POR TRÁS DA CENA: ‘PIADEIROS’

Captado no Brasil e em Portugal e cheio de histórias e “causos” engraçados, documentário Piadeiros é um “road movie da risada”

Texto: Eduardo Torelli
Fotos: Divulgação

Você já os viu por aí, seja em uma praça ou rua da cidade, na empresa onde trabalha ou em alguma mesa de boteco: os “piadeiros” se destacam facilmente na multidão por serem os indivíduos mais engraçados do “pedaço”. Com sua espontaneidade e bom-humor, eles tornam nossas vidas mais leves e divertidas, embora não ganhem para isso e não sejam conhecidos fora dos círculos sociais que frequentam. Em parte, essa última “injustiça” é reparada pelo cineasta Gustavo Rosa de Moura no documentário Piadeiros, obra com cara de “road movie” que leva alguns desses expoentes anônimos do humor para o telão, ampliando o alcance de suas anedotas e “causos” irresistíveis.

A realização de Piadeiros, em si, foi uma aventura: o diretor percorreu mais de 40 cidades do Brasil e de Portugal em busca dos tipos bem-humorados que aparecem no filme. Realizado pela Mira Filmes, o documentário é distribuído pela Espaço Filmes e teve direito a uma pré-estreia na 39ª Mostra de São Paulo, antes de entrar em circuito nos cinemas, em novembro.

Da premissa à realização
Gustavo Rosa de Moura teve a inspiração de realizar Piadeiros em um momento de descontração. “Aconteceu durante uma viagem entre o Rio e São Paulo, quando eu conversava com alguns amigos sobre o humor”, relembra o diretor em entrevista à Zoom Magazine. “Na verdade, acho que o humor, em suas diferentes formas de manifestação, é um aspecto importantíssimo em qualquer cultura, revelando coisas interessantes tanto do ponto de vista cultural como social.

O diretor também tinha curiosidade quanto ao que torna ou não uma pessoa engraçada, já que isto parece ser relativo. “A piada é um artifício interessante”, observa ele. “Uma mesma ‘história’ pode ou não ser engraçada dependendo de uma série de fatores: quem a conta, ‘como’ a conta, ‘para quem’ a conta e ‘quando’ a conta. Tudo isso me interessava e achei que valia a pena fazer o filme.

Em se tratando de documentários, a captação pode ou não se basear em um pré-roteiro – algum “rascunho” previamente definido das ações que serão registradas pela equipe.Piadeiros prescindiu desse artifício, sendo basicamente feito “em campo”, em clima de “descoberta”. “Tínhamos uma premissa básica, uma pesquisa que encomendamos e algumas regras autoimpostas, mas nenhum roteiro”, diz Gustavo. “Foi durante as filmagens que encontramos a ‘cara’ do filme. E só durante a montagem é que definimos sua estrutura definitiva.”

Sorte e acaso
A pesquisa mencionada pelo diretor foi empreendida com o propósito de localizar os protagonistas do filme. “O processo teve dois momentos distintos”, conta o realizador. “Primeiramente contratamos pesquisadores e produtores locais para irem em busca de pessoas comuns – não humoristas “profissionais” – que tivessem a fama de serem piadistas. A pesquisa deveria detectar, sobretudo, cidadezinhas que tivessem uma ‘propensão’ ao surgimento de ‘piadeiros’. O segundo momento está registrado no filme: é a equipe de filmagem na estrada, percorrendo as cidades e procurando os ‘piadeiros’ em ruas, bares, mercados etc. Normalmente chegávamos até alguém já ‘pré-pesquisado’ e, a partir daí, continuávamos a busca seguindo as indicações daquela pessoa (ou de outras que estivessem por ali). O resultado era sempre incerto. Às vezes um personagem pré-pesquisado rendia muito. Em outras, não rendia nada. A sorte e o acaso sempre foram componentes essenciais nesse projeto.”

Gustavo acrescenta que a proposta também era fazer um grande “giro” pelo Brasil, incorporando ao filme sotaques, culturas e locais que estivessem fora do “radar” convencional da televisão. “Definimos as locações de forma um pouco intuitiva, junto com os produtores locais”, prossegue o diretor. “E o resultado foi incrível. Sempre que viajo para locais não-turísticos, fora das rotas mais óbvias e tradicionais, aprendo muito. Neste projeto eu conheci lugares e pessoas que jamais teria conhecido se não estivesse realizando o documentário, e que enriqueceram profundamente a minha compreensão do mundo.” A inclusão de Portugal no roteiro das filmagens se deu pelo país ter, também, uma forte tradição em humor e pelos portugueses serem um “alvo” tradicional em muitas de nossas piadas.

Sem interferir
A captação mobilizou quase todo o contingente da Mira Filmes. Além de dirigir, Gustavo se encarregou do som, junto com André Bomfim (o áudio foi registrado com microfones direcionais Sennheiser MKH 416 e MKH 50 e, ocasionalmente, com modelos de lapela). A câmera (uma Canon C300, escolhida por ser leve e versátil e por proporcionar boas imagens mesmo em captações com pouca luz) foi operada por Chico Orlandi. Um produtor local e um motorista sempre acompanhavam a pequena equipe em campo. Já a produção executiva e a direção de produção ficaram sob a responsabilidade de Giulia Setembrino e a edição, de Bernardo Barcellos.

A montagem, segundo o diretor, seguiu parâmetros mais tradicionais, sem “rasgos” de inventividade no que se refere à cronologia dos fatos – e por uma boa razão: a ideia era respeitar o processo de pesquisa e os blocos de cada viagem. “Desde o início eu sabia que não iríamos editar internamente as piadas, pois era importante respeitar a oralidade de cada um, o jeito, o ritmo de cada contador, assim como a duração e o conteúdo das piadas”, explica Gustavo. “Um excesso de interferência mudaria tudo – seria uma traição à ideia do filme. Além disso, eu queria preservar a unidade de cada região. No fundo, acho que posso dizer que o principal ‘norte’ da edição foi ser fiel ao processo. Até mesmo os ‘offs’ entraram com esse objetivo.” Na finalização, quaisquer efeitos ou inserções foram dispensados. O único ajuste feito foi a trivial correção de cor.

No momento, a Mira Filmes tem outros projetos em andamento, tanto para a TV como para o cinema. Para a telinha, foram desenvolvidas a série Quero Ter um Milhão de Amigos(Canal Warner) e o telefilme Marulho (TV Cultura). Já Califórnia (de Marina Person) eCanção da Volta (o primeiro longa de ficção assinado por Gustavo) foram elaborados para o telão. “Meus próximos projetos como diretor serão a comédia Antes Tarde do que Nunca e a adaptação de um romance da Beatriz Bracher, Antônio”, conclui o realizador. “São filmes bem diferentes, mas que me animam muito. O primeiro, mais popular, trata de assuntos bem contemporâneos. Já o segundo é um drama mais experimental, de baixo orçamento e com apostas formais arriscadas, mas desafiadoras.”

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