“TÉCNICA DE ILUMINAÇÃO SÓ SE APRENDE NO SET, APANHANDO”

Bate Papo
Cinema nacional: Conheça Nonato Estrela.

Nonato Estrela, um veterano da direção de fotografia no Brasil, também é um eterno apaixonado pelo que faz

Por: Eduardo Torelli
Fotos: Ique Esteves e Divulgação

Entender o cinema brasileiro em sua íntegra é para poucos. Afinal, nossa cinematografia é composta de “períodos” que praticamente não conversam entre si. A única forma de captar completamente a sua essência é ter passado por todos esses períodos – ou então, ter trabalhado com cineastas que os representassem. Assim é Nonato Estrela – um diretor de fotografia talentoso que deixou sua marca em filmes da retomada e no cinema brasileiro dos anos 1980; e que, antes disso, dividiu o set com monstros sagrados da realização, como o mítico Nelson Pereira dos Santos.

Nesta entrevista à Zoom Magazine, Nonato fala sobre sua carreira vitoriosa e sobre a realidade, no Brasil, de uma das mais importantes profissões do segmento audiovisual.

VOCÊ COMEÇOU A ATUAR COMO DIRETOR DE FOTOGRAFIA EM 1985. MAS, ANTES DISSO, JÁ HAVIA TRABALHADO COM ÍCONES COMO NELSON PEREIRA DOS SANTOS. ISTO LHE DÁ UMA VISÃO “PANORÂMICA” DOS VÁRIOS CICLOS QUE FORMAM O NOSSO?

Não posso reclamar nem de uma fase, nem de outra. Tenho trabalhado bem. Acho que sou um fotógrafo que sabe se estabelecer dentro do projeto em que está envolvido. Sei perceber onde estou, se é um projeto comercial ou autoral. Deve-se ter um filtro ajustado para perceber onde você está. Vou navegando. A Retomada, sem dúvida, é um período fértil do cinema brasileiro. Fiz filmes de grandes bilheterias, como “Se Eu Fosse Você 2” e “Divã”, e me orgulho muito de tê-los feito. Depois, não tenho essa idade toda para medir e dimensionar isso com clareza – falo das fases, claro! Os fotógrafos sentem os ciclos, mas eles estão trabalhando sempre – sem eles, as câmeras não rodam… Faço televisão e publicidade – e adoro fazer!  Vou misturando experiências. Isso faz com que nos tornemos profissionais melhores… Quanto às políticas, sei que são importantes, estou de olho, é claro. Afinal, estou no meio do furacão. A própria política de realização exige que eu fique pronto para rodar. Ser fotógrafo é um sacerdócio. Deve-se ter dedicação, estudar sempre, estar sempre pronto, demandar o seu tempo a isto…

COM QUE DIRETORES DA “NOVA SAFRA” VOCÊ GOSTARIA DE TRABALHAR?

Grandes diretores apareceram. Gostaria de trabalhar com vários, mesmo com os que não são novos, eu gostaria de trabalhar.  Aqueles com quem já trabalhei, gostaria de manter – pois cinema é uma arte coletiva e, se você já estabeleceu parcerias, deve aprofundar sonhos e conquistas. Não gostaria de citar nomes, vai que eu esqueço alguém… Fica muito chato. Cinema é ideia – e as ideias não envelhecem jamais.

POR CONTA DA RETOMADA, HÁ MAIS PROCURA POR CURSOS E ESCOLAS DE CINEMA, HOJE, DO QUE HÁ 20 ANOS. NA QUALIDADE DE ALGUÉM COM BASTANTE CONHECIMENTO PRÁTICO: O BRASIL JÁ DISPÕE DE CURSOS CAPACITADOS A FORMAR BONS DIRETORES DE FOTOGRAFIA?

Acho as escolas superimportante para darem uma base e, principalmente, cultura cinematográfica ao aluno. O cara já chega ao set com paixão. Agora, prática é tudo. É errando que se vai corrigindo e consertando (e tirando conclusões a partir disso). A velocidade é importante hoje em dia – só a experiência deixará você veloz. Acho muito importante as escolas, mas não só as escolas. O buraco é mais embaixo.

QUE ATRIBUTOS UM DIRETOR DE FOTOGRAFIA DEVE TER PARA PROSPERAR NA PROFISSÃO?

Qualidade própria é importante, além de análise, técnica de iluminação, muita noção de câmera, lentes, movimentos… A escola ensina a diferença entre o Expressionismo no cinema alemão e a comédia rasgada americana, por exemplo. Agora, técnica de iluminação só se aprende no set, apanhando… Vá com calma que você chega lá.

O DIRETOR DE FOTOGRAFIA, EM MUITOS ASPECTOS, É TÃO RESPONSÁVEL QUANTO O DIRETOR PELO RESULTADO ESTÉTICO DE UMA PRODUÇÃO. E, POR ISSO, PODEM SURGIR “CHOQUES” DE IDEIAS ENTRE OS DOIS PROFISSIONAIS. VOCÊ JÁ ENFRENTOU ESSE TIPO DE SITUAÇÃO?

Tive pouco esse problema. No início, quando era muito inexperiente, ficava zangado com isso. Hoje, tiro de letra. No fundo você tem que entender que, no Brasil, o diretor é o idealizador do projeto. Geralmente também é o produtor. O cara foi à luta para arranjar dinheiro, sofreu para botar a mão na grana. Ao contrário, nós, fotógrafos, estamos sempre no set. Filmamos quase todo dia. O diretor de cinema, às vezes, fica sem filmar por muito tempo. O que precisamos ter é um pouco de “paciência com a falta de experiência” – muita calma! Você está ali para ajudar e contribuir.

VOCÊ TRABALHOU EM ALGUNS FILMES DOS TRAPALHÕES NA FASE EM QUE ERAM PRODUZIDOS POR J. B. TANKO. TEM SAUDADE DAQUELE PERÍODO?

Fiz apenas um filme dirigido por J.B. Tanko – depois trabalhei nos filmes produzido por Cacá Diniz, que seguiram a mesma linha de produção do Tanko e foram realizados por José Alvarenga. Considero o Alvarenga um eterno diretor “novo”, com idéias novas sempre. Um cara que ama o que faz e que desenvolve um trabalho maravilhoso na TV Globo. Fizemos “Divã” recentemente. Desde aquela época mantivemos essa parceria – é disso que falo quando me refiro a parceria… Ter participado desses longas foi muito bom, principalmente, naquele momento de formação em que eu me encontrava… Câmera e negativo estavam ali, para experimentar. Eu e José Alvarenga botamos a mão na massa e nos divertimos.

QUAL FOI O PROJETO QUE MAIS O SATISFEZ EM TERMOS ESTÉTICOS E CRIATIVOS? E O QUE MENOS O AGRADOU (SE, CLARO, VOCÊ QUISER DIVIDIR ESTA INFORMAÇÃO CONOSCO)?

Gosto de todos os meus projetos, uns mais, outros menos. Alguns eu faria diferente – mas é assim mesmo: a estética cinematográfica vai mudando e você tem que acompanhar. Não posso esquecer de dizer que aprendi muito quando fui assistente de fotógrafos sensacionais, como Edgar Moura, Dib Luft e o grande e inesquecível Hélio Silva. Hélio fazia dupla com Nelson Pereira dos Santos, onde tudo começou em minha vida. A fotografia do cinema brasileiro sempre foi muito bem feita por esses caras e por outros fotógrafos com grande apuro. Fico honrado por estar, agora, contribuindo modestamente com minha fotografia… E se preparem, que vem ai o 3D. Já estou envolvido em uma produção brasileira do gênero…

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