POR TRÁS DA CENA – EU SOU CARLOS IMPERIAL

No documentário, os cineastas Ricardo Calil e Renato Terra relembram a trajetória de um dos mais controversos personagens da cultura Pop nacional

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Divulgação

Polêmico, mulherengo, irresponsável e oportunista. E também, carismático e com “faro” para descobrir novos talentos (o que teve um grande impacto na cultura popular do país e ajudou a revelar monstros sagrados de nossa música, como os icônicos Roberto e Erasmo Carlos, Eduardo Araújo e Tim Maia). Carlos Imperial era assim: um homem com mil motivos para ser odiado ou celebrado. E essas contradições estão no cerne do bom documentário Eu Sou Carlos Imperial (já disponível para locação no Now, da NET) que leva a assinatura de uma dupla de realizadores talentosos: Ricardo Calil e Renato Terra, que, há alguns anos, nos deram o memorável Uma Noite em 67.

Todas as faces do controverso personagem (inclusive a de compositor, já que Imperial é autor de sucessos como “A Praça” e “Mamãe Passou Açúcar em Mim”) são relembradas no filme – que, com total isenção, também nos mostra o lado mais implacável e discutível do mito. Se, por um lado, essa faceta de Imperial não era totalmente destituída de humor (durante muitos anos, ele foi o “homem da vaia” em programas de auditório populares), por outro, seus factóides e declarações irresponsáveis criaram sérios problemas para muita gente. Mas o documentário de Calil e Terra não “julga” o biografado: apenas se limita a expor os fatos e convida o espectador a tirar suas próprias conclusões: Imperial era um herói ou um vilão?

Anatomia de um cafajeste
A produção é da Afinal Filmes, especializada em pós-produção de documentários e que, com Eu Sou Carlos Imperial, estreia em produção para cinema. O Canal Brasil é coprodutor do documentário, que ainda recebeu patrocínio da RioFilme. Além de depoimentos de Roberto e Erasmo Carlos, Eduardo Araújo, Paulo Silvino e Tony Tornado (entre outros personagens-chaves na trajetória de Imperial), a obra reúne imagens raras de arquivo que ilustram as pândegas incursões do “encrenqueiro” pelo cinema e pela TV. O ponto de partida para a realização do filme foi uma biografia de Carlos Imperial escrita por Denilson Monteiro, “10 Nota 10”.

Enquanto captavam Uma Noite em 67, os cineastas “trombaram” com o nome de Imperial em vários depoimentos colhidos para o filme (cujo tema era a histórica noite de encerramento do Festival da Música Popular Brasileira da TV Record). Ambos ficaram intrigados com o personagem, mas só decidiram realizar um documentário sobre ele depois de lerem a obra de Monteiro. “Buscávamos um novo projeto e, quando lemos a biografia, nos convencemos de que aquele era um tema excelente”, diz Ricardo Calil em entrevista à Zoom Magazine.

Uma pesquisa mais aprofundada apenas comprovou o que os cineastas já suspeitavam. “Imperial foi fantástico por vários motivos”, opina Calil. “Ele lançou Roberto e Erasmo, Tim Maia e Eduardo Araújo, entre outros talentos, além de ter composto músicas e ter atuado em cinema. Era uma figura pop indiscutível, ainda que pouco lembrada. Eu e Renato achamos que sua história deveria ser contada. Carlos Imperial criou uma persona de cafajeste, de vilão, e sempre usou muito a mentira para se promover, assim como aos seus projetos e artistas. Pensamos que seria interessante fazer um documentário (teoricamente, um formato dedicado à verdade) sobre um mentiroso.”

Verdades e mentiras
Ainda segundo Calil, a biografia de Monteiro lhes permitiu traçar uma trajetória bem abrangente do “Rei da Pilantragem”. “Obviamente, tivemos que manter o foco em alguns assuntos, mas tentamos transmitir o espírito ‘imperialesco’ de maneira fidedigna no filme”, prossegue Calil. Mas o realizador ressalta que, por se tratar de um projeto audiovisual, o documentário pode fazer uso de elementos que o livro só podia sugerir (por exemplo: trechos de músicas e imagens de filmes relacionados a Imperial). “A pesquisa feita por Monteiro para a obra nos ajudou muito, mas queríamos criar um produto à parte, algo específico, focado nesse jogo de verdades e mentiras”, complementa o diretor.

Na captação das cenas, foi utilizada uma Canon 5D (equipamento que caiu de vez nas graças dos documentaristas, por ser versátil, acessível e oferecer grande autonomia na hora de gravar). O orçamento disponível não era “nababesco” – portanto, foi preciso usar a criatividade para filmar rápido e com qualidade. Ajudou muito o fato de a equipe, apesar de modesta (aproximadamente dez profissionais), contar com nomes de peso no gênero.

“Tínhamos um bom fotógrafo (Jaques Cheuiche), uma boa montadora (Jordana Berg) e outros talentos que haviam nos ajudado a fazer Uma Noite em 67”, recorda Calil. “Mas, acima de tudo, essas pessoas já haviam trabalhado com o grande Eduardo Coutinho, o mestre brasileiro dos documentários. Então, apesar da limitação de recursos, contávamos com o talento e a experiência desses colaboradores.” O cineasta acrescenta que a limitação de verba também influiu na logística de gravação, pensada para ser o mais proveitosa possível.

A maior parte das entrevistas foi feita em um estúdio em Botafogo, bairro na zona sul do Rio de Janeiro (RJ), o que permitiu captar um número maior de depoimentos por diária (já que se excluía a necessidade de deslocamentos). Em externas, só foram gravadas as cenas com Roberto e Erasmo Carlos e Paulo Silvino. “O filme foi feito em apenas nove diárias, contra as mais de 20 necessárias para captar Uma Noite em 67”, compara o diretor.

Gratidão
Mas, afinal: Carlos Imperial era um herói ou um vilão? Esta é uma pergunta difícil de responder, mesmo para quem passou meses esmiuçando a vida do biografado. “Ele foi cruel com algumas pessoas”, diz Calil. “Uma de suas frases mais famosas era: ‘Amigo meu não tem defeito; inimigo, se não tiver, eu invento’. Quando começamos a realizar o documentário, achamos que os entrevistados falariam mal dele, o que não seria um problema, já que não estávamos fazendo um filme ‘chapa branca’. Mas, surpreendentemente, muitas pessoas que foram sacaneadas por Imperial se lembravam dele com carinho. Foi interessante ver essa gratidão ‘brotar’ nos depoimentos.”

As histórias de Uma Noite em 67 e Eu Sou Carlos Imperial estão, de certa forma, conectadas no tempo e no espaço, já que compartilham alguns personagens e fatos. Mas Calil vê uma diferença entre os dois trabalhos: “O documentário sobre Imperial cobre um período mais longo, indo das origens do rock no Brasil à morte do biografado, já nos anos 1990”, conclui o realizador. “Além disso, não versa apenas sobre música. Acho que, na essência, é um filme mais ‘amplo’ do que Uma Noite em 67.”