WEBSÉRIE CIDADE DO SOL

À frente de uma equipe formada por mais de 70 pessoas, Guto Aeraphe produziu a websérie Cidade do Sol. Para o cineasta, a Internet é uma mídia cheia de possibilidades, mas “volátil”

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Divulgação

O cineasta Guto Aeraphe é um velho conhecido dos leitores de Zoom Magazine. Um dos jovens realizadores nacionais que mais apostam na Internet como meio de veiculação para projetos originais, ele é autor de webséries que são autênticas superproduções (vide Heróis e ApocalipZe, lançadas, respectivamente, em 2011 e 2012). Sem se intimidar com a maciça concorrência dos canais a cabo, TVs abertas e serviços de streaming que oferecem bons conteúdos de ação, ele segue produzindo seus épicos, sempre recheados de adrenalina e acompanhados por um público fiel, que espera ansiosamente por cada novo projeto com sua assinatura.

Cidade do Sol é a mais nova empreitada do diretor e, além de contar com uma direção de arte caprichada e com cenas de ação complexas, reuniu um elenco composto por atores de quatro nacionalidades. A trama centra-se nos esforços de alguns destemidos soldados da Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti) para impedir um golpe de estado no país e, ao mesmo tempo, resgatar uma jornalista norte-americana que investiga as arbitrariedades cometidas por milícias rebeldes contra a população local. A inspiração para o argumento surgiu em 2011, quando Aeraphe gravava Heróis (série que contou com a participação do 11º Batalhão de Infantaria de São João Del Rey). Nos intervalos das filmagens, os soldados lhe contavam histórias sobre a Minustah, o que aguçou a curiosidade do cineasta.

Hérois Nacionais
“Identifiquei bons personagens e conflitos nessa história”, diz Aeraphe, em entrevista à Zoom Magazine.  “Então, resolvi pesquisar mais sobre o país e descobri que o Haiti, apesar de ter inúmeras dificuldades, possui uma história fantástica. Por exemplo: foi o primeiro país das Américas a se tornar independente e é a primeira nação negra fora da África, entre outros aspectos curiosos. Juntando tudo isso com as complicações políticas atuais, percebi que tinha tudo para fazer um roteiro que se encaixasse dento de uma temática que adoro: os dramas de guerra.”

Mais uma vez, o diretor mostra soldados brasileiros vivenciando situações heróicas, um aspecto que não costuma ser explorado por nossa cinematografia ou dramaturgia. Aeraphe admite que, mesmo sem querer fazer qualquer apologia do militarismo, resgatar a essência heróica dos brasileiros é um “norte” constante em sua obra. “Vivemos em um país carente de heróis”, resume o diretor. “O que temos, hoje, são jogadores de futebol e celebridades instantâneas que suprem vergonhosamente essa lacuna. Acho importante resgatar certos valores que considero fundamentais para qualquer sociedade sadia e que estão destacados no meio militar.”

Apesar de se apoiar em fatos, o roteiro de Cidade do Sol é inteiramente fictício. A websérie foi gravada em Belo Horizonte e em Contagem, em Minas Gerais, e deve sua eloquência visual aos esforços da equipe para encontrar locações adequadas à trama. “Descobrimos um bairro perfeito para gravar, no qual tínhamos tudo o que precisávamos em um perímetro de poucos quarteirões”, recorda o cineasta. “O visual, assim como o tipo de terreno, lembrava muito o Haiti, o que facilitou o trabalho da equipe de arte.”

Equipe afinada
A captação propriamente dita foi feita com uma Canon C500 equipada com um kit de lentes Prime da Carl Zeiss. E o número de profissionais envolvidos na realização superou, em número, todos os esforços anteriores do diretor, que sempre trabalha com uma quantidade considerável de colaboradores. “Foi a maior equipe, até agora”, lembra Aeraphe. “Ao todo, tivemos 72 pessoas envolvidas diretamente na produção, sem contar os atores e figurantes. A cada dia, ultrapassávamos facilmente a marca de 100 pessoas no set. É importante destacar que cada um se transformou em dez, fazendo sua parte para que o filme ficasse ainda ‘maior’. Estavam previstos cinco episódios de dez minutos e acabamos fazendo sete episódios de 12 minutos. E olhe que muitas cenas ‘caíram’ durante a edição.”

Não bastassem as complexidades de produção, houve outra dificuldade inerente ao projeto: lidar com atores que se expressavam em quatro idiomas. Cidade do Sol é falado em Português, Inglês, Francês e Creole (a língua oficial do Haiti) – embora, a princípio, o diretor tenha pensado em “simplificar” as coisas, “aportuguesando” todos os diálogos. “Acabei descartando essa alternativa e fui atrás de atores estrangeiros que morassem no Brasil”, prossegue Aeraphe. “Sem dúvida, isto proporcionou um resultado superior à produção. O maior desafio foram os haitianos. Por um lado, tive sorte – Belo Horizonte possui uma comunidade haitiana forte e unida que topou fazer o projeto. O problema era que nenhum deles era ator, muitos não falavam ou entendiam bem o Português e dirigi-los foi um desafio, só superado com o auxílio do meu preparador de elenco, José Roberto – que, além de conseguir extrair deles tudo o que era preciso, estabeleceu uma relação de confiança com essas pessoas.”

Força na trilha sonora
A partitura de Cidade do Sol ficou a cargo do músico Marco Diniz, que, aqui, fez sua estreia como autor de trilhas para audiovisuais. A proposta era criar um efetivo clima de suspense para as incursões dos heróis em território inimigo, deixando o espectador em permanente estado de tensão. O diretor participou efetivamente da confecção da trilha, inclusive, ajudando a compor efeitos e ambiências sonoras para algumas cenas.

Cidade do Sol é a terceira websérie de Aeraphe, mas o realizador afirma que, neste tipo de projeto, tudo é sempre uma aposta. “A Internet é uma mídia volátil e, por mais que você tenha muitas métricas e aferições em mãos, é difícil ter garantias de sucesso”, diz o realizador. “Neste modelo de produção, temos que pensar no público de maneira diferente – até porque a forma como este tipo de audiovisual é consumido é diferente. O tempo de cada episódio, as reviravoltas na trama e os eventos-chaves de cada cena precisam ser pensados em sintonia com a realidade desta mídia, que é muito diferente do cinema e da TV.

E vêm mais webséries por aí, embora, no momento, o foco dos realizadores seja divulgar Cidade do Sol. “Tenho trabalhado em dois roteiros, ambos nos gêneros policial e suspense”, conclui Aeraphe. “O primeiro versa sobre corrupção política e o segundo, sobre crimes cibernéticos. São projetos que, segundo minhas estimativas, deverão se concretizar no segundo semestre de 2016.”

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