CONSCIÊNCIA NEGRA: MOSTRA EFETIVA

Sete Canções para Malcolm X (1993) 2_© Smoking Dogs Films; Courtesy Lisson Gallery

CCBB promove a mostra “O Cinema de John Akomfrah: Espectros da Diáspora”, além de um debate com o historiador de arte Kobena Mercer

Por: Angela Miranda
Foto:Sete Canções para Malcolm X (1993) © Smoking Dogs Films; Courtesy Lisson Gallery

Novembro foi eleito o mês da “Consciência Negra” e, a partir de 15 de novembro, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) exibirá filmes do cineasta John Akomfrah. Na verdade, a mostra “O Cinema de John Akomfrah: Espectros da Diáspora” ressalta as obras de Akomfrah que são firmemente reconhecidas por atentar à luta contra a opressão racial e denunciar as ramificações contemporâneas do colonialismo do povo africano. Para enriquecer o debate, também estará no país, pela primeira vez, o renomado historiador da arte Kobena Mercer (Universidade de Yale). Especialista na arte da diáspora africana, ele apresenta uma aula magna sobre a obra de Akomfrah em 27 de novembro, às 19h, no CCBB.

São 16 obras do cineasta, a maioria inédita no Brasil, entre filmes de ficção, documentários e videoinstalações. Partindo da cinematografia de Akomfrah, acontecerá um amplo painel sobre a dispersão das culturas de matriz africana no ocidente, traçando um percurso que cobre desde as raízes da escravidão, em trabalhos como Tropykos (2015), a obras de ficção científica de inspiração afro-futurista, como O Último Anjo da História (1995).

GRANDE VIVÊNCIA

Nascido em Gana, em 1957, o cineasta emigrou para a Inglaterra ainda na infância. “As agruras comuns à experiência migratória, tais como a nostalgia da terra natal e as tensões inerentes à condição de ser negro na Grã-Bretanha do pós-guerra, fortemente marcada pelo racismo, teriam impacto profundo na vida e na produção de Akomfrah”, detalha Rodrigo Sombra, que assina a curadoria da mostra em parceria com Lucas Murari.

Durante a década de 1980, Akomfrah participou intensamente do movimento de cineclubes e oficinas de cinema que emergia nos bairros de imigrantes da Inglaterra. Neste período, fundou o Black Audio Film Collective, coletivo de artistas cuja atuação seria decisiva para dar visibilidade à questão diaspórica no interior da cultura inglesa. “Ao ocupar salas de cinema, galerias e a televisão, o Black Audio dava vazão a um projeto de radicalidade estética e política realizado de uma perspectiva negra até então inédito no cinema britânico”, explica o curador Lucas Murari. É o caso de As Canções de Handsworth (1986), primeiro longa dirigido por Akomfrah. Eleito pela revista Sight and Sound um dos 50 melhores documentários da história, o filme se apropria de imagens de arquivo para investigar como questões de raça e imigração eram representadas na mídia hegemônica.

NOVAS FASES

Nas décadas seguintes, Akomfrah aprofundou as experimentações com imagens de  arquivo, traço definidor de sua estética. Neste sentido, seus filmes seriam celebrados pelo modo como as imagens do passado dialogam com citações literárias ou relatos ficcionais, nos quais o diretor emprega uma linguagem fortemente inspirada na história da arte. Seus filmes são celebrados pelo forte apelo literário. Em longas como As Nove Musas (2011), por exemplo, a mitologia grega e as migrações de caribenhos à Grã-Bretanha do segundo pós-guerra coabitam o mesmo plano.

Neste e em outros trabalhos, o artista faz um cinema dedicado a referências de escritores cuja sensibilidade dialoga com seus filmes. Segundo Rodrigo Sombra, “em seus filmes, Akomfrah cita Virginia Woolf, Joyce, Emily Dickinson, Shakespeare, Milton, invoca todos esses autores britânicos para afirmar a sua própria britanidade. Sente-se à vontade tanto para convocar MalcolmX quanto Samuel Beckett na tentativa de formular perguntas inquietantes a respeito da condição diaspórica, do lugar do imigrante em nosso tempo”.

A questão da diáspora africana na obra de Akomfrah ganha ressonância nos diálogos imaginários mobilizados por ele com figuras seminais da cultura negra. O artista dedicou filmes a personagens históricos na luta política antirracista, como MalcolmX, Martin Luther King e Stuart Hall. Longe de serem documentários convencionais, cada um desses filmes – todos eles incluídos na retrospectiva – tomam o relato biográfico como premissa para um salto na experimentação. Além das produções de Akomfrah, serão exibidos dois filmes de Reece Auguiste, um dos mais proeminentes artistas do Black Audio Film Collective. A retrospectiva inclui, também, uma sessão especial do filme Borderline (1930), de Kenneth Macpherson. Clássico do cinema silencioso de vanguarda do Reino Unido, o filme parte de um triângulo amoroso interracial para fazer considerações sobre relações interraciais, preconceito, tratamento de classe, questões de gênero e sexualidade.

MAIS OPÇÕES

Em 23 de novembro, o CCBB promoverá também um debate sobre a mostra, aberta ao público, com mediação de Rodrigo Sombra e participações de Luiz Carlos dos Santos (jornalista e sociólogo) e Heitor Augusto (crítico de cinema). O debate ocorrerá às 19h, no CCBB, e será acompanhada por tradução em LIBRAS. Também será promovida aula magna com o professor Kobena Mercer (Yale University), no dia 27/11, às 19h. Pupilo de Stuart Hall, de quem editou a mais recente coleção publicada nos EUA, Kobena Mercer é um dos mais renomados historiadores da arte dedicados às práticas artísticas da diáspora africana nos EUA e no Reino Unido. Ele virá ao Brasil pela primeira vez para uma aula magna sobre o legado de John Akomfrah.

Durante o evento, será lançado livro-catálogo com informações sobre a retrospectiva, textos e entrevistas de Akomfrah inéditos no país. A publicação contará com artigos dedicados a Akomfrah escritos por ensaístas, críticos e curadores estrangeiros publicados no Brasil pela primeira vez, incluindo nomes como o próprio Kobena Mercer, Kodwo Eshun e Okwui Enwezor, curador da Bienal de Veneza de 2015. Todo o material ficará disponível no site mostraakomfra.com.br

SERVIÇO

O CINEMA DE JOHN AKOMFRAH

De 15/11 a 4/12

CCBB SÃO PAULO

Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo

Rua Álvares Penteado, 112 – Centro. São Paulo-SP

Acesso ao calçadão pelas estações Sé e São Bento do Metrô

(11) 3113-3651/3652 | Quarta a segunda, das 9h às 21h

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