ENTREVISTA COM JOÃO MOREIRA SALLES

João Moreira Salles, cineasta

João Moreira Salles fala sobre a linguagem do documentário, crítica de cinema e seu papel como realizador

 

Por Julio Wainer

João Moreira Salles é documentarista e produtor, sócio-fundador, com seu irmão, Walter Salles, da produtora Videofilmes. É o diretor de alguns dos mais relevantes documentários brasileiros e nos cedeu uma entrevista com exclusividade. Como um bom documentarista e observador, ele preferiu responder à realidade conforme esta se apresentava.

CINEMA DE FICÇÃO E O CINEMA DOCUMENTAL

O que realmente muda da ficção para o documentário não é a verdade contra a fabricação; nem o espontâneo contra o ensaiado; é sim a responsabilidade do documentarista frente a seus personagens. Nós nunca podemos nos esquecer que filmamos pessoas reais, que podem ser afetadas pelo filme.

CADA FILME TEM O SEU PÚBLICO

Não acredito na história de “obra prima esquecida em uma gaveta”. O filme acaba encontrando o seu público, e nem precisa ser obra prima. Há pouco falaram de um curta antigo que mal me lembrava, e que é exibido todos os anos em curso de documentário (Meninos, Eu Vi, 1992, da Fundição Progresso).

A EXPERIÊNCIA DO DOCUMENTÁRIO

A informação no documentário tem importância secundária. Um bom documentário revive uma experiência. Diz mais respeito à forma de contar que ao assunto propriamente dito.

O SILÊNCIO

O silêncio é uma parte tão importante da vida, e é tudo o que não conseguimos assistir na televisão. Durante as prévias das eleições americanas, tinha dias em que nada acontecia e ainda assim era espantoso como a CNN não deixava um só segundo passar em silêncio. Uma fala emendava na outra. Parecia corrida de bastão, em que um passava a palavra para o outro sem interromper o fluxo sonoro. Quando o “Nelson Freire” (filme sobre o pianista, 2003) ficou pronto, me dei conta que o filme era, em parte, uma tentativa de falar das coisas sem que alguém necessariamente precisasse dizer algo. Na cena da Guiomar Novaes o Nelson fala dela apenas com o rosto, em silêncio.

‘BOOM’ DE DOCUMENTÁRIO X BOM DOCUMENTARISTA

Não participo muito da idéia do “boom” do documentário brasileiro. Está, sim, cada vez mais fácil produzir. Mas isso ainda é pouco para o país que teve um dos maiores documentaristas do mundo. Refiro-me a Eduardo Coutinho.

O REALIZADOR-DOCUMENTARISTA

Os grandes marcos na história do documentário foram feitos por gente de fora do cinema: antropólogos, cientista sociais, investigadores, engenheiros. Cineastas, quando voltam à forma documental, têm feito coisas triviais, convencionais, sem relevância.

O SER HUMANO RETRATADO

Nem sempre a miséria é interessante, nem sempre os loucos são sábios, nem sempre os ricos são canalhas. Fico aborrecido de ver o cinema reeditar velhos clichês como loucos-profetas ou mendigos-geniais, sob linda fotografia. Às vezes a pobreza é miserável, e só. O “drama” está banalizado. Confundiu-se com “tragédia”. O drama que me interessa diz respeito a pessoas comuns, em situações nas quais nos reconhecemos. Nesse sentido, temos muito a aprender com o cinema argentino.