SANGUE LATINO – ‘DESDE ALLÁ’

Filme vencedor do Festival de Veneza, conta com participações dos brasileiros Waldir Xavier e Rodigo Sacic

Texto: Mônica Wojciechowski
Imagens: Divulgação

Desde Allá, de Lorenzo Vigas, ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Foi a primeira vez que um filme venezuelano competiu no festival e, também, a primeira vez que um filme latino-americano conseguiu o Leão de Ouro da Mostra. Os professores da Academia Internacional de Cinema (AIC), Waldir Xavier e Rodrigo Sacic, são responsáveis pelo som da produção. Waldir fez o desenho de som e a edição e Rodrigo cuidou da edição de efeitos.

Em notícia publicada no jornal “El País”, o jornalista Alex Vicente escreve: “a vitória de Lorenzo Vigas teve algo de histórico. O prêmio confirma o excelente estado de saúde do cinema latino-americano, cada vez mais presente nas grandes competições internacionais, que não hesitam em decretar a existência de uma nova onda há mais de uma década.”

Waldir Xavier, também responsável pelo som de tantos outros importantes filmes nacionais, como Central do Brasil, Abril Despedaçado, Cazuza e Casa Grande, disse que está muito orgulhoso de fazer parte de uma obra como esta. “Existe uma atenção e um interesse muito grandes sob o cinema latino-americano, o cinema argentino, mexicano etc., no cinema que tem frescor, inovação e autores com vigor.

Alberto Barbera, diretor do festival, disse, durante a premiação, que a América Latina é o lugar de onde estão saindo as produções mais surpreendentes. ‘Desde Allá não é um filme único, não é só ele que está aparecendo, estamos caminhando para essa maturidade artística”, conta.

O filme
A história do filme se passa em Caracas, capital da Venezuela, e narra a relação de dependência dos personagens Armando (Alfredo Castro), dono de um laboratório de próteses dentárias, e Elder (Luis Silva), jovem de 18 anos que é chefe de uma gangue. Mas o filme vai além dessa relação e retrata as diferenças sociais do país.

Embora a trama se passe na Venezuela, a equipe é composta por profissionais de diversos cantos latinos. Os produtores são mexicanos, a montadora – Isabela Monteiro de Castro – é brasileira e o protagonista (Alfredo Castro) é chileno. Além, é claro, dos brasileiros professores da AIC, Waldir Xavier e Rodrigo Sacic.

Waldir conta que o diretor Lorenzo Vigas foi em busca de profissionais que haviam trabalhado em filmes dos quais ele gostava. “A produção teve, como característica, o trabalhar não estando presente, já que cada um estava em um canto da América Latina – mas também houve encontros quando precisávamos trabalhar junto. Fiz a base da edição de som no Brasil, mas a dublagem foi realizada em Caracas, os ruídos (foley) foram feitos na Argentina e a mixagem no México.”

O som
Waldir conta que a opção foi a de não haver música no filme. Com isso, a força dramática do som se torna ainda mais importante. “A obra foi toda trabalhada na intenção de reforçar os dois mundos abordados pelo longa – de um lado o mundo burguês e silencioso de Caracas e do outro, os sons estridentes dos bairros caóticos de periferia, com muita gente, muita fala, muito som. Nosso trabalho foi acentuar esse contraste.”

Já Rodrigo diz que sua função foi organizar todos os sons gravados para o filme. “Chegamos a ter dois técnicos gravando som ambiente de acordo com as necessidades apontadas por Waldir. Em um segundo momento, realizei a edição de efeitos, um trabalho do qual gosto muito. Editei, no filme, sons que iam desde drones, completamente abstratos, até batidas de porta, pass-bys de carro (muitos!) usando tanto material de sonotecas comerciais quanto sons gravados por mim mesmo. O processo todo durou aproximadamente quatro semanas. Eu encontrava pessoalmente com o Waldir ao menos uma vez por semana para apresentar o material e ter um retorno dele”, conta.

Veja Também