MAKING-OF “ELIS”

O “peso” da responsabilidade não intimidou o diretor Hugo Prata durante a realização de Elis, bela e premiada cinebiografia da maior cantora do país

 

Por Eduardo Torelli

Fotos André e Carioba/Divulgação

 

Há algo de mágico em Elis Regina. E não estamos falando apenas de sua voz, de seu repertório único e de sua personalidade contestadora (aspectos que são muito conhecidos e, portanto, óbvios). A mística em torno da icônica intérprete também se deve ao momento em que sua estrela brilhou, breve e fulgurantemente. Elis foi um alento em tempos obscuros, um rasgo de poesia em uma era de poucos sorrisos. Isto é razão suficiente para que seu mito seja relembrado de tempos em tempos. E poucas vezes sua lembrança foi evocada de forma tão vívida quanto no longa-metragem de estreia do diretor Hugo Prata, Elis, uma das melhores cinebiografias nacionais de que se tem notícia

É um daqueles casos em que a realização e a encenação são dignas de nota e que se completam. Afinal, a “alma” do longa está tanto em sua ambientação de época caprichada e em sua fotografia expressiva como na entrega dos atores a seus respectivos personagens – particularmente,Andréia Horta, que parece ter “nascido” para interpretar a “Pimentinha”. O excelente elenco incluiu, ainda, Lucio MauroFilho, Caco Ciocler, Zé Carlos Machado, Julio Andrade e Gustavo Machado. Distribuído pela Downtown Filmes/Paris, Elis foi coproduzido pela Globo Filmes e pela Rede Telecine. Sua estreia nos cinemas foi precedida por uma ruidosa passagem pelo Festival de Gramado, onde Andréia Horta foi laureada com o prêmio de Melhor Atriz e o longa, com o de Melhor Filme pelo júri popular.

 

FORÇA CONTAGIANTE

“Fazer um filme sobre Elis Regina é uma responsabilidade e tanto”, disse Hugo Prata à reportagem de Zoom Magazine. “Tentamos, o tempo todo, trabalhar com a gana e a qualidade que Elis colocava em seu trabalho, o que foi bastante difícil. Eu queria muito honrar a grandeza e a profundidade de nossa personagem.Mas foi sempre um trabalho estimulante e desafiador. A força de Elis contagiou a equipe.”

Além de lembrar a carreira vitoriosa da cantora, o filme retrata o Brasil na época da Ditadura Militar e se detém na luta da protagonista contra seus próprios “demônios” existenciais. O roteiro, portanto, avança por diferentes trilhas, que, juntas, nos permitem saber quem foi Elis, artística e pessoalmente e no contexto de seu tempo. Para que a ideia funcionasse, o diretor Hugo Prata afirma ter se esquivado da “idolatria” que ronda ídolos como Elis, apesar de também nutrir uma admiração pela cantora. Cinematograficamente foi mais interessante retratá-la com todas as suas virtudes e defeitos.

A confecção do roteiro partiu de uma profunda pesquisa sobre o tema, tanto em arquivos como por meio de entrevistas com amigos de Elis, que colaboraram para o filme com seus depoimentos. “A primeira coisa a ser discutida foi o tipo de abordagem que adotaríamos no longa, já que dispúnhamos de um tempo curto e limitado”, recordou Prata. “A vida de Elis não caberia em duas horas de filme, então, fizemos nossas escolhas e fomos à luta.” Ajudou muito o fato de os filhos de Elis Regina – João Marcelo Bôscoli, Maria Rita e Pedro Camargo Mariano –, os quais Prata já conhecia, terem aprovado a ideia do longa. Na época em que Elis estava em pré-produção (2012), a autorização de familiares era um pré-requisito para a produção de biografias.

 

LIBERDADE CRIATIVA

“Os filhos da Elis foram muito elegantes e nos deram total liberdade”, afirmou Prata. “Não proibiram ou exigiram nada, nem quiseram ler o roteiro antes de filmar. Só viram o filme depois de pronto. Foi uma relação muito saudável e livre.” Igualmente positiva foi a alquimia com a atriz principal, Andréia Horta. “Logo percebemos que ali estava a nossa atriz – depois de alguns percalços, tudo se iluminou em um excelente teste com Andréia. Ela tem a perfeita compreensão da personagem, aliada a muito talento, entrega e labuta”, descreveu o cineasta.

As filmagens aconteceram em agosto e setembro de 2015. Uma câmera ArriflexAlexa e um jogo de lentes Ultra Prime (de 28mm, 40mm e 65mm)foram utilizadas para a captação das imagens. Ao todo, a equipe comandada por Prata contava com 100 pessoas e um contingente de mil figurantes chegou a atuar na produção. “Filmamos em São Paulo, Rio de Janeiro e Paris, quase sempre em locação”, recordou o diretor. “Em São Paulo fizemos a maioria das internas, enquanto, no Rio, captamos as cenas de praia, a externa do Beco das Garrafas e a casa de Elis e Ronaldo Bôscoli. Em Paris, captamos apenas sequências externas.”

A escolha das locações também levou em conta fatos que marcaram a biografia da cantora. Por exemplo: em São Paulo, foram filmadas cenas no prédio onde o corpo de Elis foi encontrado (embora não no mesmo apartamento). E em Paris, as imagens registradas tiveram o propósito de contextualizar os shows que a cantora fez na casa de espetáculos Olympia (a mais tradicional daquela cidade) e em Cannes. Além disso, alguns cenários tiveram que ser construídos, incluindo os interiores do Bottle’s Bar e dasestações de rádio.

Por ser um filme de época, Elisainda demandou constantes pesquisas por parte de todos os departamentos, especialmente a Direção de Arte e o Figurino. A trama do longa abraça três décadas (1960, 1970 e 1980) e os trajes, cortes de cabelo e a própria sonoridade das cenas tinham que acompanhar as mudanças de tempo.

 

TRILHA SONORA

O diretor salientou a importância da montagem no processo de feitura do filme, definindo esta etapa como “mágica”. “Muita coisa acontece na ilha de edição – ali descobrimos muitas coisas e outras tantas se resolvem”, afirmou. “Nessa hora, você volta a trabalhar a dramaturgia, o texto, os atores, os detalhes fundamentais.”

Também na pós foram feitos os últimos “retoques” na obra – em sua maioria, bem sutis, mas essenciais para a “viagem no tempo” proposta pelo filme. Coube aos finalizadores apagar digitalmente das imagens captadas em São Paulo tudo o que não se encaixasse nas três décadas em que se passa Elis: placas, grafites, antenas parabólicas e até ciclofaixas. Obviamente a trilha sonora foi outro aspecto que exigiu grande atenção dos realizadores, já que a musicalidade da cantora tinha que ser muito bem representada no longa. Difícil, mesmo, foi definir que sucessos entrariam no filme, dada a qualidade excepcional de toda a obra de Elis.

Das 315 músicas de Elis Regina que Hugo Prata tinha em casa, apenas uma dezena seria incluída na trilha. O critério, portanto, foi fazer a seleção levando em conta a relevância das canções no processo de contar a história da biografada. É claro que não ficaram de fora clássicos como “O Bêbado e o Equilibrista” e “Velha Roupa Colorida”, mas essa determinação permitiu que outras músicas menos conhecidas (como “Cabaré”) engrossarem a “playlist” do filme. Cada uma dita um clima e um momento da vida de Elis, assumindo, assim, uma função narrativa na trama.

Ídolo, rebelde, intérprete e mulher: é possível ver Elis sob qualquer um desses prismas, pois ela foi um misto de todas essas coisas – e é essa complexidade que lhe dá uma aura de fascínio. Talvez o mesmo se aplique ao belo filme de Hugo Prata, que funciona bem em diversos níveis: seja pelo viés histórico, musical ou dramático, não faltam razões para vê-lo, ouvi-lo ou “senti-lo”.