O ESTILO DE DIREÇÃO DE DARREN ARONOFSKY

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Réquiem para um Sonho, com Jennifer Connelly e ared Leto

Reportagem especial: Katia Kreutz

Para o cineasta, ser mediano é a pior coisa que poderia acontecer. Ele costuma trabalhar entre dois extremos: os aplausos ou as vaias

Conhecido por seus filmes surreais, melodramáticos e muitas vezes perturbadores, o diretor e roteirista Darren Aronofsky descobriu seu lado artístico ainda muito jovem, em Nova York: na infância, era fã dos filmes clássicos; na adolescência, fez experimentações com grafite. No entanto, ao contrário de outros cineastas de sua geração, que aprenderam o ofício na prática (como, por exemplo, Quentin Tarantino e Christopher Nolan), Aronofsky acabou se formando em cinema na conceituada Universidade de Harvard. 

Depois de ganhar alguns prêmios com seus filmes estudantis, o cineasta dirigiu aquele que seria seu primeiro longa-metragem, o enigmático Pi (1998), coescrito e estrelado por seu colega de universidade Sean Gullette. Com um orçamento extremamente reduzido e fotografia em preto e branco, Aronofsky criou um interessante exercício de estilo em uma história de suspense sobre um matemático paranoico, que lhe rendeu críticas positivas e reconhecimento no Festival de Sundance e no Independent Spirit Award – importante premiação norte-americana para produções independentes.

A PARCERIA COM CLINT MANSELL

Pi também marcou o início da parceria do cineasta com o compositor Clint Mansell, que continuou trabalhando com Aronofsky por várias décadas, criando as trilhas de seus filmes. “A música dele em Réquiem para um Sonho (2000) é uma das grandes composições para cinema, provavelmente dos últimos 30 anos. Ela consegue trazer melodia, prazer da escuta, ao mesmo tempo em que serve ao filme, nesse caso, um suspense com horror em um libelo antidrogas. É difícil executar bem as duas funções: encantar e denunciar como música dentro de um filme”, afirma Leandro Afonso, professor da AIC, pesquisador e diretor de cinema.

Embora Aronofsky tenha sentido a pressão de fazer filmes grandiosos depois do sucesso de seu primeiro longa, Réquiem para um Sonho (cujo roteiro se baseou no livro de Hubert Selby Jr.) teve uma boa recepção, a ponto de alavancar sua carreira de cineasta independente a uma grande promessa do cinema norte-americano. O impactante longa foi considerado controverso, pelas cenas gráficas de sexo e por retratar de maneira crua o uso de drogas, mas garantiu a Ellen Burstyn uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Essa projeção resultou no filme seguinte de Aronofsky: Fonte da Vida (2006), um ambicioso longa-metragem de fantasia, com nomes de peso no elenco, como Hugh Jackman e Rachel Weisz. “Para mim, assistir a um filme é como ir a um parque de diversões. Meu pior medo é fazer um filme que as pessoas não considerem um ‘bom passeio’”, chegou a afirmar o diretor, cujos temores se concretizaram: além de Fonte da Vida ser um fracasso de bilheteria, o filme não conquistou muito os críticos.

O RETORNO DO DIRETOR VISCERAL

O Lutador

A volta por cima de Darren Aronofsky aconteceu com O Lutador (2008), uma obra simples e focada no trabalho dos atores. O filme recebeu dois Globos de Ouro e foi indicado a dois Oscars – Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante. “Para mim, O Lutador é o filme em que Aronofsky mais se entrega, sem firulas e tremeliques, ao tamanho da atuação, à força das dores e amores de um anti-herói anacrônico, que é o personagem de Mickey Rourke. Vi duas vezes em dois dias, depois revi, e ele segue sendo um grande filme para mim”, comenta Leandro Afonso, que exalta ainda as situações triviais, mas ao mesmo tempo duras e dramáticas, do longa.

A trilha musical, também composta por Clint Mansell, é outro destaque no filme. “O Lutador remete a um rock glam dos anos 1980, com uma música que consegue construir um personagem, mas também suas angústias e sua incapacidade de encaixe contemporâneo, representado pela profissão e pelas canções”, observa o professor…

*Confira matéria completa na edição 213 da Zoom Magazine