WEBSÉRIE FORA DO PADRÃO

Produzido em formato de websérie, Mulher Padrão para de me fud# aborda questões pertinentes sobre o universo feminino na atualidade

Texto: Eduardo Torelli
Imagens: Otávio Pacheco

A Internet não está aí apenas para permitir o acesso do público a um número muito maior de conteúdos; ela também é um campo fértil à experimentação e à busca por novos formatos e linguagens. Que o diga Juliana Yurk, idealizadora da divertida websérie Mulher Padrão para de me fud#, que levanta algumas questões interessantes sobre o universo feminino na atualidade e que ainda é gostosa de assistir e de seguir. Para tirar a prova dos nove, basta checar o canal da websérie no YouTube.

Segundo Juliana, a ideia para a websérie surgiu em 2008, embora anos tenham se passado até que o projeto finalmente se concretizasse. “Na época, eu comentava com amigas os padrões que nós, mulheres, vivemos – seja por ressonância da sociedade machista ou por escolha própria”, lembra a diretora e roteirista de Mulher Padrão para de me fud. “Já que não me identifico com eles e quero cada vez mais me libertar desses padrões (e ajudar outras mulheres a se libertarem, também), resolvi transformar a ideia em uma websérie.”

Segundo a realizadora, a “mulher padrão” do título se torna um problema para as demais mulheres quando sustenta comportamentos que não correspondem à sua vontade, sendo submissa e buscando sempre a aprovação do parceiro. “Isto dá o poder de escolha ao homem”, acredita Juliana. “Sendo assim, eles acabam mal-acostumados e, quando se deparam com mulheres que conseguem ser livres e que vivem fora do padrão, não sabem como se relacionar. A maioria dos homens espera que nós, mulheres, correspondamos a este padrão e ficam ‘assustados’ quando uma mulher chega apresentando um final diferente.”

“Uma história, dois finais”
Em 2013, Juliana dividia um apartamento com a atriz Tati Pasquali, a quem contou a ideia geral do projeto. Tati se identificou com a proposta da websérie e prontamente topou fazer parte da atração. “Foi quando me sentei à frente do computador, sintetizei todas as ideias que me acompanharam ao longo do tempo e criei o formato da série – ‘uma história, dois finais’”, prossegue a diretora. “Levei mais ou menos uma semana para escrever os roteiros.”

Tati Pasquali assumiu o papel da protagonista, ganhando, em cena, a companhia do colega de elenco Rodrigo Feldman. Segundo Juliana, era importantíssimo que a “química” entre eles parecesse real na tela. “Fizemos um ensaio um dia antes da gravação, no qual ajustamos os tons e a leveza das piadas”, lembra a realizadora. “Já que morávamos em cidades diferentes – eu e Tati no Rio de Janeiro e Rodrigo e o restante da equipe, em São Paulo, onde gravamos –, as conversas iniciais sobre os personagens aconteceram via Skype. A assistente de direção (e também preparadora de elenco), Jaciara Rocha, ajudou a manter o que ensaiáramos. No momento da gravação, entre mudanças de set, ela esteve mais próxima aos atores, orientando-os e fazendo os ajustes que combinávamos.”

Bons diálogos
Buscando o realismo e a praticidade, Juliana, ao escrever o roteiro, pensou em locações simples: um quarto, uma praça e o interior de um carro – ambientações que poderiam ser obtidas sem grandes complicações e que atendiam perfeitamente às necessidades do script, que se baseia mais em bons diálogos do que em artifícios de apelo visual.

As imagens foram captadas com duas câmeras 5D (Canon) e a equipe permaneceu em cada locação durante um dia (no total, as gravações consumiram três dias). No que se refere à fotografia, a principal orientação foi a busca por um resultado “naturalista”. “Nas cenas externas, priorizamos locais e posições que valorizassem a foto”, explica Juliana. “Já para as internas, foi criada uma traquitana de luz de tungstênio, simulando uma iluminação caseira de abajur – porém, com um aspecto técnico mais apurado, com luzes cênicas de potência fraca e difusores para o preenchimento.

”Além dos profissionais já mencionados, a equipe de produção contou com a colaboração de outros amigos que apoiavam o projeto. Da concepção à finalização, Mulher Padrão para de me fud# foi um projeto 100% independente, gestado “na raça” e elaborado no melhor clima de “vamos botar a mão na massa?”. Além dos atores e dos profissionais já mencionados, trabalharam na websérie Otávio Pacheco (direção de fotografia), Luísa Vasconcellos (produção), Fernanda Wally (figurinos), Ragnar Ribas (áudio), Fernando Mira (finalização), Ricardo Herling (color), Lilian Doring (motion), Thiago Duar (trilha) e Maria Eugênia Léo Castilho e Lara Stahlberg (vozes em “off”).

Cenas dinâmicas
A edição dos episódios foi feita na produtora In Mídia Digital. “Utilizamos o Final Cut”, diz Juliana. “A indicação que demos à produtora foi a de que as cenas, na tela, não deveriam levar o tempo-real para acontecer. Não deixamos que os planos seguissem naturalmente para obtermos cenas mais dinâmicas. Depois da edição, a série ainda ganhou um tratamento de cor, por meio do colorista Ricardo Herling, que utilizou o software DaVinci Resolve.”

Uma trilha também chegou a ser criada para Mulher Padrão para de me fud#. “Ela está presente na vinheta que leva o título da produção e foi composta por Thiago Duar”, conclui Juliana. “A indicação era a de que a música fosse forte, presente e que trouxesse uma ideia de ruptura, pois a vinheta separa os dois finais de cada episódio, que são uma característica da série.”

Os que ainda não viram Mulher Padrão para de me fud# devem aproveitar a oportunidade para fazê-lo, curtindo os episódios disponibilizados no YouTube. Eles comprovam que o formato “websérie” comporta ideias variadas, independentemente do gênero a que pertencem.

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