Dos manicômios aos palcos

Fotos: Divulgação

Texto: Fernando Evangelista

Documentário Os Insênicos conta a história de um grupo de teatro formado por portadores de transtornos psíquicos

O universo da loucura é o tema que a cineasta baiana Rafaela Uchoa mais  gosta de abordar. Ela dirigiu o documentário de curta-metragem Os Insênicos, que conta a história do grupo de teatro de mesmo nome formado por portadores de transtornos psíquicos. Engajada em saúde mental desde 2009, Rafaela atualmente está pós-produzindo o documentário Sem Tarja, que mostra as experiências de vários usuários de medicações tarja preta, bem como de profissionais da área, apontando para os malefícios de uma rotina medicamentosa.

A diretora conheceu o grupo Os Insênicos em 2011, durante as filmagens de Sem Tarja, e a capacidade de transformação do teatro na vida de seus participantes chamou sua atenção. “Instantaneamente senti uma grande necessidade de contar a história deles em um filme”, comenta Rafaela. A produção foi rápida: apenas três meses, incluindo o tempo de concepção da ideia e as gravações (isto porque a cineasta já possuía imagens de espetáculos e entrevistas previamente gravadas com eles, captadas para a realização de Sem Tarja).

Foram utilizadas três câmeras para gravar os espetáculos: duas Canon 60D e uma Canon 5D. Para as entrevistas, apenas uma câmera foi necessária. ” O que mais demorou foi a pós”, lembra a idealizadora do projeto. “Editamos em um mês. Porém, tive alguns contratempos com a finalização de cor e áudio. Assim, o filme só ficou realmente pronto em janeiro deste ano. No total, foram nove meses de trabalho, contando o tempo em que o documentário ficou parado aguardando a finalização de cor”.

A fotografia segue a linha documental realista. “Essa é uma parte do filme que eu gostaria de ter caprichado mais”, comenta Rafaela. A diretora teve de operar sozinha a câmera e o áudio e realizar as entrevistas ao mesmo tempo. ” A fotografia saiu mais crua do que eu desejava”, opina.

EQUIPE PEQUENA E POUCA VERBA

O tema que Rafaela tinha em mãos era muito relevante, mas de pouco apelo comercial. Portanto, a dificuldade de obter recursos para o projeto já era esperada.”Como a maioria dos meus filmes são voltados para a saúde mental, já sei da dificuldade que é captar dinheiro para este tipo de produção. Uma vez que possuo equipamento próprio e o grupo se animou com a ideia do filme, nem pensei em perder tempo com captação. Tive a ideia algumas semanas antes do mês de maio, que é quando se comemora a luta antimanicomial no Brasil, e quando estrearia o espetáculo ‘Quem Está Aí?’, a montagem mais recente do grupo”.

A realizadora, então, foi em busca  de parceiros que a ajudassem a produzir o filme de forma totalmente independente. A editora e também roteirista, Márcia Luiza Araújo, foi quem a acompanhou nas gravações dos depoimentos. A equipe, na maior parte do filme, se resumia às duas. Apenas para o espetáculo foram convocadas mais duas operadoras de câmera.

CINEMA BAIANO: UMA LUTA CONSTANTE

Segundo Rafaela Uchoa, fazer cinema na Bahia é muito difícil para quem não tem recursos próprios. “Depender dos editais é complicado e, quando se trata de saúde mental, a coisa fica ainda mais difícil”, explica a cineasta. “O que percebo é que os editais, aqui, não valorizam muito os temas mais existenciais, que são minha base de trabalho. Nas últimas produções realizadas na Bahia que desenvolvi sobre esse tema, decidi não esperar mais por verba. Tive problemas ao procurar incentivos culturais, pois me diziam que era para conseguir investimento através da saúde; já a saúde afirmava que eu deveria conseguir verba por meio da cultura… E assim, nada acontecia”.

Rafaela também diz que a opção de produzir de forma independente tem suas consequências, o que inclui limitações técnicas e orçamentárias. “Tenho a sorte de conseguir parceiros muito competentes para os meus filmes; contudo, meu maior desejo era poder pagá-los de acordo com a qualidade de seu trabalho “, confessa Rafaela. Mesmo com todos esses desafios, ela pretende continuar produzindo filmes que abordem a temática da loucura.

” Meu próximo roteiro a ser filmado é O mundo das Imagens, que conta a história de Raquel, uma atriz de teatro que começa a ter seus primeiros delírios esquizofrênicos na véspera da estreia de seu novo espetáculo”.

O cinema de Rafaela é essencial para um melhor entendimento do universo da mente, que, muitas vezes, é tratado como tabu. “Acho que o trabalho mais importante que realizei até hoje é Sem Tarja“, conclui a diretora. “Entendo que medicalização não é apenas o uso de medicamentos em excesso, mas sim, a patologização da vida. Somos o maior consumidor de Rivotril do mundo e só perdemos para os EUA no consumo de Ritalina. O filme expõe essa realidade através das vozes de profissionais e usuários e, principalmente, de suas vidas, que foram totalmente alteradas devido à medicalização”. Sem Tarja está em fase de pós-produção e será lançado ainda este ano.

Confira o trailer de Os Insênicos: