‘SANEAMENTO BÁSICO’ – O MONSTRO DA FOSSA!

Divertido, tocante, bem-realizado… Motivos não faltam para ver ou rever Saneamento Básico, uma obra-prima do cineasta gaúcho Jorge Furtado

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Divulgação

Ao longo de suas muitas fases, o cinema nacional “trocou de cara” diversas vezes: foi ingênuo nos anos 1950, combativo nos anos 1960, sensual nos anos 1970 e decididamente eclético em tempos mais recentes, quando o acesso facilitado à tecnologia deu voz a uma legião de cineastas independentes. O saldo de todas essas eras é uma filmoteca rica e diversificada, que revela a complexidade de nosso país e nossa vocação para contar histórias interessantes no telão.

O valor indiscutível de nossa cinematografia inspirou a série de artigos que estreia este mês em Zoom Magazine. Seu propósito é simples: relembrar títulos que marcaram época e que não podem cair no esquecimento, principalmente para os que amam a Sétima Arte e querem se dedicar a ela profissionalmente. Do riso ao medo, da ficção ao documental, os filmes que homenagearemos aqui são autênticas “aulas de cinema” em seus respectivos gêneros e formatos.

Tom de sátira
O título do mês é uma das muitas contribuições inestimáveis do cineasta gaúcho Jorge Furtado ao nosso audiovisual. Furtado provou sua desenvoltura em mais de um gênero, mas se revelou um mestre do humor e da crítica social no delicioso Saneamento Básico – O Filme, longa de 2007 produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre.

Com um “jeitão” de farsa, a trama mostra os esforços infrutíferos de uma pequena comunidade de colonos italianos na Serra Gaúcha para construir uma fossa na região. De cara, somos cativados pelas personalidades exuberantes dos protagonistas, que incluem o casal Marina Marghera e Joaquim de Figueiredo (Fernanda Torres e Wagner Moura), o “playboy” de cidade pequena Fabrício (Bruno Garcia) e a pretendente a “celebridade” Silene Marghera (Camila Pitanga, talvez em seu papel mais memorável no telão). São tipos muito característicos e críveis, apesar do tom de sátira que se impõe logo nas primeiras cenas

Caras e bocas
A grande ironia é que a Prefeitura local alega não ter dinheiro para construir a tão sonhada fossa, embora disponha de uma verba de (pasme!) R$ 10 mil para projetos cinematográficos. É uma distorção do Brasil bem-intencionado, mas irrealista, do tempo em que se passa a história: visando incentivar a Cultura, a política vigente privilegia mais a feitura de um filme que uma obra de primeira necessidade (o tratamento de esgoto reivindicado pelos pobres colonos). Resultado: um grupinho da cidade (capitaneado por Marina, Joaquim, Fabrício e Silene) decide inventar um “filme de araque” só para se apoderar da grana e construir a fossa. Eureka!

O problema é que, para justificar a retirada do dinheiro, eles precisarão apresentar alguma coisa concreta às autoridades. A solução é rodar um filme às pressas, sem qualquer recurso, investindo o mínimo possível no projeto e desviando a maior parte do dinheiro para as obras. A confusão aumenta quando, ao lerem as regras do edital, nossos pândegos heróis levam ao pé da letra a informação de que o filme realizado deverá ser de “ficção”. Tem início, assim, a produção do mais absurdo, tosco e ridículo curta-metragem de “ficção científica” já feito, estrelado pelos próprios protagonistas. As cenas que mostram a turma filmando o ataque de um monstro fajuto à bela Silene, cujas caras e bocas são impagáveis, são simplesmente de rolar de rir.

Amor ao cinema
O domínio de cena de Furtado é evidente em cada sequência, assim como a sintonia dos atores com a história. Também é notável a precisão com que o diretor equilibra a comédia escrachada e o drama, alternando momentos de hilaridade histérica e outros de grande sensibilidade. É tocante, por exemplo, a cena em que o personagem de Wagner Moura decide vender sua velha motocicleta (uma “sucata” que, para ele, tem grande valor) para equilibrar as contas do filme e levantar o moral da esposa, Marina (que chega aos limites do estresse com as dores de cabeça impostas pela produção).

É possível, ainda, traçar um paralelo entre Saneamento Básico e outros filmes que fizeram declarações de amor memoráveis à Sétima Arte a partir de contextos parecidos (como Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos, realizado em 1977). Afinal: ao se fazerem passar por cineastas, os protagonistas acabam se apaixonando pelos processos do cinema, a ponto de esquecerem o problema da fossa em favor do filme ao qual se afeiçoaram. A mensagem é clara: o cinema é transcendente. Quando nos deixamos levar por seu fascínio, nos elevamos acima da dura realidade.

Méritos, ainda, para a fotografia apaixonante, a trilha sonora original (cheia de “petardos” da música pop italiana) e para o grande Lázaro Ramos, que quase rouba o filme no papel de um videomaker amador contratado para dar algum sentido às cenas desconexas captadas pela turma nas trilhas de um programa de edição. Saneamento Básico foi lançado em DVD pelo selo Sony Pictures.

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