FAZER CINEMA COM CRISTIANO BURLAN

Uma entrevista com o diretor Cristiano Burlan, cineasta de guerrilha que já se exercitou em diversos formatos

Texto: Vanessa C. Rodrigues
Imagens: Divulgação

Muita gente acha que fazer cinema é dificílimo, algo que pertence à categoria dos sonhos, não da realidade. Porém, muitos jovens cineastas vivem este sonho no dia-a-dia, sem mistificações, fazendo bons filmes autorais (de forma independente) e a um baixo custo. Também apresentam seus projetos em festivais ao redor do mundo e, cada vez mais, ganham audiência em canais alternativos de distribuição, como a Internet. Eventualmente, até se infiltram na programação mainstream, em salas de cinema ou canais de TV.

O diretor Cristiano Burlan é um desses cineastas de guerrilha. Ele acredita que sonhos são possíveis e cria seu próprio espaço no cenário do cinema nacional. Nos últimos oito anos, Burlan dirigiu pelo menos dez filmes, incluindo dois longas-metragens, além de médias e curtas ficcionais e documentais. Seu curta de estreia, Opus Hamlet Machine (o qual ele realizou em seu primeiro ano como estudante da Academia Internacional de Cinema), participou do festival Cine Esquema Novo. Depois vieram os curtas Os Solitários (32ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia), 4:48 AM (17º Festival Internacional de Curtas de São Paulo e Mostra Vídeo Itaú Cultural RJ e BH) e Lucrecia (31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo).

Entre suas obras de maior destaque, estão o documentário Construção – que competiu no 12º Festival Internacional de Documentários: É Tudo Verdade e que participou do Festival de Cinema de Havana – e seu primeiro longa, Corações Desertos, que integrou a Seleção Oficial da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Burlan também é autor do média-metragem Dissonante e dos curtas A Espera e O Homem da Cabine.

Seu longa mais recente, Sinfonia de um Homem Só (também roteirizado por ele), foi selecionado para a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme é inspirado em uma obra-prima da música concreta, “Sinfonia Para um Homem Só”, do compositor Pierre Henry. A história é sobre um homem comum que sai do interior do Brasil para tentar a vida em São Paulo, onde vai trabalhar na construção civil. A revolta metafísica do personagem é a revolta do homem contra sua condição e contra aquilo que o humilha. O trailer do filme pode ser conferido YouTube.

Burlan também é diretor de teatro e viveu algum tempo em Barcelona, onde dirigiu o grupo de cinema experimental Super-8 e o grupo de teatro A Fúria. Nesta entrevista, o diretor fala sobre seus filmes e suas motivações

Além de cineasta, você é professor e ex-aluno do curso FilmWorks e técnico em direção cinematográfica na Academia Internacional de Cinema. Qual é a importância da produção prática nos cursos de formação em cinema?
Os sentidos precedem o intelecto e acredito piamente que cinema se faz com o estômago. Mas vivemos em uma época difícil para os sonhadores. Creio que o cinema não se ensina, se aprende fazendo na prática. Pode parecer dicotômico o que vou dizer, mas, ao mesmo tempo, o domínio do oficio pode nos levar a uma liberdade do processo criativo.
Sinfonia de Um Homem Só, que participou da 36ª Mostra Internacional de São Paulo, mostra o cotidiano de um trabalhador e toda a monotonia de sua vida. Outro filme seu, Construção, abordava o mesmo cenário. De alguma forma, Construção o preparou para fazer Sinfonia de Um Homem Só?
Construção é uma homenagem que faço a meu pai, que foi pedreiro (eu também trabalhei na construção civil). O filme faz parte do que chamo de “Trilogia do Luto”, que retrata a morte de três parentes. Atualmente, finalizo o documentário Elegia de um Crime, sobre a morte do meu irmão; quanto ao último, ainda não tenho previsão para realizar, mas é sobre a morte da minha mãe. Quanto mais filmes realizo, mais viro a câmera para mim mesmo.

O trabalho é um tema importante em seus filmes, não?
O Homem se iguala quando trabalha… quando sofre… quando ama… e, também, quando morre. Nunca pensei em fazer um filme sobre pessoas trabalhando, mas descobri que os tipos de trabalhadores que filmei são “invisíveis”: o pedreiro, o projecionista, o garçom… O que me interessa, no cinema, é filmar a vida.
Sinfonia de Um Homem Só faz referência à peça Sinfonia Para Um Homem Só. Como este conceito foi traduzido em sua obra?
Escutei muito a música enquanto escrevia o roteiro e descobri uma ressonância da cacofonia da música com a de São Paulo, uma cidade que pode ser traduzida (ou interpretada) como uma sinfonia atonal dodecafônica a 24 quadros por segundo.

Você está trabalhando em algum novo projeto?
Estou realizando uma ficção, cujo título provisório é Invertebrado. É um projeto sem recursos, uma metalinguagem sobre cinema. Realizo filmes para tentar entender em que mundo vivo, não para defender teses estéticas ou para provar algo. Se alguém se aproxima de mim e afirma ter certeza sobre algo relacionado à vida ou ao cinema, me afasto. Cinema é um instrumento de precisão para decifrar o mundo e acredito que chegou o momento de voltarmos à nossa essência cinematográfica – a falta de recursos vira a nossa linguagem.