CONCEPÇÃO VISUAL E TÉCNICA

O processo de elaboração estética e de produção do curta-metragem O Mito do Afogamento, de Steven Richter

Por Ananda Guimarães

O curta-metragem O Mito do Afogamento, realizado pela Lab – produtora ligada à Academia Internacional de Cinema (AIC) –, experimenta com a linguagem visual e sonora para produzir uma atmosfera de semi-consciência, na qual o coletivo se sobrepõe ao individual em uma crítica aos sinais da maturidade.

Baseado no conto “The Myth of Drowning”, da escritora norte-americana Dawn Raffel, o projeto foi roteirizado, dirigido e editado por Steven Richter, diretor-fundador da Lab e da AIC. O curta contou com a participação de profissionais de cinema ligados à escola e abriu uma oportunidade para alunos e ex-alunos de participar da produção de um filme profissional, com forte traço estético. A obra foi rodada em Super-16mm, com negativos Kodak 7219 e 7205, e finalizada digitalmente, usando-se o Discreet, o Smoke e o Flint. Na seqüência, confira uma entrevista com Steven Richter, que fala sobre a realização do filme, e os apontamentos dos profissionais André Schütz, Lu Bueno e Sérgio Jacobina sobre os aspectos de Direção de Fotografia, Direção de Arte e Pós-Produção (respectivamente).

O MITO DO AFOGAMENTO É A SUA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA EM ADAPTAÇÃO LITERÁRIA PARA O CINEMA?

SR: Sim. A história original tinha apenas uma linha estrutural de consciência. Era, essencialmente, um diálogo que não explicava qual dos interlocutores estava falando. Apenas um fluxo de texto. Tive que analisar a narrativa com cuidado, para saber quem falava a cada momento. Mas não saber a quem pertencia cada voz deu ao texto um certo “ar de sonho”, como se pequenas partes fossem emergindo do oceano. Mantive tudo em um nível de semi-consciência, o que não é tarefa fácil, porque tivemos de lidar com muitas sutilezas da narrativa, que se tornaram seus aspectos mais importantes. As duas pessoas pareciam ser uma só, embora o foco da história fosse a separação do casal e a falta de comunicação entre ambos. Então, estávamos, também, lidando com contradições.

EM QUE SE BASEOU SUA CONCEPÇÃO VISUAL PARA O MITO DO AFOGAMENTO? E DE QUE FORMA ESSES PROCESSOS O AJUDARAM A ALCANÇAR OS RESULTADOS QUE DESEJAVA VISUALMENTE?

SR: Como referência para o quarto, usei o trabalho do pintor Jonathan Weiner, baseado no Brooklyn, um bairro de Nova York cujas influências passam pelo fringe da cena pop surrealista. Na verdade, usei uma das telas dele, “The Power of Fluidity” (“O Poder da Fluidez”), como referência, e passei a idéia ao André Schutz (Diretor de Fotografia), Lu Bueno (Diretora de Arte) e Serginho (Pós-Produção). A pintura mostra um casal na cama, a mulher segurando um iPod e o homem escolhendo uma música, recostado no peito dela, enquanto se preparam para dormir. Tentamos reproduzir o quarto para que ficasse o mais próximo possível da pintura.

Para o visual da praia, pensei mais em fotos antigas de família. Gosto dessa idéia de recriar memória, dando um sentido de nostalgia, de algo coletivamente perdido. Temos esse tipo de sentimento quando olhamos uma fotografia antiga e ficamos com a impressão de que já estivemos naquele lugar; ou imaginamos saber como aquelas pessoas se sentiam naquele tempo. Sentimos empatia por elas.

Acho que essas referências funcionaram bem. Os protagonistas da história são o que podemos chamar de boêmios aos trinta e poucos anos, começando a envelhecer e a enfrentar a vida adulta com responsabilidades – como ter um filho e se dedicar à carreira. Isso é, justamente, o que os está sugando e os desconectando do resto do mundo e da própria vida anterior. É aí que O Mito do Afogamento se manifesta. Ela sente que está se afogando e ele observa a situação, como espectador. Suas vidas sempre foram, de alguma forma, desconectadas da sociedade: a forma como se vestem, como vivem… Administram suas vidas livremente, mas estão chegando a um ponto, pressionados pela maturidade, em que sentem a individualidade esvaecer em prol de objetivos comuns. É, de certa forma, uma história sobre a morte da personalidade.

Queríamos contar essa história pelas imagens, o máximo possível. Os personagens pareciam um pouco exagerados e seu quarto, um pouco estranho – e tudo um pouco sintético, gerado, até mesmo as cores. Queríamos que isso se chocasse com o mundo natural, com a praia, o vento e a chuva na cidade entrincheirando-os em seu apartamento. Os personagens são, certamente, antinaturais. Como se o natural fosse a morte da visão pessoal, da individualidade.

ALÉM DE DIRIGIR, VOCÊ ROTEIRIZOU, PRODUZIU E MONTOU O CURTA. QUE PARTE DO PROCESSO DE CRIAÇÃO FOI MAIS ESTIMULANTE?

SR: Gosto de manter o roteiro bem aberto, sabendo quais são as limitações. Normalmente, improviso certas partes e mantenho outras bem estruturadas. Então, para mim, é importante encontrar o caminho para a história e seguir a partir dali. A roteirização fica ligada à direção. E, no final das contas, a direção se dedica essencialmente ao trabalho com os atores, já que todo o resto foi estabelecido em pré-produção. Nesse ponto, já discuti tudo com o fotógrafo, exatamente como quero iluminar, que tipo de filme quero usar e como fazer a pós-produção. Já discuti os enquadramentos e fiz o storyboard. O mesmo vale para o design de produção. Discutimos todos os detalhes de como deveria ser o visual e está tudo pronto quando entramos no set. Quando chego ao set, gosto de me concentrar principalmente nos atores. Pelo menos, essa é a situação ideal. Dito isto, o tipo de cineasta que sou é alguém que procura responder às várias partes do processo.

COMO FOI A ESCOLHA DA TRILHA SONORA?

SR: Queria que fosse minimalista, ao mesmo tempo alternativa, com sons eletrônicos. Queria que o casal estivesse em algum lugar entre o sintético e o real. Suas vidas são, de certa forma, sintéticas, no sentido de que vivem em uma cidade e têm um estilo de vida meio “punk”. Além disso, a situação deles, apesar de real, é parcialmente responsável pela desconexão que sentem da natureza – os sons da chuva e do vento que entram no quarto, vindos de fora, e a praia distante em suas memórias coletivas se inserem na forma de um tipo de som eletrônico que, de certa forma, tem a intenção de persegui-los.

DIREÇÃO DE ARTE (POR: LUCIANA BUENO)

“A Direção de Arte de O Mito do Afogamento foi muito instigante. O ritmo lento que a relação em queda deste casal imprimiu à dramaturgia me levou a propor uma relação entre cores e formas que transitasse entre a nostalgia do antigo e desgastado e a realidade de um casal moderno. Todos nós, casados há alguns anos, sabemos que este não é um privilégio particular. Não importa o tempo ou o local: em algum ponto da relação, nos sentimos assim: lentamente afundando. Realizar esse trabalho foi um agradável desafio, pois Steven tem um olhar estético apurado, que nos rendeu boas discussões. E, a meu ver, ótimos resultados de arte, coroados pela fotografia de André. Um bom trabalho de equipe.”

DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA (POR: ANDRÉ SCHÜTZ)

“Tudo começou quando Steven me entregou uma cópia do conto e uma reprodução de uma pintura de Jonathan Viner. Daí para frente, foram longas conversas e trocas de referências de todos os tipos. Trabalhamos muito próximos em todo o processo. Muito do trabalho de câmera e de luz foi definido nos ensaios, juntamente com a interpretação e a marcação dos atores. Toda essa preparação foi importante para definir as estratégias da fotografia. Afinal, trata-se de um filme com looks muito específicos e tínhamos recursos limitados. Sendo assim, a bitola de escolha foi o Super-16mm. Ganhamos flexibilidade e velocidade no set e na finalização.

A cena do casal no quarto foi rodada em estúdio, onde tínhamos maior controle. Na pós-produção, mantivemos, basicamente, o que foi impresso no negativo, salvo pequenos ajustes de contraste e nos tons de pele. O cenário de Lu Bueno nos colocou dentro da pintura de Viner. Com o gaffer Álvaro Brito, parceiro de longa data, na equipe, tive o suporte necessário para chegar ao look no set. Incluindo as texturas geradas pela chuva. Afinal, a água e seus perigos estão por todo o filme.

Já as cenas com luz do dia foram uma outra história. Elas precisavam de manipulação digital para chegarmos ao look pop-surrealista almejado. Garantimos, nas locações, o desenho de luz. Para chegar às cores e à textura requeridas, sugeri o finalizador Sérgio Jacobina, com quem já trabalhara de forma muito entrosada e produtiva. Ele, como sempre, fez um ótimo trabalho.

Foi muito gratificante atuar com um diretor que realmente se preocupa com a criação de um universo visual. Também foi ótimo, e um desafio, dialogar com a pintura contemporânea. E, por fim, saber dos elogios de Jonathan Viner, após receber um dos stills enviados pela produção. Fico feliz de ter participado.”

FINALIZAÇÃO (POR: SÉRGIO JACOBINA)

“O processo de finalização não foi muito complexo. No início, sentimos a necessidade de uma intervenção gráfica nas cenas da praia, para tentar ficar mais claro que faziam parte de outro contexto, outra realidade, até mesmo como uma simples imagem criada na memória de uma personagem. Mas, depois de alguns testes, vimos que não era necessário. Resolvemos trabalhar apenas com um tratamento de cor que separava as imagens do restante do filme, e esta divisão ficava clara. Algumas cenas eram mais complexas, pois foi preciso separar a atriz do fundo da imagem para fazer uma correção de cor diferente e separá-la do fundo, para dar a impressão de que ela não fazia parte do cenário e enfatizar a separação do restante do filme. O curta foi finalizado em um sistema Discreet, Smoke e Flint – o segundo, para uma cena do quarto, onde foi trocado o fundo de uma janela. A parte de letreiros veio de uma composição em After Effects, feita na própria AIC.”

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