POR TRÁS DA CENA: DOCUMENTÁRIO ‘A LEI DA ÁGUA’

Em documentário, ativistas, ruralistas e cientistas debatem o impacto do novo Código Florestal Brasileiro no meio ambiente

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Divulgação 

Durante muito tempo, os danos infligidos ao meio-ambiente foram um assunto restrito a especialistas e ativistas da causa, raramente ganhando repercussão junto ao grande público. Entretanto, a crise hídrica que se abateu sobre estados como São Paulo e Rio de Janeiro se encarregou de dar uma conotação mais “prática” à questão, no entender de muitos cidadãos brasileiros. Sentir a falta desse recurso “na pele” fez com que as pessoas começassem a se conscientizar de que é preciso estabelecer uma nova relação com o meio ambiente, um processo que, claro, também passa pela esfera governamental.

Nesse contexto, o documentário A Lei da Água, dirigido por André D’Elia, não poderia ter surgido em uma hora mais oportuna. O fato de ter sido lançado em um momento tão crítico, porém, foi uma coincidência, já que o autor do longa-metragem se interessa pelo assunto há tempos, tendo, inclusive, realizado outro filme centrado em uma questão ambiental de vulto: Belo Monte – Anúncio de uma Guerra, sobre a construção da hidroelétrica no Rio Xingu.

Desmatamento ilegal
Com 75 minutos de duração, A Lei da Água é produto de uma parceira entre o Instituto Socioambiental (ISA), WWF-Brasil, Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) e Bem-Te-Vi Diversidade. Em seu cerne, estão as possíveis consequências do novo Código Florestal Brasileiro, que anistiou 29 milhões de hectares desmatados ilegalmente em todo o país. Ambientalistas, ruralistas e cientistas contribuem com depoimentos, enriquecendo o debate proposto. E, o que é mais importante: o saldo de toda essa discussão está chegando ao público, já que, logo de início, milhares de espectadores puderam assisti-lo por meio de sessões realizadas em parceria com organizações e movimentos engajados em causas ambientais. Mais recentemente, a produção também entrou no circuito comercial, o que ampliou ainda mais o seu alcance, e foi disponibilizada para venda ou locação no iTunes.

A ideia de realizar um filme sobre o Código Florestal primeiramente ocorreu a André D’Elia em 2011. Embora não tenha sido possível viabilizar o projeto naquela época, o realizador iniciou, ali, uma ampla pesquisa sobre o tema, substancialmente “reforçada” quando o documentário entrou em pré-produção. Definido um “fio condutor” para a narrativa, mais dados pertinentes à questão foram obtidos em jornais, revistas e na Internet. Uma pesquisa científica também foi encomendada, para que o longa se baseasse em uma pauta bem consistente.

“Com base nessas informações, começamos a estruturar o roteiro”, lembra D’Elia. “Trata-se de uma etapa crucial em projetos como este, já que, havendo tantos dados à disposição, corre-se o risco de deixar tópicos importantes de fora ou, então, acabar fazendo um filme de sete horas, já que há assunto suficiente para isso.” O diretor salienta que, nesta fase, surgiu a ideia de tornar a água o mote central do filme. “Originalmente, falaríamos apenas sobre a legislação florestal/ambiental. Entretanto, ao estruturarmos o roteiro, notamos que a questão da água tangenciava vários temas ligados ao assunto principal. Foi quando o projeto ganhou o seu título definitivo: A Lei da Água.”

A bordo de um balão
O documentário é uma realização da Cinedelia, com co-produção da O2. O orçamento de R$ 324 mil não é nenhuma “fortuna”, mas todos os envolvidos compensaram o budget modesto com empenho de sobra para realizar o melhor filme possível dentro das condições propostas. A produção consumiu 16 meses de muito trabalho, com entrevistas feitas em Brasília, Mato Grosso, Pará, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo.

A captação (feita com câmeras DSLR) ficou a cargo de uma equipe reduzida, que se deslocava aos locais das entrevistas e buscava imagens em campo. Vários takes foram registrados com o uso de um balão de turismo – um meio de transporte que, segundo o diretor, se mostrou bastante útil neste projeto. “Já fiz muitas captações aéreas a bordo de aviões, mas o balão nos proporcionou um olhar mais ‘contemplativo’, o que ia de encontro ao espírito do documentário”, afirma D’Elia. “As cenas aéreas de A Lei da Água não são visualmente impactantes, pois esta não era a nossa intenção. Queríamos oferecer ao público uma perspectiva quase ‘divina’ dos rios, nascentes e caminhos percorridos.”

“Organização” também foi um trunfo da equipe. “Nos programamos para fazer todas as entrevistas com os cientistas ao longo de duas semanas”, lembra o realizador. “Outros cinco dias foram suficientes para captarmos todas as imagens necessárias em Brasília, no curso de uma única viagem, e esparsamente captamos o material excedente, dentro de nossas possibilidades.” D’Elia afirma que, durante o processo de realização, a estrutura de roteiro sempre foi o principal “norte” para a realização. “Era o referencial que nós seguíamos – o que não tínhamos, íamos buscar, de alguma forma. Este é o espírito do ‘cinema-pedrada’: acima de tudo, conseguir fazer.”

Já no que se refere às entrevistas, o diretor afirma que sua postura é a de “provocador”. “O objetivo é incitar os entrevistados, deixá-los à vontade em alguns momentos e desconfortáveis, em outros”, conta D’Elia. “Desempenho esse trabalho já há alguns anos e sei como fazer as pessoas sentirem vontade de ‘contar tudo’ diante da câmera.” Entre os entrevistados de A Lei da Água estão o senador e ex-governador Blairo Maggi (PR-MT), os deputados federais Ivan Valente (PSOL-SP) e Ricardo Trípoli (PSDB-SP), a sub-procuradora da República Sandra Cureau e o ambientalista Mário Mantovani, além de pesquisadores de instituições como USP e INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).


Nos documentários, assim como em outros gêneros, a montagem é um momento essencial. Entretanto, D’Elia não acredita que existam “regras” que definam essa etapa da realização. “O mais importante é ver o que funciona ou não”, diz o cineasta. “Houve um momento, em A Lei da Água, em que achei pertinente inspirar esperança nas pessoas – então, solicitei uma música chamada ‘Esperança’ aos trilheiros do filme, Fábio Barros e Gabriel Nascimento. E esse recurso funcionou perfeitamente.”

Quanto ao processo de montagem, o método de D’Elia é muito peculiar. “De posse de uma transcrição dos depoimentos dos entrevistados, leio o que eles disseram e vou montando o filme em minha cabeça”, diz. “Também procuramos levar em conta não apenas a compreensão do público da história – um quesito essencial –, mas, também, o que o público possa estar sentindo enquanto assiste ao filme. É um processo vivo e criativo”, conclui o diretor.

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