GÓTICO BRASILEIRO

Embora tenha ares de uma superprodução de terror, O Rastro, de J.C. Feyer, foi realizado com um orçamento modesto para os padrões do gênero

Um velho hospital no Rio de Janeiro, em vias de ser desativado, torna-se o palco de acontecimentos de gelar o sangue. Existe um mistério sombrio ali, o qual um jovem médico (Rafael Cardoso) se dispõe a investigar. À medida que se aprofunda no obscuro passado da instituição, o protagonista mergulha em uma espiral de insanidade que parece não ter fim. Eis a premissa de O Rastro, um bem bolado filme de terror nacional dirigido por J.C. Feyer que, antes de chegar ao cinema, fez um “barulho” danado nas redes sociais (além de ter tido um espaço imersivo muito bacana na última edição da Comic Con Experience – CCXP).

A estreia acontece oficialmente no dia 18 de maio. Antecipando-se ao lançamento, Zoom Magazine conversou com o cineasta J.C. Feyer, que revelou alguns dos truques utilizados para conferir ao longa-metragem uma atmosfera tão assustadora. Coestrelado por Leandra Leal, Claudia Abreu, Felipe Camargo, Jonas Bloch e Alice Wegman

n, O Rastro é uma produção da Lupa Filmes (em coprodução com a Orion Pictures e a Imagem Filmes).

PERDA DE CONTROLE                                             

“As pessoas que assistiram aos trailers disseram que o visual era tão impressionante que ‘nem parecia um filme brasileiro’”, observa J.C. Feyer. “O curioso é que não contamos com uma grande infraestrutura de produção. Não tínhamos sequer uma grua no set e iluminamos tudo com luz natural ou luz de cenário. Trabalhamos essencialmente com uma câmera e um dolly – mas, com esse pouco, conseguimos cenas que tinham uma ‘cara’ de superprodução estrangeira.”

O diretor recorda que O Rastro começou a se materializar sete anos atrás, a partir de seu desejo de realizar um filme de terror (ele é um entusiasta do gênero). Mas o ponto de partida para o projeto foi decidir que “tipo” de filme de terror seria aquele. “O gênero é muito amplo”, explica Feyer. “Um filme de terror pode ser do tipo ‘psicológico’, ‘explícito’ ou se basear em monstros ou zumbis. Pode, ainda, ser um filme sobre um assassino serial. Particularmente, me interessa mais o terror psicológico, que é aquele no qual os personagens perdem o controle sobre as próprias ações e se veem fazendo coisas que, antes, não se achavam capazes de fazer.”

Junto com os produtores, o cineasta considerou quais seriam as propostas mais interessantes para um projeto do gênero. Clássicos como O Iluminado, Os Outros e O Orfanato serviram como inspiração, já que tinham o melhor conceito: a partir de roteiros primorosos, conseguiam assustar e surpreender, combinando o apelo do sobrenatural com personagens e dramas complexos. Cinco diferentes tratamentos foram escritos para O Rastro, que, a cada versão, ganhava mais consistência e maturidade narrativa.

TUDO OU NADA

Já que não temos uma sólida reputação em filmes de terror (com as importantes exceções de criadores como José Mojica Marins e Dennison Ramalho), O Rastro se viu diante de outro desafio: igualar-se plasticamente às produções do gênero realizadas lá fora, resguardando-se das críticas “destrutivas” que certamente seriam desferidas contra o filme.

Feyer explica que, embora gostem de nossas comédias e de fenômenos isolados, como Tropa de Elite, muitos espectadores ainda têm reservas em relação aos filmes nacionais. “Justamente por isso, tínhamos a obrigação de produzir algo muito bom”, diz o cineasta. “Precisávamos quebrar aquele preconceito de cara. Ficamos felizes quando começaram a surgir os primeiros comentários na internet. As pessoas elogiavam a fotografia, a direção de arte e outros aspectos técnicos, o que ajudou a minar qualquer preconceito.”

Ainda segundo o diretor, os maiores “valores de produção” de O Rastro são os profissionais que o auxiliaram a realizar o filme, além das escolhas acertadas que a equipe fez em vários âmbitos. “Trabalhamos com grandes craques, mesmo sem termos um orçamento hollywoodiano”, diz Feyer. “Isso acontece muito no cinema: quando você tem uma boa proposta, bons profissionais topam se envolver com o projeto, mesmo que este não pague o salário que eles mereciam ganhar por aquele trabalho. A influência deles, assim como a escolha das principais locações do filme, fez uma enorme diferença no resultado final da produção.”

O set principal de O Rastro foi uma ala do Hospital Beneficência Portuguesa, no bairro da Glória (Rio de Janeiro). O clima era perfeito, pois o local fora desativado há 15 anos e proporcionava a ambientação lúgubre pedida pela história. Foi preciso, porém, promover uma limpeza geral na locação, em prol da saúde da equipe (que ali permaneceria por vários dias). “Captamos as cenas com uma câmera Alexa”, prossegue o cineasta. “Para tirar um pouco do “sharp” da imagem, utilizamos um jogo de lentes Zeiss 1.3. São lentes de aproximadamente 30 anos atrás, que tiraram um pouco daquele excesso de nitidez do digital”.

QUANTO MAIS FRIO, MELHOR!

Junto com o diretor de fotografia, Gustavo Hadbaia, e o diretor de arte, Daniel Flaksman, Feyer estabeleceu uma paleta de cores “fria” para o longa, bem no espírito proposto pela história. “Não queríamos nada de vermelho ou de amarelo no filme – focamos mais nos tons de azul, verde e marrom”, explica o cineasta. “Esta escolha descolou O Rastro de um padrão já consolidado do cinema brasileiro, cujos filmes exploram muito os tons mais quentes. E ainda tivemos que observar a unidade de tudo isso: a paleta de cores precisava se aplicar aos sets, aos figurinos e a outros elementos da produção”.

A pós-produção foi uma etapa tão “pesada” quanto o trabalho de campo – não só no que se refere aos tradicionais ajustes de cor e retoques no material captado, como no que tange a criação de alguns efeitos mais pontuais e explícitos (estes ainda não estavam prontos quando a reportagem conversou com o diretor). “Teremos alguns efeitos surpreendentes em O Rastro, mas o suspense do filme foi construído diante da câmera”, conclui Feyer. “Criamos toda a sugestão de terror do longa no próprio set. Este é o filme que nós queríamos realizar”.

Confira o trailer:


Leia o artigo completo na edição 196 da Zoom Magazine.