COMO PRODUZIR UM FILME – PARTE 1

Os roteiros são os alicerces dos grandes filmes: dominar a arte de escrevê-los é saber tornar interessante qualquer história

Por Tiaraju Aronovich

 

Quando pensamos em “produção cinematográfica”, logo nos vêm à mente a cadeirinha do diretor, as câmeras, luzes, claquetes etc. Sim – mas isso não é o começo. Muita coisa acontece antes de uma equipe pisar no set: todo o trabalho de pesquisa, planejamento, organização, captação de recursos… Então, é aí que tudo começa? Quase. Precisamos ir ainda mais fundo.

 

“CONHEÇA SEU OFÍCIO E CRIE REFERÊNCIAS”

 

Para que um músico/instrumentista tenha uma formação sólida e completa, é necessário escutar muita música, o que lhe dará um repertório rico em referências musicais para construir seu próprio “estilo”. O mesmo acontece com grandes pintores, bailarinos etc.: todos possuem ampla cultura no que tange seus ofícios. A tarefa do roteirista é a escrita, portanto, leia! Não apenas roteiros, mas literatura em geral. Para escrever bem é importante ler bem! De Machado de Assis a José Saramago; de Dostoievsky a Guimarães Rosa.

 

Se você almeja escrever, devore livros! Até a literatura especializada na área, ou seja, os livros “técnicos” sobre roteiros, serão aproveitados de outra forma se você possuir uma farta bagagem literária. Querer escrever roteiros sem antes ler é o mesmo que tocar um instrumento sem jamais ter ouvido música. E, para aqueles que já têm o hábito da leitura e procuram por fontes específicas, há dezenas de ótimos livros sobre redação de roteiros. Para mencionar apenas os clássicos e “hits” adotados em grande parte do mundo (e na maioria das escolas), cito os de Syd Field que podem ser facilmente encontrados na maioria das livrarias. No Brasil, o mais popular parece ser o “Manual do Roteiro”; mas há outros igualmente interessantes, do mesmo autor.

 

Cursos oferecidos por instituições sérias e professores experientes também podem ser de valor inestimável para o roteirista. Lugares como a Escola de Cinema (www.escoladecinema.com.br) ou a Academia Internacional de Cinema (www.aicinema.com.br) são opções seguras para quem busca um curso reconhecido no mercado. Outras instituições de ensino são indicadas aqui mesmo, nas páginas de Zoom Magazine.

 

 

CONHEÇA AS REGRAS DO JOGO

 

Escrever roteiros é uma arte específica e não tem nada a ver com escrever um livro, por exemplo. Neste caso, o escritor/autor reina soberano, já que a finalidade de sua obra é o livro per se. Ou seja: o que ele escreve já é o resultado e o propósito final daquela forma de expressão. Com roteiros, a coisa não funciona assim, pois estes, ao contrário dos livros, são o início, e não o fim. Depois de escrito, revisado e finalizado, um roteiro passará de mãos em mãos, por todas as pessoas da equipe. Cada profissional o lerá de forma diferente, com ênfase nos aspectos inerentes ao seu ofício.  Possivelmente, o roteiro sofrerá diversas alterações até que venha a ser gravado – e finalmente, montado e editado.

 

Em uma conversa recente com o exímio montador Daniel Resende (indicado ao Oscar por seu trabalho em Cidade de Deus), o profissional, sabiamente, afirmou: “cada longa-metragem envolve, na realidade, três filmes diferentes: um que está no papel – o roteiro –, que acaba se transformando em outra coisa quando é gravado e, finalmente, resulta em um terceiro filme durante a montagem.” Dessa forma, por mais que a escrita pareça ser um trabalho solitário, um roteiro está envolvido em um processo extremamente colaborativo.

 

E para que este se desenrole da melhor forma possível, há uma série de regras a se observar. Engana-se quem pensa que elas limitam a criatividade ou a liberdade do escritor. Ao contrário: servem para auxiliar o trabalho da equipe como um todo – e isto, evidentemente, inclui o escritor. São muitas as regras técnicas e não nos cabe discuti-las em detalhes aqui; porém, vale ressaltar: o alicerce básico dessas normas se escora em dois pontos essenciais, a linguagem visual e a formatação, o que nos leva ao próximo tópico;

 

 

LINGUAGEM VISUAL

 

“Linguagem visual” talvez seja o mais importante conceito no que se refere à redação de roteiros. Diferentemente de livros ou de qualquer outra forma de escrita em poesia, prosa e por aí afora, onde tudo é permitido, em roteiros só é aconselhável escrever “aquilo que se vê”. Isto quer dizer que absolutamente tudo o que for abstrato – emoções, sentimentos ou pensamentos – deve ser evitado. Frases como: “Túlio sorri, tomado de vibrante entusiasmo, por lembrar-se da manhã agradável no parque” podem funcionar maravilhosamente bem em prosa, mas não são práticas para um roteiro. O “vibrante entusiasmo” não é algo concreto, que possa ser objetivamente gravado. Além do quê, a audiência não conseguirá ver algo que está somente no pensamento de Túlio (a manhã agradável no parque). Como a audiência poderá saber o que leva Túlio a sorrir? Se o autor quiser revelar esta informação, terá de fazê-lo através de uma narração, ou de um diálogo; ou, ainda, de uma outra cena em que vejamos Túlio no parque. Do contrário, tudo o que a audiência verá será Túlio sorrindo.

 

Após muitos anos dando aulas a centenas de alunos, notei que desenvolver a capacidade de escrever em linguagem visual é uma das maiores dificuldades no processo de aprender a roteirizar – já que, de uma forma ou de outra, todos estamos acostumados a escrever de maneira livre, incluindo todo tipo de abstracionismos ou elementos invisíveis ao olhar. Resumindo: é preciso sempre lembrar que a finalidade do roteiro é criar uma cena que será gravada e projetada na tela. Portanto, o melhor truque para cultivar a técnica de escrita em linguagem visual é sempre “visualizar a cena” na tela – e aí, escrever exatamente o que você viu. Foque na ação, naquilo que acontece, e deixe que as emoções e abstrações fiquem a cargo dos atores e da plateia que irá absorver tudo aquilo.

 

Ainda resta muito a ser falado sobre redação de roteiros: formatação, copyright, compra e venda de roteiros etc. Mas isto já é assunto para a próxima! Até lá!

 

* Tiaraju Aronovich é cineasta, ator e músico formado pelo Califórnia Institute of the Arts, em Los Angeles (EUA).  É professor da Escola de Cinema e do Actor Studio SP Brasil.

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