ENTREVISTA ZOOM: O HOMEM DA CABINE

Nas salas de projeção, entre o claro e o escuro… Confira a entrevista com o diretor Cristiano Burlan, que dirigiu o grupo de cinema experimental Super-8

Cristiano Burlan é diretor de cinema e teatro. Na década de 1990, morou em Barcelona (Espanha), onde dirigiu o grupo de cinema experimental “Super-8”. Esteve à frente do grupo de teatro “A Fúria” e estudou na Academia Internacional de Cinema – AIC, onde, atualmente, é professor de Direção de Atores no curso FilmWorks – Formação Profissional em Cinema. Além dos curtas-metragens A Espera (2004), Opus Hamlet Machine (2005), Os Solitários (2005), 4:48AM (2005) e Lucrecia (2007), realizou o média-metragem Dissonante (2008), o longa Corações Desertos (2006) – que esteve na seleção oficial da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – e o documentário Construção (2007), selecionado para o É Tudo Verdade e o Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana. No momento, ele se acha envolvido na pré-produção do outro longa de ficção, Sinfonia de um Homem Só.

O mais recente trabalho de Burlan é outro documentário, O Homem da Cabine, que mostra a rotina dos projecionistas de cinema, ofício que o realizador define como “uma profissão com os dias e as horas contadas”. O filme, que esteve em cartaz no Cinesesc no início do ano e que segue fazendo carreira em festivais, é simultaneamente marcado por contemporaneidade e nostalgia. Fala do momento atual, da revolução digital e de seus desdobramentos, além de embarcar com simpatia nas histórias pitorescas desses personagens e de sua relação com o cinema.

O diretor constrói um mosaico desses “homens das cabines”, que contam suas histórias, divagam sobre o cinema e o trabalho exigente e solitário e fazem prospecções sobre o futuro da projeção cinematográfica. Nesta entrevista, o cineasta fala sobre a obra e suas implicações.

A FIGURA DO PROJECIONISTA SEMPRE O INTERESSOU? OU ESTE PERSONAGEM SE MOSTROU UM TEMA CURIOSO POR ESTAR DIRETAMENTE LIGADO ÀS DISCUSSÕES SOBRE OS NOVOS FORMATOS DE CAPTAÇÃO E EXIBIÇÃO E A POSSIBILIDADE DE O FILME EM PELÍCULA SE EXTINGUIR?

A figura do projecionista sempre me interessou. Mas, antes da realização de cada filme, minha motivação vem sempre da possibilidade de me enxergar no “outro”. Neste trabalho, em especial, tive o desejo de desvendar o cotidiano de  um profissional pouco conhecido, o projecionista ou operador cinematográfico. Sempre me perguntei o que acontecia com esses homens que passam dez horas dentro de uma sala escura, tendo contato com filmes. Além de ter encontrado figuras interessantes e ter me deparado com pessoas que sofreram transformações em suas vidas por esse contato tão íntimo com a projeção, descobri, também, que é uma profissão em extinção, por vários motivos: o fechamento dos cinemas de rua e a abertura das salas multiplex dos shoppings centers; o avanço da tecnologia e a popularização da projeção digital; além da própria extinção da película 35mm, que está fadada a acabar.

 A MAIOR PARTE DOS PROJECIONISTAS QUE VOCÊ ENTREVISTOU É CONSTITUÍDA POR CINÉFILOS? HOUVE ALGUMA DISCUSSÃO SOBRE A FORMA E A POSSIBILIDADE DE NOVOS SIGNIFICADOS QUE UM FILME PODE VIR A ADQUIRIR APÓS SER VISTO MUITAS VEZES?

Nem todos os projecionistas são apaixonados por cinema, mas há casos em que se tornam cinéfilos. No documentário, o projecionista Nelson – que trabalhou por mais de 30 anos no Cine Bijou –, fala, em seu depoimento, que, dependendo da intensidade da cena, ele aumentava ou diminuía o volume. Para ele, o projecionista deve participar da projeção como parte integrante do processo cinematográfico.

COMO CINEASTA, QUAIS SÃO SUAS IMPRESSÕES SOBRE O PROCESSO DE EXTINÇÃO DO FILME EM PELÍCULA?

O cinema não é um formato, não é uma bitola. O cinema, antes de mais nada, é o desejo de realizar algo, uma idéia,  uma obsessão, dar forma ao imaginário. É óbvio que um filme produzido com tecnologia digital não se assemelha a um filme produzido em 35mm, mas creio que, logo, chegaremos lá – e que neste momento não devemos tentar comparar, mas sim, tentar encontrar a especificidade do digital.

E A PARTIR DESSE DESEJO DE REALIZAR ALGO, DA OBSESSÃO DO CINEMA, O QUE INFLUENCIA MAIS SUA OPÇÃO ESTÉTICA AO FILMAR?

O cinema latino-americano, em sua essência, nos mostra que a falta de dinheiro não pode e não deve ser utilizada como desculpa para a realização de obras inferiores, a falta de recursos interfere diretamente na estética. Houve uma época em que, neste país, o cinema era discutido como forma de expressão, política social e artística. Atualmente, a discussão gira em torno da bilheteria e do mercado. Como posso pensar em mercado, se não sou uma mercadoria?

VOCÊ FOI ALUNO DA AIC E, ATUALMENTE, É UM DOS PROFESSORES DO CURSO FILMWORKS. COMO FOI ESSA TRANSIÇÃO?

Fazer filmes sempre me pareceu distante e utópico. Ver filmes não significa que você saiba fazê-los. Decidi procurar uma escola de cinema que oferecesse não só um estudo teórico do processo cinematográfico, mas, principalmente, ferramentas que me dessem suporte para me tornar um profissional. Após me formar pela AIC, dirigi quatro curtas, dois médias e dois longas-metragens, além de alguns trabalhos publicitários e institucionais. Quando surgiu a possibilidade de dar aulas na AIC, não hesitei. Mesmo acreditando que cinema não se ensina, se aprende, o cinema como arte tem cento e poucos anos, ou seja: comparado à literatura, às artes plásticas e à música, ainda não nasceu – está embrionário. Sinto-me lisonjeado em dar aulas na escola onde estudei.

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