“Wind Movie”

Aracati, um documentário sobre o vento, estreou no IDFA (o maior festival de documentários do mundo)

Texto: Mônica Wojciechowski
Imagens: Victor de Mello

Dá para fazer um filme sobre algo tão imaterial como o vento? As professoras da Academia Internacional de Cinema (AIC – RJ), Aline Portugal e Julia de Simone, provaram que sim. Com vontade de experimentar maneiras de se aproximarem de algo impalpável, toparam essa empreitada e, ao longo de seis anos, viajaram pelo Vale do Jaguaribe, no Ceará, seguindo a rota do Vento Aracati. O resultado é o média-documentário Acarati, que teve sua estreia mundial no final de novembro do ano passado no maior festival de documentários do mundo, o IDFA – International Documentary Film Festival Amsterdam, na Holanda.

“Se, em um primeiro momento, gostaríamos de fazer um filme sobre o vento, com essas experiências começamos a perceber que as paisagens estavam se transformando de forma acelerada, assim como os modos de vida e o senso de temporalidade na região. Descobrimos, então, que o vento, mais do que um tema, era uma força motriz que sopraria essa jornada pela região, como um “wind movie”, contam Aline e Julia, responsáveis pela direção, roteiro e produção do documentário.

Tempo-espaço 
O filme parte do litoral e adentra pelo interior do estado. “O que nos encantou foi a história desse vento que passa todos os dias na mesma hora e adentra mais de 400 km pelo interior do estado, sendo um elemento importante na região”, conta Aline. Ela também revela que o espaço sofria grandes mudanças, tanto com a ocorrência do Aracati como nas relações que as pessoas desenvolvem com o vento.

“Decidimos nos focar nessas paisagens em transformação e perceber as relações que as pessoas estabelecem com esses espaços. Em todo momento há forças distintas ali, coexistindo no mesmo tempo-espaço, ora em harmonia, ora de forma violenta”, conta Aline.

Durante os anos de pesquisa, elas também filmaram outros dois curtas: Vento Aracati (2014) e Estudo para o Vento (2011). “Em 2016, temos já agendada uma viagem de exibição dos três filmes pelo interior do Ceará, nas cidades em que filmamos”, contam as diretoras.

Roteiro de documentário
Julia dá aulas no Curso de Documentário e Aline, no Curso de Formação Livre em Roteiro. Questionadas sobre o roteiro do documentário, elas contam que este foi construído a partir de situações que criaram depois de conhecer um pouco dos personagens, por meio de uma pesquisa realizada por Victor Furtado.

“O roteiro foi um guia para nós, em que definimos algumas cenas que gostaríamos de filmar. Mas, durante o processo, precisamos abandoná-lo em vários momentos para lidar com o que aparecia em nosso caminho. Acredito que, principalmente no documentário, é muito importante que o roteiro seja um elemento disparador, mas que não se transforme em uma prisão que nos faça perder de vista o mundo em seu movimento, tanto na filmagem como na montagem”, contam.

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