KIAROSTAMI, CONSELHOS DE UM MESTRE

Ao realizar Se Por Acaso, o diretor Pedro Freire contou com uma mãozinha do cineasta Abbas Kiarostami

Texto: Redação

Foto: Divulgação

O filme Se Por Acaso leva a assinatura do professor de direção e atuação e coordenador do curso de Formação em Atuação, Pedro Freire, da Academia Internacional de Cinema (AIC). Para sua realização, Pedro contou com uma ajuda do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. O filme foi selecionado para o Festival do Rio deste ano, que aconteceu entre os dias 06 e 16 de outubro.

 

O FILME

A ideia do curta-metragem veio de uma experiência com o diretor Kiarostami. “Um dia, ele apareceu na minha filmagem e criticou minha câmera – era uma dessas câmeras fotográficas DSLR, afirmando que não gostava muito delas, que preferia uma camerazinha simples, que quase parecia de celular”, lembra Pedro. “Perguntei o motivo e ele respondeu: ‘Porque são complicadas para filmar, é preciso fazer foco, ajustar o diafragma, essas coisas. Assim, a relação que você estabelece com o mundo passa demais pela máquina. Quando eu tenho uma ideia para um poema, pego um lápis e escrevo, e com o cinema não deveria ser muito diferente’. Este curta é inspirado por essa ideia. Saí com a câmera e encontrei crianças maravilhosas, que viram a câmera e disseram que queriam fazer um filme. Perguntei sobre o quê e elas disseram: ‘de zumbi’. Tudo partiu disso, para se tornar um filme romântico, no final.”

Pedro ainda relata que o curta foi filmado durante um workshop dado por Abbas Kiarostami na Escola de Cinema de Cuba. “Neste workshop, nós deveríamos pensar uma ideia a partir dos elementos disponíveis, cenário, pessoas etc. Então, todo o filme, da ideia inicial até o primeiro corte, foi feito em dez dias, sempre com a supervisão de Kiarostami, que aprovava ou criticava a ideia inicial, passava pelas filmagens e aprovava ou criticava o primeiro corte”, conta o professor.

 

O CINEASTA

Abbas Kiarostami nasceu em Teerã, em 22 de junho de 1940, e fez faculdade de Belas Artes em uma universidade da capital do país. No início da carreira, trabalhou fazendo anúncios publicitários, ilustrações e roteiros. Seu envolvimento com o cinema começou em 1969, quando foi nomeado diretor do Departamento de Cinema do Instituto para o  Desenvolvimento Intelectual de Jovens e Adultos do Irã. A partir daí, filmou suas primeiras obras.

Ele ficou conhecido por combinar documentário e ficção e foi considerado um dos mais influentes diretores de seu país, destacando-se por obras como: Gosto de Cereja, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1997, e O Vento nos Levará, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza de 1999. Pedro se comove quando fala sobre a morte do cineasta: “Kiarostami, infelizmente, veio a falecer poucos meses após nosso encontro, que foi muito marcante. Nesses dez dias, entre outras coisas, ele falou muito sobre o formato do curta-metragem e criticou o que definia como um ‘preconceito bobo’, mas muito disseminado na indústria de cinema mundial: o de que o curta é, de alguma forma, menor do que o longa.”

Pedro diz que, na visão de Kiarostami, esta ideia era tão boba quanto afirmar que um poema é menor que um romance. “Ele também me revelou que filmava ao menos um curta por mês e que escrevia um poema por semana, há mais de dez anos. E que, na época, fazia longas para poder ganhar dinheiro e continuar fazendo curtas”, conclui Pedro.

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