AFINAL, O QUE FAZ O DIRETOR DE CINEMA?

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O que faz um diretor de cinema

A “cabeça” da equipe artística de um filme, este profissional desempenha diversas funções dentro de um mesmo projeto

Podemos dividir uma equipe de cinema em duas grandes categorias interdependentes: a equipe logística e a equipe artística. As duas trabalham conjuntamente e se comunicam o tempo todo. O que as diferencia é o fato de que, enquanto uns pesquisam e desenvolvem conceitos artísticos e estéticos (equipe artística), outros asseguram que tudo seja devidamente realizado (equipe logística). Evidentemente há profissionais híbridos, cujas funções esbarram tanto em conceitos artísticos como em elementos logísticos. Para mencionar apenas as funções básicas, poderíamos listar, a princípio:

EQUIPE “ARTÍSTICA”

· Diretor

· Assistentes de Direção

· Diretor de Fotografia

· Assistentes de Fotografia

· Diretor de Arte e Assistentes

· Operadores de Câmera e Som

· Continuistas

EQUIPE “LOGÍSTICA”

· Diretor de Produção

· Produtor de Arte

· Produtor de Elenco

· Produtor de Locação

· Produtor de Objetos

· Produtor Executivo

· Maquinista

Há muitas outras funções que poderiam ser listadas e exploradas (foquista, assistente de câmera, logger, operador de video assist, produtor de lançamento, film loader etc.), além de cargos ativos na etapa de pós-produção. Mas, neste artigo, nos focaremos em uma das funções mais badaladas e almejadas do universo cinematográfico: o diretor.

Este profissional é a “cabeça” da equipe artística e precisa desempenhar diversas funções em um projeto, tais como: estabelecer os critérios de linguagem para orientar a fotografia e a direção de arte; monitorar o desenvolvimento e aprovar as propostas geradas pelo diretor de fotografia e pelo diretor de arte, orientar e dirigir os atores, garantir uma “unidade” artística em todo o projeto e mais um pouco! Vamos, portando, dar uma olhada individual em cada uma das funções que se encontram na alçada do diretor.

LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA

Uma mesma história pode ser contada de diversas formas. Tomemos, por exemplo, a fábula “Chapeuzinho Vermelho”: podemos narrar essa história de diferentes maneiras, sem, contudo, alterar sua estrutura narrativa. Afinal: seria possível transformá-la em um suspense, em uma comédia escrachada e até em um drama psicológico metafórico e simbólico? Dependendo das escolhas feitas, a mesma história pode assumir “roupagens” radicalmente diferentes e, consequentemente, provocar impactos distintos na audiência.

Todas essas escolhas, que irão interferir diretamente no resultado final da obra (ou seja, elementos narrativos, psicológicos, estéticos, técnicos e por aí afora), formam o conjunto de elementos que comumente denominamos “linguagem cinematográfica”.  Decidir “como” a história será contada, estabelecer sua linguagem, é uma das primeiras incumbências e responsabilidades do diretor ao aceitar “dirigir” um roteiro determinado – afinal de contas, essas escolhas irão interferir diretamente no trabalho de todos os outros profissionais.

Também é responsabilidade do diretor verificar se os elementos da linguagem estão sendo respeitados e interpretados de uma só maneira, compondo uma unidade artística em todos os setores do projeto. A fotografia e a arte devem estar de mãos dadas para traduzir em imagens (cores, quadros, cenários etc.) os conceitos estabelecidos pelo diretor.

É relativamente comum um diretor fazer uso de várias referências artísticas para compor a linguagem estética de uma obra e, com isso, orientar de forma mais concreta sua equipe. Essas referências podem vir de outros filmes ou de outras expressões artísticas, como: pintura, escultura, histórias em quadrinhos, teatro, música etc. Exemplificando: o consagrado filme Moça com Brinco de Pérola, de Peter Webber, aborda a história por trás de um dos quadros mais famosos do pintor holandês Johannes Vermeer. Para realizar o feito, Webber optou por adotar uma linguagem estética que refletisse o mesmo teor das pinturas barrocas de Vermeer.

Isso, evidentemente, afetou todas as escolhas da direção de arte e da direção de fotografia. Afinal, seria necessário reproduzir, no cinema, as mesmas particularidades artísticas atribuídas à Vermeer.  Toda a paleta de cores explorada no filme (em cenários, figurinos, objetos de cena etc.), bem como a composição das luzes e enquadramentos, parecem saídas diretamente das obras do pintor. Além disso, pinturas podem sugerir movimento – no entanto, não se movem; consequentemente, toda a limitada movimentação de câmera do filme é sutil e suave.

O resultado é impressionante: se apertarmos a tecla “Pause” em qualquer instante do filme, teremos a impressão de ver, na tela, um quadro do barroco holandês – mais especificamente, de Vermeer. Com isso, fica clara a importância e a prioridade em elaborar e determinar a linguagem – ou, ainda, definir como a história será contada. 

Lembre-se, assim, de algo importante: comumente as pessoas confundem as palavras “Diretor” e “Ditador”! Brincadeiras à parte, cinema é uma arte extremamente colaborativa e a palavra “diretor” está mais associada a “apontar uma direção” (e não a “impor”), certo? Um bom diretor discute a linguagem com seus profissionais e colegas de equipe e ouve todas as sugestões para, então, tomar as decisões finais e garantir que a linguagem seja sólida e coesa.

Para concluir, vamos às vias de fato: como elaborar a linguagem de um projeto? Leia o roteiro cuidadosamente por várias vezes. Tente visualizar a história em uma tela. Faça perguntas a si mesmo (como você quer que esta história seja contada? Como quer que a audiência reaja ao filme? Há algum gênero específico em mente – comédia, romance, suspense etc.? Você busca um filme mais físico e externo ou mais simbólico e psicológico? Possui referências para se espelhar? etc.) e tente respondê-las de várias formas. Não há limites para essas perguntas – apenas não deixe que elas o paralisem e acabem transformando-o em um artista/cineasta 100% teórico, que passa mais tempo discutindo e filosofando do que gravando!

Terminado o processo, o ideal seria expor esses conceitos a seus colegas de equipe e ouvir o que eles dizem. Em pouco tempo você terá em mãos uma série de diretrizes, elementos e referências que servirão de “guia” artístico para sua obra. Pronto! Você descobriu a linguagem de seu projeto e deu o primeiro grande passo que todo diretor deve dar! Lembre-se de que não há fórmulas fixas e mágicas para composição de uma linguagem cinematográfica – sua experiência será a sua melhor escola. E sua bagagem cultural e referências artísticas, seus “livros didáticos”! Devemos, agora, abordar outro tópico importantíssimo e complexo: a direção de atores, que será o nosso assunto no mês que vem. Até lá!

*Por Tiaraju Aronovich

Este e outros artigos você encontra na edição 216 da Zoom Magazine

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