AMOR UNIVERSAL: uma conversa com Levan Akin, autor de ‘Nós Dançamos’

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Cartaz do filme 'Nós Dançamos', de Levan Akin
Cartaz do filme 'Nós Dançamos', de Levan Akin

Confira entrevista especial sobre cinema, cultura e preconceitos com o cineasta Levan Akin, autor do drama Nós Dançamos

Representante da Suécia na edição 2020 do Oscar, Nós Dançamos, que estreou no Brasil em dezembro, com distribuição da Zeta Filmes, é dirigido por Levan Akin. A obra tem como protagonista o personagem Merab, que treina dança tradicional georgiana no Georgian National Dance Ensemble com sua parceira Mary. Quando se junta ao grupo o carismático e descontraído bailarino Irakli, Merab se sente ameaçado e atraído por aquele que se tornará uma fonte de rivalidade e desejo.

        Nascido em 1979, em Estocolmo (Suécia), o cineasta Levan Akin é autor dos longas The Circle (2015), baseado no best-seller de Mats Strandberg e Sara Bergmark Elfgren, e Certain People, que estreou o Festival de Cinema de Tribeca, em 2012. Ele ainda dirigiu várias séries para a TV sueca, como Real Humans.

A seguir, confira uma entrevista com o realizador (que atualmente escreve e dirige um novo projeto para a TV, Dough, prevista para estrear em 2021).

VOCÊ É DE ORIGEM GEORGIANA, MAS VIVE NA SUÉCIA. COMO ESTE PROJETO SE MATERIALIZOU?

Em 2013, quando testemunhei alguns jovens corajosos, que tentavam realizar uma parada de orgulho gay em Tbilisi, na Geórgia, serem atacados por uma multidão de milhares de pessoas organizada pela Igreja Ortodoxa, senti que tinha de abordar essa questão de alguma forma.

A FLUIDEZ E SENSUALIDADE DA DIREÇÃO SÃO BASTANTE IMPRESSIONANTES. VOCÊ PODE FALAR UM POUCO SOBRE A FILMAGEM?

Foi a primeira vez que dirigi em georgiano e não sou fluente. Além disso, trabalhei com muitas pessoas, que não eram atores, em locais reais. O filme é todo baseado nas histórias reais que coletei e as coisas estavam em constante evolução. Então, a fase de pesquisa foi bem extensa; vivi bastante com os personagens principais e os filmei com minha própria câmera. Acho que é por isso que me aproximei tanto deles e me tornei tão íntimo. Não houve barreiras, nada foi forçado, foi tudo completamente natural.

COMO FOI A SELEÇÃO DO ELENCO? VOCÊ PODE ANALISAR OS ATORES E DIZER POR QUE OS ESCOLHEU?

Fiz muitas entrevistas durante a fase de pesquisa e conheci algumas das pessoas que estão no filme. A primeira vez que vi Levan Gelbakhiani, intérprete de Merab, foi no Instagram. Ele é um dançarino. Eu o fiz escrever sobre si mesmo para, depois, ler seus textos para mim sempre que nos encontrávamos. Lentamente, construímos uma relação de confiança e fui me inspirando na vida e no ambiente dele. Conheci Bachi Valishvili, intérprete de Irakli, durante o processo regular de seleção do elenco, quando o testamos juntamente com Merab. Houve uma química instantânea. Além disso, descobrimos que ele havia praticado dança georgiana por sete anos!

VOCÊ VOLTA À GEÓRGIA COM FREQUÊNCIA? O QUE VOCÊ ACHA DA GERAÇÃO JOVEM QUE VIVE LÁ?

Com este projeto voltei muitas vezes. Na verdade, meus pais são parte da diáspora georgiana da Turquia e eu nasci na Suécia, então costumávamos ir muito à Tbilisi durante o período de crescimento da União Soviética. Desde então, já vi a Geórgia de muitas formas. A geração jovem atual é como qualquer outra de qualquer lugar do mundo, tudo é globalizado e eles crescem com a mesma cultura pop. Porém, na Geórgia, há uma grande divisão entre esta geração e a mais velha que viveu durante a União Soviética.

VOCÊ ACHA QUE, EM TODO O MUNDO, AS PESSOAS ESTÃO FICANDO MAIS TOLERANTES EM RELAÇÃO ÀS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADES?

Sim e não. Em diversos aspectos e em muitos países europeus, parece que estamos retrocedendo. Esta é apenas a minha análise, mas parece que, em todo o mundo, os lados opostos estão se tornando mais severos em relação a esses tipos de perguntas.

VOCÊ PODE NOS CONTAR UM POUCO MAIS SOBRE A TRADICIONAL CULTURA DE DANÇA GEORGIANA RETRATADA NO FILME? QUAL A IMPORTÂNCIA DESTA DANÇA NA CULTURA GEORGIANA?

Ela tem um papel muito grande – todas as crianças da Geórgia frequentam aulas de dança desde muito cedo –, provavelmente tão importante quanto o karatê na cultura japonesa. A inclusão da dança georgiana aconteceu a partir de uma das entrevistas que fiz com um dançarino georgiano. Além disso, aprendi com minha própria família que a dança desempenha um papel fundamental na história e cultura georgiana. Justapor a dança tradicional com a “nova” dança da Geórgia foi uma escolha óbvia. No início, fomos bastante ingênuos e pedimos ao prestigioso Balé Nacional da Geórgia Sukhishvili que apoiasse o filme com bailarinos etc. Eles prontamente nos disseram que não existia homossexualidade na dança da Geórgia e nos pediram para sair. O diretor do Balé convocou todos os outros grupos do país e os “alertou” sobre nós. Esta reunião inicial resultou em uma grande sabotagem contra nós e tornou o nosso trabalho ainda mais difícil. Tivemos que trabalhar sob enorme sigilo e pressão. Havia inclusive seguranças no set.

COMO FOI REALIZAR ESTA PRODUÇÃO NA GEÓRGIA, CONSIDERANDO SEUS LAÇOS COM O PAÍS E O FATO DE QUE SUA PRINCIPAL EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL É SUECA?

Foi, com certeza, interessante. Percebi, finalmente, o quão sueco eu sou. Mas, certa vez, ao filmar tarde da noite, minha frieza escandinava falhou e a equipe adorou ver meu lado georgiano se revelar! Na Suécia, há uma cultura de consenso, mas na Geórgia a diferença de opiniões e o temperamento explosivo é a norma.

O FILME É UMA HISTÓRIA DE AMOR UNIVERSAL. VOCÊ PODE FALAR UM POUCO SOBRE O EQUILÍBRIO ENTRE ESTE TEMA UNIVERSAL E AQUILO QUE TORNA ESTA ESTÓRIA, AO MESMO TEMPO, TÃO DIFERENTE DE TUDO QUE JÁ VIMOS?

Para mim, é muito frágil a situação na qual a Geórgia e outros antigos países da União Soviética se encontram no momento. Todos eles são realmente países singulares, claro, mas os sólidos valores tradicionais da Geórgia desempenham um papel importante nesta situação atual. Os valores ocidentais são considerados uma ameaça aos antigos costumes georgianos. Além disso, manter a identidade cultural transforma-se em uma questão de sobrevivência para um país que foi conquistado repetidamente ao longo dos séculos. A língua georgiana, o antigo alfabeto, a cultura do vinho e a cultura gastronômica, entre outros, são extremamente importantes para eles. Com este filme, tento mostrar que mesmo que alguém se abra e escolha um caminho diferente, ainda é possível manter suas tradições.

Cenas de Nós Dançamos

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