COMO TRANSFORMAR SEU TEXTO EM ROTEIRO

Definido o argumento, é preciso formatá-lo propriamente para que a história seja filmada

 

Por Tiaraju Aronovich

 

Vamos começar a colocar nosso roteiro na página?

Já discutimos a importância de criar referências literárias, conhecer as regras do jogo (cientes de que um roteiro não é uma obra fechada e nem acabada, em si; ao contrário, é o início de um processo) e, também, de desenvolver a capacidade de escrever utilizando o que chamamos de “linguagem visual”, já que o roteiro tem a finalidade de criar uma história que será, eventualmente, traduzida em imagens e sons.

Agora, chegamos à próxima questão: há uma maneira específica de formatar um roteiro? Ou seja: há regras e elementos técnicos que devam ser observados? Sim.

Para que uma história se transforme em roteiro, é necessário observar certos padrões específicos de formatação.  No entanto, antes de apontar aleatoriamente dados técnicos a serem seguidos, é importante explicar a razão de existir tal formatação: primeiramente, lembre-se que um roteiro será utilizado por diversos profissionais de uma equipe de cinema, e que cada um precisará localizar elementos necessários ao seu ofício.

Um diretor de fotografia, por exemplo, deve identificar prontamente quantas locações serão utilizadas no projeto, bem como o tipo (dimensões, espaçamentos etc.) dessas locações e a presença ou ausência de luz natural nas cenas. Já um produtor de elenco deverá ser capaz de verificar com facilidade quantos atores serão necessários – bem como seus perfis. E assim sucessivamente.

Daí a necessidade de se padronizar uma formatação que facilite e auxilie o trabalho de todos. Além disso, a formatação adotada pela indústria não apenas contribui para o trabalho da equipe, como proporciona uma sincronia matemática impressionante e muito conveniente: uma página equivale a, aproximadamente, um minuto, de forma que é possível prever a duração de um filme (com pequena margem de erro) quando este ainda está no papel!  Creio que esses argumentos já sejam o suficiente para estimular os escritores e aspirantes a roteiristas a adotar a formatação industrial, certo?

Vamos ao roteiro!

 

FORMATAÇÃO

 

Fonte: antes de tudo, atenção à fonte de letra! Para redigir um roteiro, utilizamos, unicamente, a fonte “Courier New”, tamanho 12. Jamais se utilizam negritos ou itálicos.

 

Cabeçalho de Cena: em um roteiro, as cenas são determinadas pelas locações, ou seja, cada novo lugar significa uma nova cena – e cada nova cena exige um novo cabeçalho. Um cabeçalho contém apenas três elementos: informa se é uma locação externa ou interna (se é um ambiente fechado ou ao ar-livre), o nome da locação e, finalmente, se é dia ou noite. Esses elementos aparecem em letras maiúsculas e de forma abreviada, conforme o “Exemplo 1”.

 

EXEMPLO 01 (modelo de cabeçalho):

 

EXT. RUA DE SÃO PAULO. NOITE

Ou:

INT. ESCRITÓRIO DE ÂNGELA. DIA

 

Ação e Diálogo: cada cena pode apresentar dois elementos – a “Ação”, ou seja, o que acontece na cena; e os “Diálogos” (aquilo que as personagens falam). Toda a “Ação” deve ser redigida em tempo verbal presente simples, sem gerúndios, pretéritos ou futuros, já que reflete precisamente aquilo que é visto na tela. Já as personagens, quando apresentadas pela primeira vez na “Ação”, aparecem com nomes em letra maiúscula, seguidos por indicações de idade. Não se utiliza parágrafo e o espaçamento é simples. Os diálogos são centralizados e ocupam apenas o terço central da página (imagine uma página dividida em três colunas idênticas e insira o diálogo na coluna do meio). Observe o Exemplo 2.

 

EXEMPLO 02 (modelo de ação e diálogo):

 

ÂNGELA (30) está sentada à mesa. Ela assina documentos. EDUARDO (65) entra.

EDUARDO

Oi, Ângela. Vamos ao cinema

hoje?

 

ÂNGELA

Acho que não vou conseguir.

Preciso fechar os contratos

até amanhã.

EDUARDO

Sem problemas. Fica pra

Próxima, então.

 

Eduardo sai do escritório.

 

Com isso, cobrimos os três elementos básicos de um roteiro: cabeçalho de cena, ação e diálogo; mas, cuidado: lembre-se de que o papel do roteirista é contar uma história; portanto, evite colocar indicações de câmera ou tentar “dirigir” os atores. Estas são funções do diretor e do diretor de fotografia (veremos todas as funções de uma equipe mais à frente). Eles não dirão ao roteirista como escrever sua história; logo, espera-se que o roteirista também não lhes diga como desempenhar suas funções. É comum em roteiros iniciantes flagrar erros, como os ilustrados no Exemplo 3.

 

EXEMPLO 03 (modelo de erro):

 

A câmera revela um calendário sobre a mesa. O ângulo da câmera se abre e vê-se Ângela, pensativa e angustiada, observando o calendário.

 

Bem, para corrigir esta cena, em primeiro lugar, devemos retirar todas as indicações de câmera (até porque, convenhamos, dizer que a “câmera revela” algo é uma redundância e tanto, não? Estamos falando de um roteiro, logo, tudo será “revelado” pela câmera!). As indicações de emoção para a personagem também devem ser eliminadas, já que o trabalho de interpretar é responsabilidade dos atores e do diretor! Tenha a certeza de que um bom ator saberá a emoção necessária a uma cena (desde que o texto seja coerente, é claro!). A “Ação” anterior, se corrigida, resultaria no Exemplo 4.

 

EXEMPLO 04 (correção do erro):

 

Há um calendário sobre a mesa. Ângela o observa.

 

Um tanto mais simples, não? Agora, resta frisar que todo espaçamento, em roteiro, é simples, pulando-se apenas uma linha de cabeçalho para ação, uma linha de ação para diálogo, uma linha de diálogo para diálogo e duas linhas antes de um novo cabeçalho. Se juntarmos todos os exemplos utilizados anteriormente, teremos uma pequena cena de roteiro na íntegra, sintetizando os elementos básicos da formatação-padrão industrial.

 

EXEMPLO 05 (roteiro na íntegra):

 

INT. ESCRITÓRIO DE ÂNGELA. DIA

 

ÂNGELA (30) está sentada à mesa. Ela assina documentos. EDUARDO (65) entra.

 

EDUARDO

Oi, Ângela. Vamos ao cinema

hoje?

ÂNGELA

Acho que não vou conseguir.

Preciso fechar os contratos

até amanhã.

 

EDUARDO

Sem problemas. Fica pra

próxima então.

Eduardo sai do escritório.

Há um calendário sobre a mesa. Ângela o observa.

 

Evidentemente, há outros detalhes de formatação para necessidades específicas. Mas creio que, com isso, o roteirista iniciante já tenha ferramentas para um bom tempo de trabalho. Vale lembrar, também, que há softwares desenvolvidos exclusivamente para a redação de roteiros (como o Celtx e o Final Draft), que podem ser comprados ou, em certos casos, adquiridos gratuitamente na Internet.

 

ESTRUTURA NARRATIVA

Agora que estudamos o básico de formatação, é hora de “pincelar” um pouco aquilo que chamamos de “estrutura narrativa”, ou seja: como desenvolver uma história.

Este é provavelmente o tópico mais complexo no que tange roteiros. “Como” contar uma história de maneira a cativar e prender o público, independentemente do gênero? Chegamos, literalmente, à “arte” de se contar uma história. Um rápido background: o primeiro homem a estudar de forma séria e sistemática essa arte foi o grego Aristóteles. Intrigavam o filósofo os aspectos que faziam as histórias “prenderem” as audiências (ainda mais em um período no qual a tradição oral colocava os contadores de histórias em posição delicada!) e, após muita observação e análise, ele chegou à constatação de que, realmente, as histórias precisavam ter certos elementos para obterem êxito junto ao público.

Até hoje utilizamos as observações e constatações de Aristóteles para escrever roteiros. E denominamos esse conjunto de aspectos, em sua aplicação prática, como “Estrutura Clássica Aristotélica”. Grande parte dos roteiros de sucesso, sejam filmes de aventura hollywoodianos ou dramas existenciais europeus, apresentam, em sua estrutura narrativa, muito dessa “Estrutura Clássica Aristotélica”.

Mas o que é essa estrutura? Seria impossível explicá-la em detalhes neste artigo, já que se trata de um sistema complexo, digno de centenas de livros e teses publicados (aliás, vale salientar que quase todos os apontamentos e estudos de Syd Field, o “papa”dos roteiros, baseiam-se em Aristóteles); porém, quero salientar, ao menos de forma sintética, uma base dessa estrutura, que sirva como uma “porta de entrada” para novos escritores.

Aristóteles defendia, a princípio, uma ideia que, hoje, nos parece simples e lógica: toda história deveria apresentar três atos; três momentos distintos de desenvolvimento, ou seja: começo, meio e fim. Mas não é tão simples assim. O filósofo destrinchava cada um desses atos e revelava exatamente que tipo de elemento deveria conter cada um deles. Que me perdoem os ortodoxos e acadêmicos, mas, para fins ilustrativos, disponibilizo, aqui, um sistema simples e de fácil compreensão, que talvez já possa ajudar aos marinheiros de primeira viagem:

 

PRIMEIRO ATO: representa aproximadamente 15 – 20% da história. Neste ato, deve-se apresentar as principais personagens (protagonista/antagonita), assim como seus objetivos (o que eles precisam/devem fazer) e seus conflitos (o que existe entre as personagens e seus objetivos). Ou seja: a audiência conhece as personagens, envolve-se com elas e cria expectativas.

 

SEGUNDO ATO: é o mais longo, representando algo entre 60 – 75% da história. É o momento do desenvolvimento dos conflitos. As personagens passam a perseguir seus objetivos, mas se deparam com os obstáculos e precisam superá-los. É, literalmente, o desenvolvimento da história, com todas as suas reviravoltas, historietas secundárias (que chamamos de “sub plots”, ou “subenredos”) etc., que nos leva ao clímax do roteiro (lembrando que clímax não significa, necessariamente, um momento grandioso, mas o ápice dramático da história; seja uma revelação importante, uma tragédia, uma grande batalha ou, simplesmente, uma decepção amorosa).

 

TERCEIRO ATO: é o mais curto dos atos, representando cerca de 10% (ou menos) do roteiro. É a conclusão formada após o clímax, o desfecho e a resolução dos conflitos estipulados pelo escritor.

 

Há muito mais do que isso no que tange a Estrutura Clássica Aristotélica. Mas essa breve explicação deve, ao menos, estimular os roteiristas a planejar melhor o desenvolvimento de suas histórias e a manterem-se dentro da formatação-padrão exigida pela indústria.

Agora, roteiristas: mãos à obra!

E até a próxima edição!

 

Taraju Aronovich é cineasta, ator e músico formado pelo Califórnia Institute of the Arts, em Los Angeles.  É professor da Escola de Cinema e do Actor Studio SP Brasil.

Canal direto: tiaraju@escoladecinema.com.br

 

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