Marco del Fiol

“O DOCUMENTÁRIO É UM CINEMA DE RELAÇÃO”

Um bate-papo com o diretor Marco del Fiol, autor de Espaço Além e Cravos

A história da São Paulo Cia. de Dança, que completou dez anos em 2018, será contada em um documentário produzido com exclusividade para o Canal Curta! Quem assina a direção é Marco del Fiol, cineasta, produtor e roteirista com uma visão muito particular do documentário, a qual já exercitou em seus longas anteriores: Espaço Além (disponível nas plataformas NOW, Looke, Vimeo e Amazon) e Cravos. O novo projeto do diretor mostrará a rotina de ensaios dos bailarinos – muito mais árdua do que se imagina – e revisitará a trajetória da Companhia por meio de um rico material de arquivo.

        Neste bate-papo com a reportagem da Zoom Magazine, Del Fiol fala sobre o gênero a que tem se dedicado com paixão nos últimos anos e discute os limites entre o documental e a ficção – cada vez mais tênues, seja no cinema ou na TV.

COMO E QUANDO SURGIU A IDEIA DE REALIZAR UM “DOC” SOBRE A SÃO PAULO CIA. DE DANÇA? E DE QUE FORMA VOCÊ PRETENDE ABORDAR O TEMA?

Esse projeto surgiu de um “encontro de vontades”. Minom Pinho, que também produziu meus dois longas-metragens anteriores, Espaço Além e Cravos, teve um encontro com o Canal Curta e com a São Paulo Companhia de Danças, que estava completando dez anos de atividades. Fui convidado a dirigir o projeto, cuja abordagem será a mesma de meus outros documentários: a de investigar o ser humano. Muita gente ignora esse fato, mas o balé demanda um treinamento, às vezes, excruciante. É uma atividade que exige muito do corpo. Para mim, o interesse reside em saber “quem” são essas pessoas. Os filmes que faço costumam ser construídos a partir dos personagens e têm uma poética específica, que respeita tempos, respiros e silêncios. Mas, essencialmente, busco fazer mergulhos profundos na alma humana.

O DOCUMENTÁRIO DEVE SER ESSENCIALMENTE UM ENCONTRO COM A REALIDADE? OU HÁ OUTRAS FORMAS DE SE AVENTURAR NESSE GÊNERO?

Não me identifico muito com essa definição de que o documentário é o “cinema do real”. O cinema documental que me interessa é um encontro com a subjetividade, o que não necessariamente tem a ver com a “realidade”. Os documentários que tentamos produzir aqui, mais do que retratações da realidade, são obras feitas em parceria com a vida. Nossa intenção é abarcar ao máximo essa força que é a vida, com todas as suas contradições e intensidades. Isto também permeia a linguagem e o fazer do documentário. No fim das contas, as obras que tentamos fazer se aproximam mais do mistério de estar vivo que de uma determinada “verdade”.

ULTIMAMENTE, NO CINEMA E NA TELEVISÃO, TEM HAVIDO UMA INTROMISSÃO CONSTANTE DA FICÇÃO NO DOCUMENTAL, E VICE-VERSA.  ISTO QUER DIZER QUE, NO MUNDO ATUAL, A VERDADE SE TORNOU UM CONCEITO “RELATIVO”?

Werner Herzog costuma dizer que a boa ficção se parece com um documentário, e que um bom documentário parece ficção. É um ponto de vista curioso sobre a questão. Herzog também diz que, para ele, tudo é cinema, independentemente de ser ficção ou documentário. Por outro lado, Cidadão Kane começa com um cine-jornal fictício que narra a morte do protagonista. Não é à toa que aquele é um filme tão importante na história do cinema. Zelig, de Woody Allen, também é um falso documentário – e é uma obra-prima. Dizem até que o diretor riscava e amassava os negativos, para que as imagens ganhassem aquele tratamento de filme envelhecido. Enfim, esta dança da realidade com a ficção não é algo recente. O que não acontecia tanto, em outros tempos, era o documentário flertar com a ficção. Mas acho que é uma dança natural, pois tivemos um “boom” de documentários com o advento do vídeo digital. Há quem diga que vivemos a “era de ouro” do gênero, visto que a produção de “docs” nunca foi tão variada. E com o volume de produção, vem a experimentação. Acho isso saudável.

EM SUA OPINIÃO, O SURGIMENTO DAS NOVAS PLATAFORMAS DE CONTEÚDO TAMBÉM CONTRIBUIU PARA ESSE “BOOM” DO GÊNERO?

Sim. Isso é uma forma de dar vazão ao volume de obras que têm sido produzidas. Ao mesmo tempo, a Netflix vem bancando a produção de séries documentais excelentes. Não há dúvida de que existem muito mais janelas para esse formato, atualmente. Inclusive, em anos recentes, os gêneros cinematográficos que mais têm despertado interesse no público são o terror e o documentário. Um aspecto interessante do “doc” é que, mesmo quando a produção do filme não é ótima, o tema em si pode prender a atenção do espectador.

EXISTE UMA CONEXÃO ENTRE O CINEMA DOCUMENTAL E O JORNALISMO?

Sim, para o bem e para o mal. Essa proximidade com o jornalismo também cria expectativas que se tornam um problema quando o diretor decide explorar um território mais experimental. Há quem condene esse tipo de iniciativa. Estamos em um momento no qual predomina uma linguagem excessivamente “observacional” – a câmera se limita a seguir os personagens, como se não estivesse ali. Em meus filmes, não forço uma relação com os personagens e com o tema – porém, também não a evito. Como diretor, não quero ser uma “mosca na parede”. Quero ser alguém interagindo com aquele grupo de pessoas.

O QUE DIFERENCIA OS CINEASTAS QUE REALIZAM OBRAS DE FICÇÃO DE OUTROS QUE SE DEDICAM AOS DOCUMENTÁRIOS? VOCÊ, POR EXEMPLO, SENTE VONTADE DE FAZER FILMES DE FICÇÃO?

No fim, tudo depende do tipo de história que você quer contar – e de “como” irá contá-la. Eu já fiz ficção, um média-metragem chamado Segundo Movimento para Piano e Costura. Achei a experiência interessante, mas o processo me pareceu esquisito. No documentário, você faz as perguntas. No filme de ficção, as pessoas o afogam em perguntas! Elas lhe perguntam que tipo de camisa o personagem deve usar, que cor será a parede, o que deve estar em cima da mesa… Naquele momento, você é uma espécie de “deus” que precisa ter respostas para tudo. Por outro lado, há cineastas que transitam muito bem entre essas duas áreas. Por exemplo, Wim Wenders, que fez vários documentários, além de trabalhos de ficção. O que o documentário me trouxe foi uma agilidade para decupar, chegar a um espaço e rapidamente entender qual é o ciclo da ação, descobrir qual é a melhor forma de contar uma história. Em contrapartida, a ficção lhe permite uma construção plástica mais controlada – o que, no documentário, se estabelece mais a partir do que se apresenta. O documentário é um cinema de relação, seja com as pessoas ou com os próprios lugares onde você filma.

HOJE, HÁ UMA BOA VARIEDADE DE CURSOS À DISPOSIÇÃO DE QUEM QUER INVESTIR EM UMA CARREIRA NO AUDIOVISUAL. MAS SERÁ QUE POSSÍVEL ENSINAR A ALGUÉM “COMO” SER DOCUMENTARISTA?

Eu já dei aulas e, agora, sou sócio de uma plataforma de cursos online, a Navega. Aprende-se tanto com a teoria quanto com a prática. É sempre bom ouvir o que alguém que já percorreu aquele caminho tem a lhe dizer. 

Esta e outras matérias você encontra na edição 215 da revista digital Zoom Magazine

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