MAKING OF DO LONGA “UM ROMANCE DE GERAÇÃO”

Apostando na metalinguagem, Um Romance de Geração, dirigido por David França Mendes e inspirado na obra de Sérgio Sant’Anna, é uma aula de como fazer cinema alternativo no Brasil

 

Por Eduardo Torelli

Fotos Divulgação

 

 

É complexo e curioso o processo de realização de um filme – de fato, às vezes os bastidores são tão interessantes quanto o resultado final, projetado na tela. Por serem esforços colaborativos, os filmes são substratos de muitas mentes, o que sempre implica em debates, discussões e decisões que nunca chegam ao conhecimento do espectador. Bem, quase nunca: o diretor David França Mendes, em seu longa-metragem Um Romance de Geração, trouxe este background para o primeiro plano em uma trama que utiliza a metalinguagem para contar duas histórias: uma fictícia e outra igualmente cativante, ocorrida atrás das câmeras.

Em sua metade imaginária, a obra (adaptada do livro homônimo de Sérgio Sant’Anna e ambientada nos anos 1970) mostra o encontro entre uma jornalista e um escritor em crise – este, com hilariantes laivos de conquistador –, a partir do momento em que a repórter se dispõe a entrevistar o personagem em seu apartamento (o que, na imaginação fértil do autor, é o passaporte para uma noite de luxúria).

Como nas melhores tramas que flertam com várias possibilidades e contrapõem versões distintas de um mesmo fato, assistimos à dramatização dos pontos de vista díspares dos personagens. A multiplicidade narrativa é tanta que a jornalista é interpretada por três atrizes, que assumem a personagem em momentos alternados: Nina Morena, Susana Ribeiro e Lorena da Silva.

 

CÂMERA ABERTA

Mas para quem aprecia a arte da produção, são as cenas “reais” – ou seja, a câmera aberta nos bastidores, mostrando tudo o que se passou nos ensaios e preparativos para o longa (uma abordagem documental que não exclui o humor inerente a essas situações) – que constituem o maior atrativo. Elas são uma aula sobre os processos criativos do cinema, onde vemos David França Mendes, os atores e até o escritor Sérgio Sant’Anna em sessões de leitura dos textos ou buscando um consenso sobre o perfil de cada personagem, assim como as diferentes ópticas pela quais podemos enxergá-los.

O resultado é curiosíssimo para um autêntico cinéfilo, que consegue ver além das imagens projetadas e se encanta com o misto de técnica, sensibilidade e interpretação que representa o ponto de partida para qualquer obra de ficção. É a primeira vez que o diretor se aventura nesta seara, mas não é surpresa que o viés documental esteja impresso de forma tão incisiva no trabalho: David tem um longo currículo como realizador de curtas, documentários e programas de TV.

Desde suas origens, Um Romance de Geração não foi um projeto convencional. Não apenas foi realizado sem recursos e verbas públicas, como teve seus direitos de adaptação liberados pelo escritor Sérgio Sant’Anna em troca de co-participação no empreendimento, como sócio. Quer mais? O elenco abriu mão dos salários em favor de participação nos lucros; e uma gama de parceiros de peso ajudou o diretor a concretizar sua obra, também por apostar na ideia do longa (de fato, muito curiosa). Os aspectos técnicos, incluindo a finalização, foram viabilizados por parceiros como a eclética produtora Mixer, além da Casablanca e da Teleimage. Não faltaram mãos estendidas para ajudar o diretor em sua cruzada. Tudo o que ele precisou fazer para mobilizar este “exército” foi ter uma boa causa.

 

ENSAIOS PRODUTIVOS

“Havia um roteiro desde o início”, lembra David, em entrevista a Zoom Magazine, quando perguntado se os diálogos e situações do filme surgiram de forma tão espontânea quanto o próprio longa, tão anticonvencional. “Afinal sou roteirista e, nesse caso, na casa do ferreiro o espeto não foi de pau. Mas o roteiro teve um processo interessante: depois de ler o livro muitas vezes, o deixei de lado e escrevi uma escaleta, uma estrutura para o filme. Comecei, então, a ensaiar com os atores, me obrigando a escrever uma nova cena para cada dia de ensaio, sempre seguindo a escaleta.”

Ou seja: as cenas eram ensaiadas e depois reescritas com base nas experiências e descobertas obtidas por diretor e elenco. “Assim, o roteiro e o ensaio acabaram ao mesmo tempo, poucos dias (talvez, horas) antes do início das filmagens”, prossegue o diretor. “Quando à parte documental, esta também foi, em parte, roteirizada, encaixada na escaleta. Embora cada um falasse o que quisesse, os trechos lidos da obra estavam previstos, de forma a se encaixarem melhor com a parte ficcional” (leia entrevista completa com o realizador nesta edição).

Basicamente, as filmagens de Um Romance de Geração tiveram lugar entre os dias 11 de setembro e 13 de outubro de 2006 (segundo o diretor, houve, ainda, três dias extras de filmagem em dezembro, para captação de material adicional). A equipe se aquartelou em um estúdio onde o ritmo de trabalho era intenso – e aí entrou em cena o único “patrocínio” da iniciativa privada à produção: os sanduíches, empadas, sucos e quitutes do Talho Capixaba, misto de padaria e delicatessen no Leblon (Rio de Janeiro). Não é força de expressão: este foi mesmo o único “investidor” do filme.

“A equipe trabalhou durante semanas sem receber; eu mesmo e minha parceira, Isabela Santiago (produtora), tiramos alguma coisa do bolso, para fitas e outras necessidades – assim, todos fomos investidores”, assinala o diretor. “Mas o Talho nos alimentou e, como se sabe, não se faz cinema de barriga vazia – então, gosto de falar da Talho como o nosso grande investidor”, brinca.

 

De frente e de verso – seja na linguagem ficcional adotada, seja na maneira inovadora como foi viabilizado –, Um Romance de Geração é uma obra feita por e para cinéfilos. E dos dois ângulos é fascinante. Prova que boas histórias não requerem, necessariamente, efeitos especiais, locações imponentes, gruas e outras “firulas” para envolver o espectador; e que – anote aí a lição mais importante – há formas alternativas de fazer cinema no Brasil além de esperar por ajuda estatal ou (o que é pior) cruzar os braços e passar a vida reclamando sobre as vicissitudes do setor e a concorrência desleal com Hollywood. Este é um cenário que não irá mudar. Mas uma atitude diferente pode enquadrá-lo sob uma perspectiva inteiramente nova – e às vezes, até proporcionar um final feliz.

 

Acompanhe o trailer do filme lançado em 2009: