ENTREVISTA COM O DIRETOR GUI ASCHAR

Gui Aschar é cineasta apaixonado por música desde muito novo. Porém com o mercado em baixa, descobriu uma nova paixão

Por Kelly Marciano

 

COMO E POR QUE VOCÊ RESOLVEU FAZER CINEMA?

Quando era mais moleque, eu queria ser músico. Cheguei a cogitar a possibilidade de prestar Composição e Regência. Há 15 anos, o mercado para o músico graduado era muito fraco. Uma das grandes possibilidades era compor trilha para Cinema e Publicidade. Resolvi estudar Publicidade. Ser publicitário não era exatamente o que eu queria da vida, mas não me arrependo dos quatro anos que passei na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Fiz grandes amigos, que são muito importantes para minha vida e para a minha carreira profissional até hoje. Ao terminar a faculdade, fui trabalhar como redator e roteirista. Depois de algum tempo me ocupando de projetos que acabaram não se concretizando, fui estudar cinema, mais preocupado em aprender sobre roteiros. Naquele momento, meu barato era escrever.

 

COMO VOCÊ ESCOLHEU “ONDE” ESTUDAR?

Já havia feito uma faculdade de quatro anos e cogitei a possibilidade de procurar um curso superior. Ao mesmo tempo, estava cansado da vida em escola, pois nunca fui um cara muito acadêmico. Fiquei sabendo do curso da AIC por um amigo da ESPM. O curso era mais curto e mais prático que as graduações tradicionais, em faculdade. Estava com muita vontade de ir direto ao assunto, sem passar por aquelas matérias todas da área de humanas que são obrigatórias e que já tinha cursado em Publicidade. O curso da AIC parecia bem focado na feitura do cinema.

 

VOCÊ REALIZOU MUITOS FILMES ANTES DE PROFESSOR GODOY?

Durante a escola, fazemos muitos exercícios. Alguns dão certo, outros são catástrofes! Antes de Godoy, considero apenas um: Além das Veias, que, mesmo assim, é apenas um exercício que deu certo, sem pretensão nenhuma de ser um filme. Mal tinha uma equipe para trabalhar. Foi feito em vídeo, com o que tínhamos ali, em mãos, mas deu certo.

 

COM AS EXPERIÊNCIAS DOS OUTROS FILMES, O QUE VOCÊ APRENDEU DE ÚTIL PARA GODOY?

Aprendi que é fundamental trabalhar em equipe. Antes eu fazia muita coisa sozinho e ficava sobrecarregado. Uma das coisas que aprendi com os outros trabalhos, e que foi muito importante na realização do Godoy, foi entender a importância da Direção de Arte. Nos primeiros projetos, chegávamos à locação e saíamos filmando, do jeito que estava. Também não tínhamos dinheiro para mexer em muita coisa! Fui percebendo que não adiantava uma luz legal, um enquadramento bacana ou atores bons, se a imagem estava “sem graça”. Tudo o que aparece na tela “conta a história” do filme. Em Godoy, tive a maior preocupação com a Arte, desde o começo. E foi muito bom trabalhar com Thais Albuquerque neste departamento, pois ela entendia a minha “viagem” perfeitamente. Tudo o que aparece no filme, seja locação, figurino ou, simplesmente, um pequeno objeto, foi intensamente discutido por nós, várias vezes.

 

POR QUE FAZER PROFESSOR GODOY?

Era uma ideia que tive tempos atrás para um longa. Era para ser um filme que contasse o último ano escolar de uma turma de adolescentes e o último ano de trabalho de um professor prestes a se aposentar. Falava desta fase de descobertas, nem sempre fáceis de lidar, de ambas as partes: tanto dos meninos, que estavam começando a vida profissional, como do professor, que a estava encerrando. Quando estava prestes a terminar o curso da AIC, precisava de um projeto de graduação para me formar, que consistia, basicamente, de um curta rodado em 16mm. Na falta de ideias melhores e com os prazos vencendo, resgatei a historia de Godoy e resolvi adaptá-la para um curta-metragem, focando o enredo em apenas uma das descobertas.

 

O PROCESSO DE PRÉ-PRODUÇÃO E FILMAGEM FOI COMPLICADO?

A pré-produção foi complicada. Já a filmagem transcorreu de modo mais tranquilo. Na AIC você não tem a obrigatoriedade de trabalhar apenas com alunos da escola durante o projeto de graduação – há a liberdade de convidar profissionais de fora. De fato, isto fez toda a diferença para o filme. Eu tinha um orçamento apertado – afinal, o filme foi financiado por mim mesmo. Contávamos apenas com o apoio da AIC, da Locall e dos Estúdios Mega. Conversei com um amigo da ESPM, Felipe Duarte, que está se tornando um produtor de destaque no cinema. Pedi apenas uma ajuda e, aos poucos, ele foi gostando do projeto e montou um “circo” que eu não imaginava. Conseguimos mais parcerias para equipamento, como a JKL e Moving Track, possibilitando-nos fazer uma produção de nível profissional com pouco dinheiro. Grande parte da equipe era de profissionais com bagagem no cinema, que estavam lá com a gente por acreditarem no projeto. Esta característica profissional fez com que as filmagens fossem tranqüilas, sem grandes atrasos, e com muita organização.

 

VOCÊ TINHA IDEIA QUE O FILME ALCANÇARIA TANTA REPERCUSSÃO?

Jamais poderia imaginar. É o meu primeiro filme profissional. Sou inexperiente e tinha medo que não desse certo. Mas a equipe era muito boa e me deixou confiante. Sinceramente, imaginei que tínhamos alguma chance em alguns festivais nos quais o filme sequer entrou. O mundo dos festivais de cinema é bem relativo. As seleções são subjetivas, qualquer um tem chance de participar. Mas tínhamos grandes expectativas de entrar, particularmente, no Mix Brasil – afinal, falamos de um tema que agrada ao festival. Mas nunca poderia supor que participaríamos da mostra competitiva e levaríamos quatro prêmios para casa. Isto foi uma grande surpresa!

 

VOCÊ JÁ TEM PLANOS PARA SEUS PRÓXIMOS FILMES?

Tenho muita vontade de fazer algo no gênero Ficção Científica. Lógico: em curta-metragem isso fica difícil. Mas quando falo de “Ficção Científica”, não me refiro aos efeitos visuais e naves espaciais. Falo sobre o tipo de Ficção que envolve temas científicos, como a teoria dos multi-universos, por exemplo. Esses assuntos sempre me fascinaram. E, obviamente, discutir as relações humanas em torno disto. A ideia, agora, é ir atrás de patrocínios para fazer coisas com qualidade cada vez maior. E, também, tentar fazer outros projetos em minha produtora.

 

 

 

Veja Também