POR TRÁS DAS CÂMERAS – SÉRIE ‘LE TOUR DU MONDE’

Casal de artistas saiu pelo mundo registrando sua busca por inspiração e por novos sons. O resultado é a série Le Tour Du Monde, uma experiência visual e sonora

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Divulgação

O primeiro passo para um audiovisual interessante é uma boa ideia. E que ideia seria melhor do que mostrar um casal apaixonado de artistas viajando pelo mundo em busca de inspiração para um novo trabalho? Pois este é o mote da websérie Le Tour Du Monde, estrelada pela dupla Lucas Mayer (músico e produtor) e Iris Fuzaro (compositora), que percorreram vários países enquanto compunham músicas para um novo disco. Além da veia artística, seus grandes companheiros de jornada foram uma câmera, um notebook, uma variedade de microfones e diversos instrumentos musicais que foram encontrando em suas andanças… Uma experiência, enfim, que merecia ser registrada e testemunhada por um sem-número de espectadores.

 Tudo começou quando Lucas compôs a música “Only”, em homenagem a Iris, durante uma viagem pelo Havaí. Na ocasião ele utilizou apenas um microfone, um instrumento de cordas chamado Ukulele e a inspiração que o cenário proporcionava. Estavam lançadas as bases de Le Tour Du Monde, que ampliou aquela ideia original em termos de conceito e de distância (o roteiro de viagem elaborado para a produção perfez dez países). Percorrendo várias cidades e absorvendo um pouco de suas respectivas essências musicais, Lucas e Iris tinham a missão de criar músicas para um novo álbum no mesmo espírito com que foi elaborada “Only”: fora dos estúdios de gravação e de maneira espontânea. A direção dos onze episódios da série ficou a cargo do cineasta Bruno Jorge.

Percepções
Além de Lucas e Iris e do diretor Bruno Jorge, o time responsável por Le Tour Du Monde era constituído por Yvonne Vilshoever (câmera que contribuiu para o projeto em sua fase europeia), um montador e uma equipe de produção sediada em São Paulo (SP). Desde os primeiros episódios, havia uma pauta essencial: obter instrumentos musicais específicos em cada local visitado e encontrar locações adequadas para as filmagens. Os protagonistas também tinham que compor músicas originais inspiradas em cada país do roteiro.

Como Lucas e Iris dizem à reportagem de Zoom Magazine, a busca por instrumentos diferenciados também implicava em encontrar instrumentistas (ou elementos da cultura local) que pudesse ser inserido nas músicas. A princípio, isto já fornecia uma estrutura “formal” aos episódios. “Porém, se tratava de um ‘documentário’, ou seja: demos possibilidades ao imponderável, para o que poderia vir a acontecer”, dizem os protagonistas. “Seguindo o que Bruno nos pediu, passamos a gravar depoimentos que seriam a base da montagem, com percepções sobre as cidades e países em que nos encontrávamos, contando, também, o que se passava em nossa relação durante todo o processo.”

As imagens foram captadas com câmeras Canon T5i e 60D e duas GoPro Hero 4 (com estabilizador Pilot Fly). Pela própria natureza itinerante do projeto, os viajantes levaram um mínimo de equipamentos. Estes incluíram um microfone USB da Apogee (o principal recurso empregado na gravação dos instrumentos de corda), um RE20 (para o registro de sons mais graves e percussões) e um microfone Roland CS-10EM, que oferece monitoramento e gravação binaural.

Locais perfeitos
Além do Brasil, os países onde Lucas e Iris gravaram foram: EUA, Holanda, Alemanha, Hungria, Grécia, Turquia, Tailândia, Indonésia, Japão e México. “Porém, as locações não foram pré-definidas”, diz Lucas. “Iris tinha o papel de sempre buscar o local perfeito para a gravação binaural, mas, nesse ínterim, filmávamos a nós mesmo percorrendo locais turísticos em busca de músicos de rua, indo a lojas de música e participando de shows. Já que nossa equipe era pequena, não tivemos problemas para filmar em locais públicos.”

Houve, claro, alguns pequenos contratempos: em Atenas, na Grécia, os protagonistas foram “denunciados” pelo microfone que usavam, cujo aspecto era muito “profissional”. “Isto nos ‘delatou’”, lembra Lucas. “Tivemos que ‘pular’ algumas cenas que faríamos na Acropolis, mas, no fim, tudo deu certo. Enquanto obtínhamos as imagens, não nos preocupamos em isolar as áreas de gravação. Isto seria contrário à ideia do projeto. As pessoas faziam parte dos ambientes que visitamos – e, se um carro buzinasse, uma bicicleta passasse ou alguém gritasse, tudo isso faria parte da música.”

O diretor também deu instruções ao casal no que se referia ao “tom” da fotografia. “O projeto se baseia em uma certa ‘precisão formal’ – logo, tudo o que não se enquadrasse no contexto proposto foi deixado de fora na montagem”, prossegue Lucas. “Esta decisão limitou um pouco nossas possibilidades, mas, em contrapartida, conseguimos uma unidade de ‘forma’ para todo o projeto. O formato 1:2:35, Cinemascope, auxilia no reenquadramento final das imagens, já que estas foram captadas em 16:9.”

Le Tour Du Monde… Parte 2?
Uma das maiores vantagens do documentário, do ponto de vista de quem o produz, é que esse é o tipo de audiovisual que pode surpreender o realizador, ganhando nuances não imaginadas na gênese do projeto. Foi o que aconteceu em Le Tour Du Monde. Segundo Lucas, diversas pessoas acabaram contribuindo de forma muito rica para o resultado final, inclusive, influenciando sua percepção das cidades visitadas.

“No primeiro episódio, contamos com Paul Hammer, que é vocalista da banda Savoir Adore e que já conhecíamos previamente”, diz o compositor. “Paul adicionou um sintetizador chamado ‘Jupiter 8’ que deu à música ‘Summer’ um ar de Dream Pop. Já em Amsterdam tivemos três personagens que agregaram muito ao viés artístico do projeto: Soren Venema, dono da loja Palm Guitars, de quem compramos um tenor guitar de 1920 e com quem conversamos muito sobre música. Lior Horst (um menino de 17 anos que encontramos tocando saxofone em uma casa-barco). E, por fim, a banda The Pheromones, que não só tocou e cantou na faixa ‘Autour du Monde’, como nos mostrou diversos cantos interessantes da cidade.”

Após uma longa aventura de descobertas (as filmagens começaram em Nova York, em agosto de 2015, e foram concluídas em novembro), a viagem chegou ao fim. “Foi uma experiência que superou expectativas em cada destino por que passamos”, conclui o idealizador do projeto. “Fomos surpreendidos constantemente e até os problemas que encontramos nos encaminharam para locais que não esperávamos visitar quando planejamos a jornada. O conceito de Le Tour Du Monde permite infinitas variações – há muitos lugares a ser explorados e que nos inspiram. Ainda é cedo para afirmar, mas não nego que temos planos de continuar esse projeto no futuro.”

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