ENTREVISTA COM O DIRETOR JOEL CAETANO

No “Trash”, diretor Joel Caetano encontrou um modo original de se fazer notar: ele já tem público cativo em festivais como o Cinefantasy e o Cinema de Bordas

 

Por Eduardo Torelli

 

QUAL É SUA DEFINIÇÃO DE “FILME TRASH”?

O termo trash é associado a filmes de baixo orçamento, geralmente, de terror e ficção científica. Em alguns casos, o filme é feito para ser levado a sério, mas a falta de recursos é tanta que, em vez de assustar, acaba provocando o riso na plateia. Mas a falta de recursos nem sempre é fator preponderante, pois existem diretores que, mesmo com grandes orçamentos, fazem filmes com esta estética, por opção. Não acho negativo um filme ser considerado “Trash” – isto não quer dizer que seja menos interessante. O “Trash” é um cinema a que assistimos e conseguimos desvendar como foram feitas as cenas, os efeitos, a maquiagem etc. E acho que esta é a característica mais chamativa do gênero: o espectador consegue se imaginar fazendo aquele tipo de filme.

 

QUEM SÃO (OU FORAM) OS GRANDES NOMES DO CINEMA “TRASH”?

Sem dúvida, o mestre é Ed Wood – Plano 9 do Espaço Exterior é uma pérola! O filme é perfeito dentro de suas imperfeições. Acho que, se ele tivesse planejado o filme daquele jeito, não teria conseguido fazê-lo. Roger Corman também é um baluarte do gênero.  Em uma de suas proezas, ele fez uma versão “Trash” de Quarteto Fantástico sem autorização nenhuma da Marvel, que detém os copyrights sobre os personagens. Filmou e editou, mas o filme foi barrado pela editora e só pode ser adquirido em cópias muito ruins, gravadas a partir de um VHS e vendida no “mercado paralelo”. E não posso falar de “Trash” sem citar o nosso querido José Mojica Marins, que, apesar de não gostar dessa denominação, tornou-se um símbolo do gênero no Brasil e no mundo.

 

VOCÊ CONCORDA QUE, MUITAS VEZES, OS FILMES “B” SÃO “LABORATÓRIOS” PARA AS PRODUÇÕES “CLASSE A”? POR EXEMPLO: O SILÊNCIO DOS INOCENTES TINHA ELEMENTOS DE O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, REALIZADO DUAS DÉCADAS ANTES…

É só ver a história. Grandes cineastas começaram com filmes “B”, como Sam Raimi e Peter Jackson. Para aprender a fazer cinema, só existe um jeito: fazer, fazer e fazer. Alguns acertam logo de primeira, como Tarantino, com Cães de Aluguel, mas a maioria se forma na base da tentativa e erro, pois o que se aprende na teoria nunca é igual na prática. Quando comecei a fazer meus filmes, ainda na faculdade, escrevia roteiros absurdos, praticamente impossíveis de filmar. À medida que fui realizando pequenos projetos, comecei a entender e a bolar mecanismos criativos e técnicos que facilitariam a próxima produção. Em suma: acho que o “Trash” é um grande laboratório, permitindo ao cineasta testar seus limites sem se preocupar, necessariamente, com o resultado final.

 

COMO E QUANDO SURGIU SEU INTERESSE POR CINEMA?

Sempre fui cinéfilo, mesmo antes de saber o significado da palavra. Quando criança, não perdia os filmes da Sessão da Tarde. Outra influência foram os quadrinhos, que leio e coleciono desde que me entendo por gente. Por causa deles, minha primeira manifestação artística foi o desenho: eu passava horas copiando os personagens dos gibis. Depois me interessei por música, informática (algo que foi importante para minha formação como editor de vídeo) e fui cursar Rádio e TV. Tive a sorte de estudar entre 2001 a 2004, quando as câmeras digitais começaram a se popularizar. Percebi que o cinema não precisava ser feito, necessariamente, em película, que a linguagem em si era mais importante do que o meio ou a bitola utilizada. Sempre gostei de filmes de terror, mas, ao começar a estudar e conhecer os gêneros de forma detalhada, identifiquei-me de cara com o “Trash”. Vi a possibilidade de contar minhas histórias sem muita dificuldade.

 

O RÓTULO DE “DIRETOR DE FILMES ‘TRASH’” O INCOMODA?

Nem um pouco. Ser rotulado quer dizer que você está fazendo algo que chama a atenção, por algum motivo. Mas eu acredito que as pessoas consigam ver além desses rótulos, que sejam capazes de reconhecer minha evolução como cineasta. Em meus últimos projetos exibidos em festivais, algumas pessoas vieram me dizer que não achavam alguns de meus filmes “Trash” (principalmente, os dois últimos). Isso foi interessante. Mas não me iludo – mesmo porque, tenho que aceitar que, com as limitações técnicas e financeiras que me são impostas, é melhor realizar um “Trash” bem-aceito pelo público do que um “filme-cabeça” crucificado pela crítica. Não defendo nenhum tipo de gênero ou movimento – faço meus filmes de acordo com as histórias que quero contar.

 

DÁ PARA VIVER DESSES PROJETOS? OU SEUS FIMES SÃO APENAS UMA REALIZAÇÃO AUTORAL?

Por enquanto, faço meus filmes como uma realização autoral. Mas espero, sim, um dia viver de cinema. No entanto, só conseguirei se, a cada filme, melhorar tanto no aspecto técnico quanto no artístico, e é isto o que venho buscando.

 

COM QUE FREQUÊNCIA A RECURSO ZERO REALIZA SEUS FILMES?

Estamos produzindo um por ano. Acho pouco, mas, infelizmente, como todos nós temos outros trabalhos que nos sustentam, é difícil e penoso gravar mais do que isso. Uma solução é tentar criar algo para outras mídias, como TV e Internet – venho pensando muito nisso, até escrevi algumas coisas que pretendo colocar em prática a partir do primeiro semestre de 2010.

 

QUAL É O MELHOR FILME QUE VOCÊ JÁ FEZ? E POR QUÊ?

Cada filme tem algo especial. Minha Esposa é um Zumbi (2006) é divertidíssimo – toda vez que o vejo com o público me orgulho do resultado. Mas é “Trash” ao extremo! O filme foi feito para ser ruim, mesmo, e deu resultado. Junho Sangrento é, na verdade, uma homenagem aos filmes dos anos 1970 e tem uma sacada interessante: um assassino serial zumbi, que só mata na época de São João – mais “Trash” que isso, impossível. O Assassinato da Mulher Mental foi bem produzido, com efeitos especiais interessantes, e foi nosso primeiro projeto gravado em HD. Tenho um xodó por esse filme, por ser uma história de super-heróis genuinamente brasileira. Finalizando, posso dizer, seguramente, que Gato é o mais bem-feito, técnica e artisticamente. O roteiro e os diálogos são muito bons, os enquadramentos são estudados e a iluminação é muito interessante. Acho que vou apelar para um clichê, mas, de fato, nosso último trabalho é sempre o melhor.

 

VOCÊ TEM CONSEGUIDO CERTA PROJEÇÃO POR MEIO DOS FESTIVAIS. SOB SUA ÓTICA, ESTAS INICIATIVAS REALMENTE “DEMOCRATIZAM” O CNEMA?

As pessoas que criticam a quantidade de festivais têm medo de concorrência, e isso é uma grande bobagem. Os festivais só existem porque a produção de filmes cresceu muito com o advento da tecnologia digital. Creio que o investimento em festivais é importante para a criação de um mercado cinematográfico mais diversificado no país. Eu, por exemplo não estaria aqui, dando esta entrevista, se não tivesse participado de festivais como o Cinefantasy e o Cinema de Bordas, que entenderam o valor do meu trabalho sem preconceitos e me proporcionaram uma forma de mostrar meus filmes ao grande público. Nunca fiz um filme com apoio e financiamento de terceiros – não digo que não faria; se um dia alguma empresa quiser financiar meu trabalho, acharei ótimo. Mas isso não quer dizer que, depois que eu estiver “por cima”, precise suprimir os que, na maioria das vezes, só têm esses festivais como uma forma viável de exibirem seus trabalhos. Seria muita covardia.

 

EM SEUS FILMES, AS PESSOAS TRABALHAM DE “BOA VONTADE” – OU SEJA, SEM DIREITO A CACHÊ E OUTRAS REGALIAS DE UMA PRODUÇÃO ABASTADA. COMO VOCÊ CONVENCE A TURMA A ATUAR NOS FILMES?

Em primeiro lugar, tive sorte de entrar em uma família de artistas: Mariana já fez teatro e é formada em Rádio e TV; meu sogro, Luiz Carlos Batista, escreve para teatro e já teve sua própria companhia, na década de 1970 – onde, atuando, conheceu a minha sogra, Ivete Zani, que também fez muitas peças. Quando comecei a fazer filmes, éramos eu, Mariana e Danilo. Mais tarde, ao escrever Minha Esposa é um Zumbi, tive a ideia de chamar Ivete e Luiz Carlos, que toparam na hora – eles nunca tinham feito cinema, mas gostaram de voltar a atuar. O processo foi divertido e isto se reflete no resultado final. Tanto que resolvi convocá-los novamente para Junho Sangrento, que gravamos no sítio de alguns amigos, no interior de São Paulo. A partir daí, eles se tornaram o elenco fixo da Recurso Zero Produções – não por serem da família, mas por serem ótimos atores.