DUBLAGEM: ACHO QUE CONHEÇO ESSA VOZ…

Sem a dublagem, boa parte da população não teria acesso a filmes, séries ou desenhos animados. Esta é uma profissão que exige talento, “jogo de cintura” e dedicação 

Texto: Juliana Mel 
Imagens: Divulgação

Popularíssima no Brasil, a dublagem (técnica que permite a substituição do áudio original de filmes, séries ou novelas por outro idioma) surgiu em 1930, nos EUA.

A “novidade” desembarcou por aqui no fim daquela década, permitindo a um número maior de pessoas curtir os grandes sucessos do cinema, como “Branca de Neve e os Sete Anões”, de Walt Disney (primeiro longa dublado no país, em 1938). Isto porque “ouvir” os diálogos do filme (ao invés de precisar “lê-los” na tela) é uma estratégia muito funcional para driblar uma série de problemas, que vão de uma alfabetização incompleta ou deficiente à simples dificuldade para acompanhar as trocas de legendas.

“Sou a Mônica, sou a Mônica”
Mas o que leva uma pessoa a querer ser dubladora? Marli Bortoletto, por exemplo, estreou na área há 33 anos emprestando sua voz a uma personagem que marcou a infância de muita gente.

“Em 1978, eu fazia parte do elenco do primeiro musical produzido por Maurício de Souza, ‘Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta’”, lembra Marli. “Na época, eu atuava como bailarina e standing (segunda voz) da Mônica. No ano seguinte, comecei a fazer a voz da personagem no teatro, em aparições e entrevistas para o rádio e a TV. Até que, em 1983, foram feitos testes para renovar o elenco. A partir daí, me tornei a voz oficial da personagem e, anos depois, me envolvi com outros trabalhos de dublagem”.

“The Walking Dead”
Silvio Giraldi (dublador do personagem Daryl Dixon, de “The Walking Dead”), por sua vez, não imaginava que esta acabaria sendo sua profissão. Há 24 anos, ele procurou a área como um complemento para sua formação de ator – e, desde então, não parou mais de dublar. “Quando você se torna ator, é difícil saber o que tomará conta da sua vida, e a dublagem tomou conta da minha. Conquistei meu espaço e me fiz respeitar nesse meio”.

Apesar de suas diferentes trajetórias, os dubladores têm algo em comum: são atores (e, no Brasil, isso é obrigatório para quem almeja trilhar esse caminho). Em países como o Japão, basta fazer um curso de dublagem para começar a trabalhar na área. Silvio, porém, não acha que isto seja suficiente para triunfar na profissão.  “Além da vocação e da persistência, há uma questão motora: há pessoas que têm o reflexo para dublar e outras, não. Com certeza, saber atuar é fundamental, pois, na realidade, estamos copiando a interpretação de grandes atores. É uma responsabilidade e tanto, pois é preciso saber se envolver emocionalmente.”

O nome é Seixas…Márcio Seixas!
Do alto de seus mais de 40 anos de carreira, o veterano Márcio Seixas (a “voz” brasileira de James Bond) também acredita que é preciso saber atuar, antes de ser dublador. “Levo fé no talento inato das pessoas, mas o interessado em dublagem precisa passar por todo o processo, o que inclui fazer um curso de teatro onde aprenda tudo: expressão corporal, criação de tipos, confecção de cenários e improvisações, entre outros”.

O dia-a-dia dos dubladores é uma verdadeira “caixinha de surpresas”: eles só têm contato com as obras que irão dublar no momento em que chegam ao estúdio. Isso acontece devido ao tempo disponibilizado para a realização de um trabalho, que se tornou mais curto com o passar dos anos. Por isso, apenas o diretor assiste ao filme previamente, sendo o responsável por orientar os dubladores.

Também diretora de dublagem, Marli Bortoletto explica que a escalação das vozes pode ser feita de duas maneiras: “em alguns casos, são solicitados testes para os personagens centrais, especialmente, em filmes e novelas. O estúdio convoca três ou quatro atores para participarem da seleção e a escolha final é sempre do cliente (o distribuidor ou dono da produção). Para os demais personagens (assim como em outros produtos para os quais não são exigidos testes), são os próprios diretores ou coordenadores que definem o elenco.”

Ainda de acordo com Marli, certas características levadas em conta na hora de escolher o dublador são o tom de voz, o estilo de interpretação, a experiência e até o fato daquela pessoa já ter feito a voz de determinado ator em outra ocasião. Robert De Niro, por exemplo, costuma ser interpretado por Luiz Antônio Lobue (em São Paulo) e por Hélio Ribeiro (no Rio de Janeiro).

Celebridades
Não é raro que artistas famosos sejam convidados pelas produtoras para dublar filmes, já que isto pode atrair um público maior para determinada atração. É um tópico polêmico, mas, segundo Márcio Seixas, nada pode ser feito quanto a isso. “Além de ser uma escolha do cliente, o sindicato acolhe essa medida, que sempre deu certo”, diz. “Houve um tempo em que os profissionais de dublagem protestavam contra essa prática, mas foi inútil: eles se mantiveram irredutíveis quanto à decisão de convidar celebridades para fazerem papéis principais em algumas produções.”

Silvio Giraldi costuma dizer que a dublagem é um trabalho “milimétrico”, no qual é preciso saber “dosar” a interpretação. Mas, de vez em quando, a emoção bate fundo e é difícil se controlar. “Certa vez, dublamos um filme chinês chamado “O Caminho para Casa”, que tem uma história muito comovente. Todos os que participaram do processo se emocionaram na hora de fazer o trabalho, mas, em alguns momentos, isso passou do ponto”, recorda. “Por isso, é importante adaptar as falas na medida certa, para que o trabalho fique mais verdadeiro e condizente com a interpretação original. Afinal, a boa dublagem é aquela que ‘não’ aparece.”

Márcio Seixas também perdeu as contas de quantas vezes se emocionou no estúdio de gravação, seja em desenhos ou filmes. “Por exemplo, amei ter feito “Conduzindo Miss Daisy”. Dublei o personagem Hoke Colburn, interpretado por Morgan Freeman, e me lembrei do meu avô para compor aquela voz. A cena final, na qual ele conversa e alimenta a protagonista, me comoveu demais. Tive dificuldade em fazer as falas, a todo o momento me vinha um nó na garganta e eu sentia vontade de chorar.”

Cada idioma, um caso…
É de se perguntar, também, se existe algum idioma mais “complicado” para se dublar. Via de regra, os profissionais da área estão acostumados com o Inglês (língua “nativa” da maioria dos filmes e séries que chegam aos estúdios de dublagem), mas Silvio faz uma ressalva: “Dentro do Inglês, há atores que falam rápido e outros, extremamente devagar – e temos que nos adaptar a esse ritmo para ‘vestir’ a boca do personagem”, explica. “Também há o Inglês Australiano, que é falado em uma velocidade espantosa. Há casos em que precisamos usar sinônimos e até suprimir algumas palavras.”

Marli Bortoletto comenta as peculiaridades de outros idiomas: “Acho difícil dublar o Espanhol, pois é uma língua latina muito mais articulada que o Português, além de mais ‘aberta’. Então, frequentemente, é complicado fazer uma interpretação natural, sem cair no exagero. Os idiomas orientais também são difíceis, por vários fatores: a sintaxe é diferente, há sons que não existem nas línguas ocidentais e, muitas vezes, é difícil perceber a entonação certa de cada fala (o ator está conversando e você tem a sensação de que ele está brigando, por exemplo). Também há palavras que originalmente são enormes no idioma nativo e que, em Português, são muito curtas (e vice-versa)”.

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