CONVERSA COM A ATRIZ DJIN SGANZERLA

Djin Sganzerla fala sobre atuação em cinema, novos trabalhos e atrizes que a inspiram

Texto: Cristiano Burlan 
Imagens: Bia Takata

A atriz Djin Sganzerla é filha de duas figuras míticas do cinema brasileiro: Rogério Sganzerla e Helena Ignez. Djin trabalhou em dezenas de filmes nacionais e recebeu o Troféu APCA 2008 de Melhor Atriz por Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi, e o Troféu Candango do Festival de Brasília 2007 de Melhor Atriz Coadjuvante por Falsa Loura, de Carlos Reichenbach. Também atuou em Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010), codirigido por sua mãe, e está em cartaz nos cinemas estrelando o filme Ralé, também de Helena Ignez.

Djin, que esteve na Academia Internacional de Cinema (AIC) de São Paulo ministrando palestra para os alunos do Curso de Interpretação para Cinema, diz que “o bom ator é o ator-criador, aquele que sabe ouvir, sabe trocar e sabe compor o personagem com arte”. Saiba mais sobre a atriz nesta entrevista concedida à AIC.

O que a motivou a atuar no cinema?
Como vim de uma família de artistas, tive um processo interessante: precisei confirmar esta vontade muito forte dentro de mim para ter certeza de que não era algo que meus pais tinham interferido ou me influenciado. Filha de pais com personalidades fortes e expressivas, herdei este espírito libertário e com uma busca de uma personalidade própria, única. A possibilidade de poder me transformar completamente em outro ser, de poder mergulhar nestas vidas cheias de riquezas, cheias de cores, desamores, dores, alegrias e sentir que através de mim, do meu corpo, da minha expressão artística, eu poderia ajudar a tocar alguém e, quem sabe, de alguma maneira, mobilizá-las de forma transformadora. Poder revelar as mil facetas que existem dentro de nós e que, muitas vezes, não temos a possibilidade de vivenciar em uma só existência.

Ralé estreou nos cinemas. Como foi a experiência de fazê-lo?
Ralé, longa de Helena Ignez, entrou em cartaz nos cinemas no dia 05 de maio. Fazer Nastia, personagem de Ralé, foi um bom desafio. Filmamos em pouco tempo e a diretora fez algumas alterações no texto da personagem, em constante construção. Tinha que estar aberta ao inesperado e a mudanças o tempo todo. Por exemplo: assim que a filmagem foi concluída, começou um grande temporal de verão e percebemos que poderia ser incrível: fui para chuva, o fotógrafo logo começou a filmar e não tive tempo de avisar que já estávamos filmando. Comecei a improvisar com o vento, a chuva e um guarda-chuva. A cena ficou tão boa que entrou no filme. Para trabalhar com Helena, você precisa estar atenta a tudo e aberta às mudanças, o que só fortalece o ator. O Prefeito, de Bruno Safadi, com quem já trabalhei anteriormente e ganhei prêmios com o filme Meu Nome é Dindi, também deve estrear este ano. A obra acaba de ganhar o prêmio de Melhor Filme Ibero-Americano no 34º Festival do Uruguai e teve sua estreia no Festival de Locarno, no ano passado. Gosto muito de trabalhar com Bruno, a comunicação entre nós é rápida e de muita confiança, o que é maravilhoso para o ator. Ele me convidou para fazer a Alma Errante, um personagem meio fantasmagórico, um pouco mítico. É ela quem traz a morte e a destruição do Prefeito. Eu estava em cartaz em São Paulo com a peça Ilhada em Mim e filmando no Rio, foram poucos dias de filmagem, em uma locação incrível, nos escombros da demolição da Perimetral no Rio, o que só aumentou o desafio para os atores e a equipe. O resultado ficou incrível, mas a poeira e as dificuldades da locação foram um desafio bom de ser enfrentado. Filmes com orçamento pequeno, filmados em poucos dias, requerem, ainda, uma entrega maior, se é que é possível dizer isso, pois cada instante no set é único, são diretores que repetem a cena poucas vezes, dando chance mínima ao erro. Temos que estar 100% inteiros e presentes, mas o resultado é sempre gratificante.

Fiz o filme de equipe e diretor português, Ornamento e Crime, de Rodrigo Areias, rodado em Guimarães e arredores, em Portugal. Sou a única atriz brasileira do filme. Foi uma experiência ótima conhecer mais de perto o cinema português e aquele país, com um povo e uma cultura muito interessantes. Ornamento e Crime estreou na Mostra de Cinema de São Paulo no ano passado e ganhou o Prêmio de Público de Melhor Filme no 19º Festival Luso-Brasileiro em Portugal. O filme de Rodrigo é do gênero Noir. Faço uma femme fatale que se revela e vira o jogo no final do filme. Foi uma experiência única, ainda não havia atuado em um filme de gênero. A sedução e a frieza, juntas, são sempre ótimas de trabalhar.

Como você constrói os seus personagens?
Cada personagem pede uma forma de trabalhar, com mais ou menos intensidade e aprofundamento. Há personagens mais simples e leves, com menos contradições, que são ótimos, também. Mas, geralmente, construo as personagens de dentro para fora, um processo às vezes longo, mas que chega onde estou procurando ir. Sou uma atriz bastante intuitiva e técnica, quando preciso ser. Sinto a personagem nas primeiras leituras do roteiro. Dele, tento extrair o máximo de informações sobre ela, sua personalidade, objetivos, o que a move… Tento visualizar como é a personagem. Depois, parto para a etapa sutil, o que não é dito, o que é subjetivo, suas contradições, lutas internas, vida intima… Construo-a por inteira dentro de mim. Este processo costuma nascer organicamente, é uma paixão que me envolve. Tento não decorar o texto, e sim, “lê-lo” tantas vezes que, naturalmente, acabo o “internizando”, entendendo o que está sendo dito, para que ele saia de mim com maior verdade. O set pode ser, muitas vezes, um local ingrato para o ator – mas, se você está ali, preparada, inteira, e se lança no jogo com o outro ator, algo acontece. Lanço-me com todas estas ferramentas, com a preparação e com a personagem dentro de mim, no abismo, no desconhecido, para que o inesperado aconteça.

Quais atrizes ou atores a inspiram? E por quê?
A primeira atriz que me vem à cabeça é Gena Rowlands, extraordinária, quem sempre me inspira. Sinto esse frescor o tempo todo na interpretação dela, cheia de vida, de perigo, de incertezas, de fragilidades. Ela hipnotiza a câmera, vai fundo em sua verdade. É um belo exemplo deste voo incerto, deste salto no abismo dentro do mistério de nós mesmos. Sempre me senti atraída por atores que carregam dentro de si o mistério – talvez o mistério de suas próprias vidas. Giulietta Masina também me inspirou muito. Acho suas construções de personagens incríveis, cheias de inteligência e força, regadas por vulnerabilidade. Ela é outra que sabe enfeitiçar a câmera, sempre com escolhas nada obvias e surpreendentes. Gosto, ainda, de trabalhos bem contidos – por exemplo, como nos filmes My Sweet Peperland e Pedra da Paciência, ambos protagonizados por Golshifteh Farahani, atriz iraniana que vive na França. A repressão que as mulheres vivem no Irã está contida no universo dessas personagens e em sua composição. São atuações repletas de vida interior e silêncios.

Gosto do trabalho do ator Ryan Gosling, que trabalha camadas de humanidade no silêncio, e de Carey Mulligan.

Qual o conselho que você daria a um jovem ator que está começando a fazer cinema?
Vejam muitos filmes – “muitos”, mesmo. De preferência, com ótimos atores e diretores. Creio que ótimas referências fiquem na retina, na memória e na imaginação. Muitas vezes, assisto a um filme estudando-o, dissecando-o, vendo as opções que o ator fez na composição da personagem. Pode ser uma aula. Estudem muito, também: acredito que o ator deva estar sempre em constante aprendizado – mas o início da carreira, quando se tem mais tempo, é o momento ideal para nos lançarmos completamente nisso. Pesquisem técnicas de interpretação, façam o máximo de cursos, informem-se sobre o tema, leiam biografias de atores. O ator precisa dominar o seu oficio, saber bem o que pretende fazer. Assistir a bons atores, seja no cinema ou no teatro, é sempre uma experiência: não importa a linguagem, você sempre aprenderá algo se estiver disposto. E pratiquem o máximo que puderem: é um excelente exercício ver o seu trabalho na tela. Sejam generosos com vocês mesmos, sem excesso de autocrítica, e vejam no que realmente poderiam ser melhores da próxima vez. Assistir ao videoassist durante a filmagem sempre foi uma grande escola para mim. Acho que o ator deve estar em constante movimento e mergulhar no mistério e no inesperado que a criação artística propõe.

Veja Também