O PODER DA MENTE NO CINEMA

Vários artifícios podem ser usados para levar o espectador a tirar conclusões erradas sobre o desfecho de um filme. Nisto reside a capacidade do diretor em manipular as plateias

Texto: Ricardo Bruini
Imagens: Divulgação

Certamente o leitor já deve ter adivinhado os finais “mirabolantes” de alguns roteiros de filmes. Ou então, no outro extremo, ter sido induzido a crer em um determinado desfecho que se revelou totalmente oposto ao imaginado.

O fato é que, independentemente de nossa vontade, podemos ser persuadidos a pensar em algo que julgamos ser uma conclusão 100% independente e individual, mas que, na verdade, nos foi induzida por meio de certos artifícios, sejam estes imagens, sons, objetos, cores ou diálogos. Por outro lado, a maioria dos roteiros de filmes acaba se mostrando não tão surpreendente assim, o que nos leva a “adivinhar” facilmente os desfechos (às vezes, em detalhes!).

Nesta matéria, Zoom Magazine explorará alguns dos mistérios do cérebro humano. Quando os compreendemos, podemos utilizá-los em favor da elaboração de roteiros surpreendentes.

Conclusões erradas

Não – não somos seres mediúnicos. E nem tampouco completos idiotas persuadíveis. Tais fenômenos ocorrem em virtude da complexidade com que nosso cérebro trabalha e do quanto nosso subconsciente influencia em nossas decisões conscientes.

Evidentemente, a maioria dos roteiros não se utiliza deste tipo de artifício, seja por desconhecimento dos roteiristas, seja por mero estilo de linguagem. Ou ainda, por puro desinteresse sobre o assunto. Porém, alguns poucos roteiristas arriscam, vez ou outra, tentar persuadir o cérebro do espectador a tomar uma decisão que, na verdade, é oposta ao desfecho. O resultado é aquela sensação de “Uau! Eu jamais pensaria nisso!”, que tanto cativa os amantes de um bom roteiro inusitado.

Os efeitos da linguagem subliminar já foram muito explorados no passado, principalmente em tempos de guerra. Era comum, em informes e noticiários de cinema (antes do advento da TV, os noticiários eram exibidos em salas de cinema, precedendo as sessões principais) frames com apenas uma fração de segundo serem inseridos entre algumas cenas-chaves. Dessa forma, o público era levado a chegar a alguma conclusão a respeito de determinado assunto, sem que se desse conta disto. Infelizmente, muita propaganda política (e até racista) já foi inserida deste modo na cabeça de públicos influenciáveis, e com resultados catastróficos, tamanho o seu poder de persuasão e indução. Atualmente, este tipo de recurso ainda é utilizado, mas de forma mais refinada e, normalmente, com intuitos comerciais.

Artimanhas

Há muitas maneiras de induzir o pensamento do espectador. E o nível de sucesso depende do quanto o indivíduo pode ser influenciado. É mais fácil fazer o espectador escolher uma direção de raciocínio quando ele já é propenso a segui-la. Por isso, antes de influenciar diretamente na decisão final, muitas vezes, são inseridos fatos, imagens, sons ou diálogos que deixam o espectador propenso a seguir as falsas pistas que virão a seguir. No decorrer da trama, muitas artimanhas podem ser utilizadas para criar este conclusão equivocada: Uma determinada situação que leva a alguma conclusão “inquestionável”. O corte antecipado da reação de algum personagem, de forma a não se revelar o autêntico significado da ação. Uma determinada sequência de imagens ou de sons. O ritmo de edição das imagens e sons. Cores e atmosfera.

As roupas dos personagens, os objetos de cena ou locais que, a princípio, não tenham nenhuma importância (mas que, de fato, são fundamentais para a história) são uma forma de enganar o espectador, fazendo-o não levar em conta fatos importantes e a superestimar outros que são falsos.

Recursos menos evidentes e que façam uso sutil de psicologia – e até de “mentalismo” (conjunto de técnicas utilizadas por ilusionistas) –, apesar de quase despercebidos conscientemente, fazem uma grande diferença nas conclusões tomadas pelo subconsciente do espectador. Quanto mais uma conclusão desafiar a lógica, mais descrença esta causará e, portanto, mais tenderemos a achar que não é um desfecho plausível.

“Eu sabia!”

Agora, mentalize esta cena: casal de namorados está dentro de um carro, dirigindo pelas ruas desertas de uma cidade. É madrugada e os dois conversam descontraidamente, falando sobre coisas boas, contando piadas e fazendo planos para o futuro. Começa a chover. A conversa prossegue, o farol fecha e o carro para. Aproveitando este momento intimista, os dois se beijam. O farol abre e eles não percebem. Eis a pergunta: o que acontecerá a seguir?

Se você é um aficionado por filmes, deve ter matado a charada facilmente. Provavelmente, uma reviravolta acontecerá. Algo como o carro ser atingido por um caminhão em alta velocidade e a mulher morrer ou ficar em coma. Ou talvez, um assassino com um taco de beisebol quebre o vidro do carro, assaltando e causando a morte do rapaz. Enfim: uma ruptura qualquer no clima ameno, alegre e monótono que antecedia a ação.

É mais ou menos isto o que acontece quando um roteirista faz uso de “receitas prontas” e de estratégias manjadas de roteirização. É fácil chegar a conclusão mais óbvia – afinal, certamente o espectador habituado a ver filmes e outras obras audiovisuais já se deparou com tramas semelhantes. Com um pouco de treino e repertório, muitas histórias podem ter seu desfecho facilmente desvendado.

Seja em enredos inesperados ou em finais clichês, toda cena de um audiovisual só é compreendida porque nosso subconsciente tem tanto ou mais importância que aquilo que absorvemos conscientemente.

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