A DOENÇA QUE UNE

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Por: Luiz Carlos Lucena

Fotos: Divulgação


O Ano de 1985 fala sobre uma época aparentemente distante – mas, na realidade, mais próxima do que se imagina

Falar de AIDS quase 40 anos depois poderia ser anacrônico. Afinal, alguns filmes marcantes tiveram o HIV como tema – o mais lembrado talvez seja Filadelphia, com Tom Hanks. O Ano de 1985, no entanto, nos mostra que, no cinema, sempre se pode falar sobre um assunto forma diferenciada. Ou melhor, de maneira atualizada, contemporânea.

Adrian (vivido por Cory Michael Smith) é o ex-publicitário que retorna para o Natal em família naquele fatídico ano, quando a AIDS semeava o seu vírus por cidades como Nova York (retratada no filme), São Paulo e outras grandes metrópoles. “Fui a seis funerais este ano”, diz ele em certo momento do filme, quando consegue se expor para a namoradinha de infância com a qual não quer – ou melhor, não pode mais – ter um relacionamento (ele teme que o beijo que deu nela durante um reencontro lhe tenha transmitido o vírus fatal). Há três anos, o personagem não vê a família – o pai e a mãe, que são conduzidos pelas palavras do pastor de uma cidadezinha do interior do Texas, e o irmão, menino que começa a conhecer a vida.

O filme é de um preto e branco com os grãos estourados, como se quisesse reafirmar que estamos assistindo a um filme de 40 anos atrás, quando a película fotográfica ainda não conhecia a concorrência do filme digital que hoje impera no audiovisual. Os atores se inscrevem no círculo que criaram para si: o pai dominador (que, a princípio, ainda aparenta e mostra seguir os caminhos traçados pelo avô) e a mãe (que, apesar da opressão, se mostra aberta ao mundo; ela diz que não votou em Reagan e que apoiou as ideias do Mondale, inclusive no que se refere aos direitos civis, como se antecipasse ao filho o conhecimento que ainda não tem sobre ele ser gay). O menino ainda procura por caminhos, ouvindo Madonna escondido para que o pai não queime sua fita cassete, e tem o irmão como uma espécie de referência cruzada, apesar de não entender porque não pode visitá-lo em Nova York.

As verdades e inconveniências vão surgindo com o roteiro extremamente bem escrito. O pai sisudo questiona os presentes do filho, que sabe não estar mais no mesmo emprego, pois ligou para a agência e tomou conhecimento da verdade; ao visitar o endereço negado à família, vê, distante, o abraço do mesmo no namorado – algo que ele tenta entender. A mãe protetora apenas se recolhe ao perceber a doença do filho quando encontra, no lixo, a faca com que ele se cortou, e lembra como recusou sua ajuda para o curativo. Essas verdades e inconveniências, contudo, em um filme que teria tudo para o desfecho da incompreensão familiar, se apresentam ao final como compreensões mútuas. O pai veste o casaco que ganhou e não aceitava como resposta carinhosa ao retorno do filho a Nova York, e a mãe apenas pede que lhe avise quando a doença o atingir.

Adrian lembra dois personagens fantásticos do cinema, o transgressor de Teorema, de Pasolini (que transa com a família inteira) e Firmino, o negro pescador de Barravento, de Glauber Rocha (que volta da cidade para uma comunidade de pescadores e faz tudo para quebrar a aceitação passiva dos amigos e da família a um destino sem futuro). Aqui, os personagens fragmentam as relações, quebram a possibilidade de acordo. Adrian, com seu comportamento mais aparente do que verbal, une a família em torno da vida “proibida” que leva e da doença que chega.

Pungente, às vezes emocionante, O Ano de 1985 não é apenas mais um filme a falar da AIDS, mas trata de comportamentos e de uma época aparentemente distante – mas, na realidade, muito próxima, em vista do retorno da doença entre a juventude.

*Confira esta e outras matérias na edição 212 da Zoom Magazine

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