mostrava o que ocorria em São Paulo. Disse a ele que aquele seria o tema do meu próximo filme, e que a produção investigaria, também, a motivação deste delito, a razão que o levou a se banalizar tanto no país.

 

VOCÊ COGITARIA A HIPÓTESE DE REALIZAR ALGO PARA A TV? OU ESTA MÍDIA IMPÕE MUITAS LIMITAÇÕES AO TRABALHO DO DOCUMENTARISTA?

Acho que a TV impõe muitas limitações, mas também abre uma possibilidade de se trabalhar com recursos de produção que o baixo custo do cinema não permite. Eu realizaria algo para a TV que me possibilitasse exercer uma função de produtor e, ao mesmo tempo, diretor. Algo que me desse mais controle do produto e não, simplesmente, filmar por filmar. Em primeiro lugar, o tema precisaria ser do meu interesse. Prefiro um trabalho que tenha “gente” como tema principal – e não um prédio, ponte ou montanha-russa gigantesca.