Um bate-papo sobre criatividade e profissionalismo com um dos grandes editores da atualidade: Jon Alvord

Texto: Tristan Aronovich
Imagens: Divulgação

Muitos dizem que o ofício mais inerente, única e intrinsecamente ligado ao cinema é a edição. Pode parecer uma verdade extrema (e até radical!), mas há alguma verdade nessa afirmação: a Sétima Arte é uma combinação de diversas artes e ofícios. Esses últimos derivam de outras vertentes artísticas, ou seja: o trabalho de câmera e iluminação foi “roubado” (ou adaptado) da fotografia, as dinâmicas com o elenco foram herdadas do teatro, os cenários, figurinos e direção de arte vieram das artes plásticas… O que nos sobra, artística e esteticamente?

A edição, é claro – que, segundo muitos, é a única arte verdadeiramente “nascida” a partir de uma “necessidade cinematográfica”. Uma coisa é inegável: a edição é uma das etapas mais essenciais e desafiadoras da realização cinematográfica e, até ser “montado”, um filme nada mais é do que vários clipes e cenas desconexas, sem ritmo específico, música ou som. Quando a edição começa, a “mágica” acontece…

Ao longo do último ano, tenho tido a honra e o privilégio de trabalhar e estudar com o grande Jon Alvord, responsável por alguns dos maiores prodígios relativos à edição cinematográfica em tempos recentes. O currículo desta “fera” é invejável: Jon é responsável por efeitos visuais ou edição em filmes como: Sin City, Planeta Terror, Estrada para Perdição, X-Men, Missão: Impossível 2, Vanilla Sky e muitos outros. Nesta entrevista exclusiva, Alvord nos revela um pouco de seu histórico e nos apresenta sua visão privilegiada do cinema.

Como você se envolveu com a edição de filmes?
Minha paixão pelo cinema começou com o amor por efeitos especiais e por efeitos de maquiagem. Quando assisti a filmes como Um Lobisomem Americano em Londres e Despertar dos Mortos, me apaixonei imediatamente por essa forma de arte. Fiquei fascinado! O problema era que eu morava em Washington DC, onde não havia produção de filmes. Então, comprei alguns livros didáticos (isso foi antes da Internet e dos tutoriais on-line) e dei o melhor de mim para aprender tudo sobre efeitos de maquiagem. Quando me matriculei na faculdade, tive a sorte de estudar com Bill Tuttle e Dick Smith, lendas da indústria cinematográfica em efeitos de maquiagem. Em parceria com Thom Surprenant, outro jovem artista de efeitos visuais, comecei a trabalhar em filmes no segundo ano. Quando me formei, eu era um privilegiado que trabalhava nessa indústria há quase três anos. Só havia um problema: não gostei da experiência. Dediquei muito tempo e energia a perseguir uma carreira que simplesmente não me apetecia. Eu não estava feliz. Foi quando percebi que não poderia ignorar o quanto gostara das minhas aulas de edição e dos projetos acadêmicos que editara na faculdade. Mudei completamente de área e me tornei um editor aprendiz. Nunca mais olhei para trás!

Quais são suas referências como editor e como artista de efeitos visuais?
Tom Savini e Rick Baker eram as minhas referências em efeitos especiais. Mas, quando me voltei para a edição, encontrei em Adrian Carr e Dennis Virkler meus primeiros mentores.

Qual foi o projeto mais desafiador em que você trabalhou? Por quê?
Houve tantos desafios em todos esses anos! O primeiro se deu em meu primeiro longa como editor. Foi o primeiro filme em que atuei como editor assistente – o editor titular abandonou o projeto e fui promovido, assumindo o seu lugar. Imagine: eu estava aprendendo a ser um assistente de edição e, de repente, me vi no comando dessa função, com apenas um ano ou mais na pós-produção. Eu não apenas estava aprendendo a entregar um filme, mas a editar, lidar com produtores e diretores e gerenciar uma pequena “tripulação”. O trabalho se tornou mais complicado porque o produtor era um dependente de drogas em recuperação e tinha problemas mentais decorrentes do uso contínuo de entorpecentes. Suas decisões eram questionáveis ​​e incompreensíveis. E, para piorar, o IRS estava atrás dele, a empresa estava fechando e os investidores queriam saber por que seu dinheiro desaparecia e o filme nunca ficava pronto! Outros projetos desafiadores foram aqueles nos quais não havia tempo hábil para entregar o trabalho e tínhamos que fazer turnos de 24 horas – dormíamos na frente dos computadores, tentando cumprir o prazo. Em outra ocasião, fiquei acordado durante quase três dias, tentando concluir meu trabalho no tempo estipulado. E houve um projeto que acabou com o diretor e os produtores sendo processados e eu no meio daquela confusão, já que todos vinham até mim se confessar ou em busca de conselhos… Gosto de dizer que sou como o “barman” local. Quando as pessoas vêm ao meu escritório e fecham a porta, começam a me dizer coisas… Assim, preciso agir quase como um terapeuta, dar aconselhamentos e manter essas conversações em caráter confidencial. É algo desafiador e exaustivo. Ao longo dos anos, aprendi que é melhor dizer às pessoas que não me contem nada que eu não possa dizer aos outros. Certos projetos foram bem difíceis, pois os chefes eram tão cruéis que eu ficava estressado todas as manhãs, antes de ir para o trabalho. Mesmo assim, nunca desisti. Vi cada desafio como uma maneira de me testar. De cada projeto difícil resultava um filme maravilhoso – assim, todos os dias, era uma alegria estar no trabalho.

Quais são as principais características (pessoais e profissionais) e habilidades que um editor de sucesso deve ter?
O profissional deve ser capaz de lidar com as diferentes personalidades e desafios tecnológicos que chegam à sala de corte. Para alguns cineastas, é uma alegria estar na sala de corte, enquanto, para outros, é muito difícil ou até impossível. Mas é preciso encontrar uma maneira de trabalhar com eles e ainda entregar o trabalho. Também me parece que cada filme traz novos desafios tecnológicos, envolvendo condutas técnicas que devem ser afinadas ou mesmo inventadas a partir do zero. Cada editor é diferente, mas creio que todos temos aptidões essenciais: habilidades para resolver problemas, habilidades com pessoas, habilidades criativas e artísticas, proficiência técnica e habilidades políticas. E é preciso ter a capacidade de prestar o máximo de atenção aos detalhes finos, frame por frame.

Além do dinheiro, qual é a principal diferença em se trabalhar em grandes produções hollywoodianas e em filmes “indie”?
Filmes com orçamentos enormes geralmente envolvem grandes equipes, cada uma focada em uma área, já que há muitas pessoas para lidar com cada aspecto do projeto. Produções independentes, de baixo orçamento, exigem que você “use vários chapéus”. Não é incomum que, em um projeto assim, você seja o editor, editor assistente, supervisor de pós-produção e supervisor de efeitos visuais. Em um grande filme, há pessoas contratadas para cada uma dessas funções.

Você sempre segue um fluxo de trabalho específico? Em caso afirmativo: qual é o esquema básico, passo a passo?
Primeiramente, utilizo o Avid Media Composer. Outros pacotes de softwares são bons, mas não são “tão” profissionais quanto o sistema Avid (e usei todos eles profissionalmente). Filmes e séries de TV nas quais trabalhei que utilizaram outros pacotes de software sempre custaram mais dinheiro em pós-produção, devido ao aumento de horas extras da equipe. Então, a primeira coisa que faço é criar uma sala de corte Avid. Em seguida, o fluxo de trabalho básico é pegar os arquivos da câmera, duplicá-los e armazenar uma cópia de segurança. Os assistentes, então, precisam transcodificar os arquivos da câmera para um formato compatível com o programa, para que eu possa maximizar a velocidade de corte e a criação de efeitos visuais. Em seguida, dependendo da entrega final, temos que conciliar a edição com os arquivos originais da câmera e entregar para VFX, som e gradação de cores. Mas, no caso de cada câmera, há customizações particulares que devem ser feitas para o fluxo de trabalho e a entrega final.

Quais são os fatores mais importantes na edição de um projeto? A história? A emoção? Os quesitos técnicos?
A emoção sempre vem em primeiro lugar. É o que o público mais extrai de um filme. Quando contamos uma boa história e mexemos emocionalmente com o público, nada mais importa. A plateia sempre perdoará erros técnicos se estiver envolvida por uma história emocional, cujos personagens são bem desenvolvidos.

Pessoalmente, quais são os tipos de projetos nos quais você gosta de trabalhar? Qual é o seu tipo favorito de filme?
Não tenho um tipo favorito de filme. Gosto de projetos criativos, feitos por uma equipe maravilhosa. Meus projetos favoritos são aqueles nos quais estou rodeado por pessoas que admiro e por suas contribuições. A maioria dos grandes filmes rende mais quando se tem uma equipe de pessoas criativas trabalhando em sintonia, uma obtendo o melhor da outra.

Quão perto você interage com o diretor, dp e outros profissionais/artistas durante a pós-produção? E qual é a natureza de seu relacionamento com eles? Além disso: qual seria o cenário ideal em termos da dinâmica entre o editor e o resto da equipe?
Tudo depende do projeto. Por exemplo: como editor de efeitos visuais, acho que é maravilhoso estar no set ativamente envolvido com o diretor, DP e supervisor VFX. Isto me permite lidar com certas questões antes que elas se tornem um problema na pós-produção. Posso até editar cenas para ver se temos todos os elementos dos quais precisaremos na pós-produção. Então, amo estar no set, envolvido com o projeto. A edição corre mais suavemente quando posso ser mais um “par de olhos” zelando pelo produto final. Editores como Walter Murch se recusam a ir (ou ver) alguém fora da produção. Isto lhes permite serem completamente objetivos na hora de editar. A natureza do meu relacionamento é ditada pela posição para a qual fui contratado. Felizmente, tenho facilidade para mudar o meu “rolo” em cada projeto, maximizando minha contribuição à equipe.

Quais são os cineastas que você admira? Com quem gostaria de trabalhar?
Adoro Steven Soderberg e gostaria de trabalhar com ele. Acho o seu estilo dramático maravilhoso. Também adoraria trabalhar com David Fincher. E já que estamos falando nosso, seria bombástico trabalhar em um filme de James Bond. Fora isso, planejo o desenvolvimento de meus próprios projetos com um grupo de cineastas excepcionais, que são amigos talentosos e queridos, além de muito mais espertos do que eu (risos).

Qual é o conselho final que você daria àqueles que estão começando? Especialmente, a que estiver lendo este artigo no brasil?
Fiquem em casa e continuem a viver com seus pais! Este é um negócio difícil (risos). Na verdade, o conselho mais importante é fazer conexões, ser humilde e se orgulhar do seu trabalho. Mesmo quando você é bem-sucedido. Ninguém gosta de trabalhar com pessoas arrogantes e todos nós fazemos isso por amor à carreira. Se você for humilde, respeitoso e se orgulhar do seu trabalho, cunhará o seu sucesso. 90% dos empregos surgem devido às amizades, conexões e respeito profissional entre colegas. Nossas habilidades correspondem a 10% do que nos mantêm empregados.

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