UM TOQUE DE MÁGICA

A especialidade de Roger Matua é elaborar efeitos especiais para curtas-metragens, comerciais e eventos. É o trabalho dos sonhos para quem cresceu assistindo a filmes de terror e ficção

Por Eduardo Torelli

Fotos: Ricardo Kruppa

Quantas vezes a maquiagem artística foi determinante para o êxito de uma produção? Sem essa técnica clássica, originada no teatro e aperfeiçoada no cinema, não teriam sido produzidos filmes como: O Fantasma da Ópera (1925), Frankenstein (1931), O Planeta dos Macacos (1968) e Star Wars – Uma Nova Esperança (1977). Sem esquecer outros títulos legendários que, mesmo sem um uso tão incisivo do “make-up”, dele se beneficiaram a ponto de serem agraciados com o Oscar da categoria (um bom exemplo é O Curioso Caso de Benjamin Button, de 2009).   img_4113

A maquiagem artística também é muito utilizada na TV, seja em séries ou comerciais. Um dos profissionais que suprem essa demanda no Brasil é Roger Matua, prestador de serviços na área e que ainda dá cursos sobre técnicas de FX (efeitos especiais). Formado em desenho industrial em 1999, Roger sempre teve o sonho de trabalhar com cinema. A formação acadêmica aperfeiçoou suas habilidades no desenho e na escultura, mas foi preciso se dedicar a cursos mais específicos para dominar técnicas que são próprias da área, como a confecção de máscaras ou próteses de espuma de látex (foam latex).

À frente do estúdio Roger Matua Projetos Artísticos Ltda., o profissional passou os últimos 15 anos desenvolvendo as mais variadas trucagens para uma seleta lista de clientes, que incluem: O2, Chevrolet, Fininvest, Unilever, HSBC, Newcom e Onion Studios. Nesta entrevista à Zoom Magazine, Roger fala sobre sua paixão pelos efeitos especiais e relembra alguns cases de sua carreira.

DE ONDE SURGIU O SEU INTERESSE POR EFEITOS ESPECIAIS? VOCÊ FOI INFLUENCIADO POR FILMES E SÉRIES QUE ASSISTIU NA INFÂNCIA OU SEGUIU OS PASSOS DE ALGUÉM QUE JÁ TRABALHAVA NA ÁREA?

Meu interesse por efeitos especiais começou cedo. Em criança, meu pai e minha mãe me levaram assistir a O Retorno de Jedi no cinema – fiquei maravilhado! Perguntei-me de onde saíam aqueles monstros e naves, os tiros de laser… Na época, eu já desenhava bastante e era incentivado por meu pai, que era médico, mas adorava hobbies como o Plastimodelismo. Então, montávamos e pintávamos peças juntos, nos finais de semana. Mas o que realmente fez-me querer saber como essas coisas eram feitas foi o filme Sexta feira 13 – Parte 4, de 1984, no qual o ator mirim Corey Feldman interpretava um garoto que fazia máscaras de borracha. Eu tinha dez anos e aquilo me fascinou. Se ele podia fazer, eu também podia! Anos depois, pesquisando em revistas, descobri que os efeitos e máscaras eram criações de Tom Savini. Fiquei fã do cara!

E COMO INGRESSOU NESSA PROFISSÃO? QUAIS FORAM OS SEUS PRIMEIROS TRABALHOS NA ÁREA?

Depois que me formei, em 1999 (em Desenho Industrial, pela FAAP), fui em busca da realização do meu sonho de trabalhar com arte e cinema. Ainda estava em minha cabeça a ideia de fazer máscaras e, procurando algum curso específico, vi um anúncio na Internet de um curso de máscaras de espuma de látex ministrado pelo argentino Christian Scherf. Liguei para ele e, na outra semana, eu e cinco amigos formamos a primeira turma do curso de Scherf no Brasil. Depois fui trabalhar com ele na Fixxon. Minha primeira grande tarefa foi elaborar várias esculturas em grande escala para o Playcenter. No cinema, estreei no curta Behemoth, de Carlos Gananian. Depois de passar 12 horas “mergulhado” em sangue artificial, tive a certeza de que era aquilo o que eu queria fazer. Abri minha empresa de efeitos visuais em 2000 e não parei mais de trabalhar.

QUE TÉCNICAS VOCÊ DOMINA? E QUAIS DELAS TÊM MAIS PROCURA?

As técnicas que domino são escultura e moldagem, nas quais se faz uma peça de argila e tira-se um molde negativo, sendo possível criar cópias da peça em questão. Isto abre um leque muito grande, já que sou capaz de fazer desde maquetes, miniaturas e mock-ups até próteses e máscaras flexíveis de borracha ou de silicone. E não para por aí: se eu criar um crânio motorizado, posso vestir essa máscara e dar movimento à pele tirada com animatronics que se mexem por controle-remoto ou pré-programação. Especializei-me em todas as etapas do processo, o que é raro no exterior, onde vários especialistas trabalham conjuntamente em uma mesma peça. Aqui, fazemos tudo sozinhos, do projeto à peça final.

 DE TODAS ESSAS TÉCNICAS, QUAL É A SUA PREFERIDA? POR QUÊ?

A animatrônica é a que mais me fascina. Ver um boneco se mexer sozinho é muito legal, assim como a reação que isso provoca nas pessoas. Hoje, já não faço as traquitanas “na mão”, como antigamente. Conto com uma impressora 3D que imprime, em plástico, as peças que modelo em programas 3D. Aí, é só montar. Parece um Lego de gente grande. Também curto fazer maquiagem de efeitos, com próteses, transformando rostos e corpos em coisas que não existem. É muito divertido.

QUAL FOI O MAIS DESAFIADOR TRABALHO DE EFEITOS ESPECIAIS QUE VOCÊ FEZ? 

Foi um “job” para uma produção que ainda está sendo montada: um corte de garganta, que fiz em parceria com o maquiador André Anastácio e que precisava jorrar sangue no tempo certinho. Parece um efeito fácil, mas envolve muitos problemas. A cada take, a roupa do ator fica suja de sangue e temos que limpar a prótese e trocar o ator. Conseguimos no segundo take e ficou show! Foi emocionante: quando a diretora gritou “corta”, a equipe toda se levantou e comemorou, pois o efeito ficou bem realista.

HOUVE ALGUMA “SAIA JUSTA” EM SUA CARREIRA, NO SENTIDO DE TER SIDO CONTRATADO PARA DESENVOLVER ALGUM EFEITO E, POR QUALQUER RAZÃO, NÃO TER CONSEGUIDO ENTREGAR O TRABALHO?

Sim. E foi bem frustrante. Uma equipe de faculdade me procurou querendo fazer os três estágios do processo de “engorda” de uma atriz. A moldagem e as próteses ficaram muito boas, mas tínhamos planejado um make-up por dia, para não estressar a atriz. No fim das contas, tivemos que fazer os dois make-ups de gorda mais difíceis no mesmo dia! Foi bem exaustivo, tanto para a minha equipe como para a atriz. Nós a maquiávamos em cadeiras escolares, com luz imprópria, e a aplicação das próteses ficou bem tosca. Não agradou à diretora. Foi tenso! Às vezes a mágica não acontece.

 OS PRAZOS SÃO CORRIDOS NESSA ÁREA? OU, NORMALMENTE, VOCÊ TEM TEMPO PARA DESENVOLVER OS EFEITOS COM CALMA?

Em geral, os prazos para cinema são mais tranquilos, o que permite um melhor planejamento. Isto não acontece na Publicidade.  É sempre “para ontem”. Temos que virar noites produzindo as peças.

 A ÁREA REMUNERA BEM? NOSSO MERCADO ENTENDE E VALORIZA ESSE TIPO DE TRABALHO?

Comparando os orçamentos do Brasil com os do exterior, aqui rola menos grana do que lá fora. Nos EUA, existem equipes gigantescas para produzir um efeito, o que gera mais custos na produção. Como já disse, aqui, uma pessoa faz o papel de dez ou mais profissionais em uma produção, o que complica a questão dos prazos. Antigamente, na empolgação, eu abraçava muitos projetos, mesmo quando não havia grana envolvida. Hoje, tenho que recusar trabalhos de baixo custo, pois estes nunca ficam satisfatórios sem a verba necessária. Mas não dá para reclamar. Sustento-me, há mais de 15 anos, com os efeitos especiais. Tenho uma vida boa. Não estou rico, mas me mantenho e me divirto com o meu trabalho, que faço com muito amor.

 A QUE SEGMENTOS VOCÊ ATENDE?

Atendo desde pessoas físicas, por meio de bonecos e miniaturas, até grandes empresas de eventos. Cinema e publicidade são os meus carros-chefes, mas sempre dá para fazer alguns biquinhos, aqui e ali, para atender a todo mundo. Agora, com a impressora 3D, dá para fazer bonecos e protótipos com muita rapidez, o que me abriu um novo nicho de mercado.

 VOCÊ TAMBÉM DÁ CURSOS SOBRE TÉCNICAS DE FX. QUAL É A PROCURA POR ESSE TIPO DE ESPECIALIZAÇÃO?

Ministro cursos de efeitos em minha oficina, desde máscaras e make-up até esculturas de personagens. A procura costumava ser grande, antigamente, pois havia poucos profissionais na área que ensinavam essas técnicas. Hoje, o mercado está mais competitivo e a procura diminuiu um pouco. Mas os cursos ainda atraem estudantes de desenho industrial, artistas e maquiadores. Nunca fui de “esconder o ouro” dos meus alunos. Nas aulas, tento passar todas as dificuldades que enfrentei e como as resolvi. São atalhos que eu aprendi com a experiência e que divido com meus alunos.

 HOJE, PARECE HAVER UMA PREDILEÇÃO POR EFEITOS DIGITAIS, AINDA QUE ESTES SEJAM MENOS IMPACTANTES QUE OS EFEITOS FÍSICOS. VOCÊ ACHA QUE SUA PROFISSÃO TENDE A SE TORNAR UMA “ULTRA-ESPECIALIDADE”?

Isso é verdade, mas eu não desanimo! Podemos somar os efeitos físicos aos digitais para acrescentar riqueza às cenas. A escultura digital, por exemplo, é um grande facilitador da atualidade, pois consigo aprovar e alterar mais rapidamente uma escultura, antes de finalizá-la na argila. Em minha opinião, como essa nova geração de adolescentes cresceu assistindo a filmes com efeitos digitais, os efeitos físicos ainda surpreendem e fascinam. Acho que é uma arte que não morrerá tão cedo.

 QUAIS SÃO AS SUAS GRANDES REFERÊNCIA EM EFEITOS ESPECIAIS?

Primeiramente tenho que citar Lon Chaney, que criou efeitos incríveis para clássicos do cinema mudo, como O Corcunda de Notre-Dame e O Fantasma da Ópera. Além dele, Tom Savini, que fez efeitos práticos com verbas curtíssimas nos filmes da série Sexta-Feira 13, e Dick Smith e Stan Winston. Sem esquecer George Lucas, claro, pela saga Star Wars. Já no Brasil, cito Rodrigo Aragão, que faz monstros e efeitos muito legais para seus filmes, também com pouca verba. Ele se vira muito bem e inventa os materiais que utiliza. Dentre os títulos que Rodrigo lançou no mundo inteiro, destaco A Noite do Chupa-Cabras, Mangue Negro e Mar Negro (onde há uma cena com uma “baleia-zumbi” que ficou fantástica). Tive o prazer de trabalhar com ele no filme Pray, de Claudio Ellovitch, e ficamos muito amigos. O set de filmagem foi divertidíssimo e acompanhei o processo criativo de Rodrigo durante as filmagens. Ele é uma fera! Outro nome que merece destaque é o escultor Alex Oliver, um brasileiro que está se projetando no mercado internacional. Seus trabalhos atingem uma excelência rara.

 

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