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Documentário - O Dirigível
São Paulo, 11 de maio de 1933. O dirigível Graf Zeppelin sobrevoa a cidade.

Sem patrocínios ou leis de incentivo, Saulo Adami, Alessandro Vieira e Carlos Alexandre Martins produziram O Dirigível, documentário que relembra as passagens do Graf Zeppelin e do Hindenburg pelo Brasil

Antes que os aviões dominassem os céus, os dirigíveis monopolizavam as viagens aéreas. Majestosos, eles sobrevoavam o mundo em jornadas transatlânticas que ofereciam luxos com os quais os passageiros da atualidade só podem sonhar: de refeições requintadas a água quente nas cabines, além de terraços com vistas panorâmicas de tirar o fôlego. Essa era chegou ao fim com a explosão do dirigível Hindenburg em 1937.

        Realizado de forma independente por Saulo Adami, Alessandro Vieira e Carlos Alexandre Martins, o belo documentário de média-metragem O Dirigível relembra as passagens das aeronaves Graf Zeppelin e Hindenburg por nosso país, na década de 1930. O fio condutor da trama é o depoimento do historiador e escritor paranaense Cristiano Rocha Affonso Costa, coronel do exército que pesquisou extensivamente o tema, mas também há entrevistas com testemunhas oculares do fato, como o vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, professor e historiador Ernani Costa Straube, e a costureira Nemézia Azamor Monteiro, a Dona Zeza. O documentário da produtora Griô Filmes fará sua estreia na Cinemateca de Curitiba no dia 01 de dezembro de 2019, às 16h, em única sessão (a entrada é franca). O lançamento conta com apoio da Fundação Cultural e da Prefeitura de Curitiba e, após a exibição, haverá um bate-papo com os realizadores.

DA IDEIA À REALIZAÇÃO

“Criei este projeto em 2016, quando participava do Festival Mondo Estronho, na Cinemateca de Curitiba”, recorda o escritor, jornalista e filmmaker Saulo Adami. “Na entrada da sala de projeção onde eram exibidos os filmes, havia uma placa em homenagem a João Baptista Groff, um dos principais documentaristas paranaenses. Entre outras façanhas, Groff filmara a passagem do Hindenburg por Curitiba, em 01 de dezembro de 1936”.

        Após reunir informações e fotografias relacionadas ao assunto, Saulo esboçou uma primeira proposta de roteiro. “Eu queria produzir um documentário de fôlego, um longa-metragem”, diz. “Defini a participação de um narrador e de entrevistados, testemunhas da passagem do dirigível, antes mesmo de fazer contato com os eventuais convidados. O Dirigível se tornou um média-metragem durante a edição que preparamos para sua exibição experimental durante a mostra de documentários ‘A História de Brusque Vai ao Cinema’, realizada em agosto deste ano”.

Mais do que um colaborador do filme, o coronel Cristiano Rocha Affonso Costa se tornou um consultor do projeto. “Filmamos sua entrevista na sede do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, assim como a entrevista com o professor Ernani Costa Straube, em 2016”, prossegue Saulo. “No ano seguinte, gravamos o depoimento da costureira Nemézia Azamor Monteiro”. Outros personagens que contribuíram com depoimentos foram a tradutora Ursula Rombach e o industrial e piloto de aeronaves Henning Jönk, que viram o Hindenburg passar sobre Brusque em 1936, além do advogado Bernardo Guimarães da Silva (que avistou o Graf Zeppelin em sua passagem por São Paulo), o gerente de vendas Walter Orthmann (que viu o Hindenburg aos 14 anos de idade) e o tintureiro Miguel Germano Franco. 

O diretor e produtor Alessandro Vieira e Walter Orthmann / Foto: Saulo Adami.

Uma vez que os entrevistados tinham, em média, de 83 a 93 anos de idade, era preciso agilizar as filmagens. O problema era que Saulo não estava vinculado a nenhuma produtora e não dispunha de equipamentos para captar as imagens e editar o projeto. “Foi quando me ocorreu visitar a recém-criada produtora Griô Filmes, de Alessandro Vieira e Carlos Alexandre Martins, para que pudéssemos fazer, juntos, a captação dos depoimentos e a produção de O Dirigível”, conta o jornalista. “Alessandro, Carlos e eu havíamos trabalhado no documentário Expedições à Cidade Schneeburg, de 2013. Somos amigos e gostamos de trabalhar em parceria”.

CÂMERAS VERSÁTEIS

Para o registro das imagens, os cineastas Alessandro Vieira e Carlos Alexandre Martins optaram por câmeras DSLR. “Decidimos gravar com duas Canon 6D”, informa Alessandro. “Além das câmeras, optamos por utilizar lentes Rokinon Cine e iluminação de Led da marca Yongnuo. Já que a proposta foi produzir o documentário com recursos próprios, usamos equipamentos que tínhamos disponíveis na produtora naquela época. A escolha se deu pela versatilidade que essas câmeras e os demais equipamentos proporcionam. Tanto no quesito transporte (por serem leves e de pequeno porte) quanto na questão de entrega de qualidade. Não tínhamos conhecimento prévio das locações em que faríamos a captação dos depoimentos. Assim, recorremos a equipamentos que trabalhassem bem em qualquer situação de luminosidade. Ficamos bastante satisfeitos com o resultado que conseguimos”.

        Na etapa de pós-produção, a principal preocupação dos realizadores continuou a ser um aspecto priorizado desde o início do projeto: a checagem das informações apresentadas ao espectador. Além disso, na edição, os realizadores usaram uma série de recursos para conferir um dinamismo à narrativa. Algumas cenas foram descartadas e certos trechos de narração foram substituídos por legendas. “Também utilizamos alguns recursos gráficos sobre mapas e passeios de câmera sobre fotografias históricas – era como se a câmera fosse o dirigível em movimento”, acrescenta Saulo. “E usamos o gerador de caracteres para identificar nossos entrevistados com seus nomes e atividades profissionais”.

        Vale lembrar que O Dirigível foi realizado sem captação de verbas ou leis de incentivo à Cultura, uma prova de que a atividade audiovisual pode e deve encontrar outros caminhos para ser exercida. “A única logomarca que aparece no documentário é a da produtora Griô Filmes”, conclui Saulo. “E vem aí o livro ‘O Dirigível’, que contará histórias de bastidores e trará ainda mais informações sobre o assunto”.

*Confira o making of completo de O Dirigível na próxima edição digital (218, a ser lançada na primeira quinzena de dezembro) da revista Zoom Magazine