POR TRÁS DAS CÂMERAS: ‘TUDO O QUE APRENDEMOS JUNTOS’

Dirigido por Sérgio Machado e estrelado por Lázaro Ramos, Tudo o Que Aprendemos Juntos mostra as origens da Orquestra Sinfônica Heliópolis

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Bia Lefreve e Divulgação

Reza um velho ditado: “às vezes é preciso se perder antes de encontrar alguma coisa.” A máxima se aplica ao protagonista de Tudo o Que Aprendemos Juntos, Laerte (Lázaro Ramos) – que, após fracassar em uma audição que lhe asseguraria o ingresso na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, vai dar aulas na Favela de Heliópolis. Sua frustração inicial dá lugar ao entusiasmo à medida que a experiência reacende nele a paixão essencial pela arte. Um sentimento que influencia seus alunos e, também, quem assiste ao belo filme dirigido por Sérgio Machado.

Produzido pela Gullane Filmes (em coprodução com a Fox Internacional Productions), Tudo o Que Aprendemos Juntos também é estrelado por Kaique Jesus, Elzio Vieira, Sandra Corveloni, Thogun Teixeira, Fernanda de Freitas, Hermes Baroli e Criolo. O roteiro se baseou, em parte, na peça Acorda Brasil, de Antonio Ermírio de Moraes. Mas a história que se desenrola na tela é real: ela mostra como se formou a Orquestra Sinfônica Heliópolis, cuja notoriedade é mais do que conhecida. Por isso mesmo, antes das primeiras imagens serem captadas, os realizadores se viram imersos em um extenso processo de pesquisa.

Preparação
Em entrevista à Zoom Magazine, o diretor Sérgio Machado diz que a aproximação com o universo real do filme era fundamental para sua autenticidade. “Quando iniciamos os trabalhos, tentamos conhecer a história do Instituto Baccarelli (bem-sucedido projeto de inclusão social que atende crianças, adolescentes e jovens por meio de programas que oferecem formação musical e artística de excelência)”, lembra Machado. “Além disso, Marta Nehring, roteirista e pesquisadora, chegou a morar durante algum tempo em Heliópolis. Entrevistamos dezenas de músicos e professores e falamos com os membros da primeira formação da orquestra.”

Além de assistir aulas no instituto, conviver com os alunos e vivenciar as dificuldades do aprendizado, o cineasta trocou ideias sobre o roteiro com Silvio Bacarelli (fundador da orquestra) e com os administradores da associação, Edilson e Edmilson Venturelli. “Também li muito sobre ensino de música para jovens e sobre a violência urbana em São Paulo e conversei com professores universitários que fazem pesquisas sobre o assunto”, prossegue Machado. “Gosto de me preparar de forma intensiva para os meus filmes. O roteiro final acabou sendo uma mistura da história do nascimento do Instituto Bacarelli, da peça Acorda Brasil e de questões pessoais minhas.”

Entre a realidade e a ficção
Quando se lida com uma trama baseada em fatos, uma questão essencial é: até onde se pode “dramatizar” a história, considerando que o enredo que vemos na tela não inteiramente é fictício?

“Em Tudo o Que Aprendemos Juntos, nos mantivemos, quase sempre, no limiar entre realidade e ficção”, comenta o diretor. “Incentivei os atores a trazerem experiências pessoais para o set, o que agregou frescor e verticalidade às filmagens. Eles ensaiaram muito comigo e com a preparadora de elenco, Fátima Toledo, mas tínhamos surpresas todos os dias.”

Realidade e ficção também se misturaram na filmagem de uma cena que mostrava um confronto entre a população e a polícia (por sua vez, inspirada em uma ocorrência real). “Aconselharam-nos a não rodar a sequência em Heliópolis, pois o trauma ainda não fora superado pelos moradores”, lembra Machado. “Então, fizemos a cena em outra comunidade, levando para lá alguns dos figurantes de Heliópolis. Mas, quando iniciamos a filmagem, todos pareceram esquecer que se tratava de um filme. As pessoas queriam se vingar ‘de verdade’ dos atores que representavam os policiais. Isto trouxe um realismo impressionante à sequência, mas precisamos interromper o trabalho várias vezes, para acalmar os ânimos.”

Base musical
Parte dos garotos da orquestra foi recrutada entre os músicos da Sinfônica Heliópolis, enquanto outros alunos eram jovens moradores da periferia. “Muitos não sabiam tocar nenhum instrumento, mas fizeram aulas e, já que as filmagens foram adiadas durante alguns meses, puderam adquirir uma base musical sólida”, diz o realizador.

Ele também revela que, apesar de ser um dos atores mais queridos da TV (e de ter muita experiência com cinema), Lázaro Ramos não foi o primeiro ator cotado para viver Laerte. “Ele seria um amigo do protagonista”, conta Machado. “Mas, assim que leu o roteiro, Lázaro me disse: ‘preciso fazer esse filme – esta é a minha história’. Fico feliz de tê-lo escutado. Lázaro começou no mesmo lugar que aqueles meninos. E, talvez por isso, a sintonia entre eles foi absoluta desde o primeiro momento.”

As principais locações de Tudo o Que Aprendemos Juntos foram a Sala São Paulo e o bairro de Heliópolis (embora algumas cenas tenham sido feitas na Brasilândia, na zona norte de São Paulo / SP). Por questões contratuais, boa parte das cenas teve que ser rodada em Paulínia. “Acabamos encontrando uma fábrica de ração desativada que serviu como locação para várias cenas: o escritório do traficante, o galpão do baile de Rap e muitas cenas importantes foram feitas ali”, diz Machado. “Também em Paulínia, construímos o apartamento de Laerte, em estúdio.” As imagens foram registradas em Super 35mm, com câmeras Aaton Penelope, Aaton III e Arriflex 435 e lentes Cooke S4.

Perseverança
“Concluo a experiência de Tudo o Que Aprendemos Juntos com a sensação de que extraímos o melhor que a história poderia dar”, resume o diretor. “Devo isso à perseverança e ao apoio irrestrito dos produtores Fabiano e Caio Gullane, que nunca abriram mão de nada que fosse importante para o filme. E também, a Marcelo Durst, nosso fotógrafo, que mergulhou apaixonadamente no projeto. Valdy Lopes, o diretor de arte, também foi um parceiro e tanto na construção de uma arte feita com rigor, na qual cada detalhe é pensado para não ser notado. Nossa ideia era a de que os personagens deveriam sempre estar em primeiro plano – e que o cenário, o figurino e a maquiagem deveriam lhes acrescentar camadas e lhes conferir densidade.”

Machado também ajudou o diretor de fotografia a definir o visual da obra, compilando uma espécie de “mapa de referências visuais” pinçadas de fotos e pinturas. A partir daí, Marcelo Durst fez sua “mágica”, cujo resultado final impressionou o diretor. “Ele estudou a fundo essas referências e defendeu visceralmente o objetivo de chegarmos ao resultado almejado”, conclui o realizador. “É alguém com quem certamente quero trabalhar novamente.”

Marcelo Durst explica que a intenção, dentro de um universo realista, era iluminar e enquadrar as cenas de modo que a fotografia servisse totalmente à história. “A luz, o contraste, as cores, os enquadramentos e os movimentos de câmera deveriam estar em sincronia com o que o personagem central sentisse e observasse em sua história”, diz Durst. “O mundo de Laerte é mais quente, pela própria natureza da Sala São Paulo, enquanto a favela foi apresentada, a princípio, de forma fria e sem cores. À medida que o filme avança e Laerte passa a se relacionar com os meninos, as cores voltam a surgir e os planos começam a descrever melhor aquele novo ambiente, assim como os personagens que irão transformá-lo. Ou seja: se o filme mostra a transformação de Laerte, ao conhecer e enfrentar o duro mundo dos garotos da favela, a fotografia se empenhou em apresentar esse universo em sintonia com a evolução da percepção de Laerte.”

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