CINEMA NA PRÁTICA: a comunicação entre o diretor e o elenco

0
CINEMA NA PRÁTICA: a comunicação entre o diretor e o elenco
CINEMA NA PRÁTICA: a comunicação entre o diretor e o elenco

Quando o cineasta e os atores se entendem, tudo flui melhor em um set de filmagem ou gravação

Por: Tiaruju Aronovich

Após estudarmos em detalhes todas as etapas do trabalho com o elenco, resta-nos, ainda, uma listinha de dicas que podem servir como um valioso checklist para os diretores durante ensaios e gravações. São tópicos simples, que devem facilitar e otimizar muito a comunicação entre o realizador e o ator.

Relembre os três artigos anteriores: AFINAL, O QUE FEZ O DIRETOR DE CINEMA? ; CONHEÇA O OFÍCIO DO ATOR; e O TRABALHO COM O ELENCO

  • ∙ Nunca oriente seus atores por meio de “emoções”. Nada denuncia mais um diretor amador ou inexperiente do que frases como: “Fique mais triste nesta cena”; ou ainda: “Acho que você deveria estar mais feliz”; ou, por exemplo: “Faça uma expressão de medo e nervosismo”.  Emoções são abstratas por natureza e possuem significados diferentes para cada pessoa. O que é “tristeza” para alguém pode significar “melancolia” ou “depressão” para outras. O que uma pessoa interpreta como “nervosismo”, outra pode interpretar como “angústia” – e assim por diante. Emoções não têm “formas” definidas, são incontroláveis; logo, não servem para atingir algum resultado. O risco que corremos ao utilizar uma emoção como orientação é o de cair no clichê emotivo, ou seja: se você pedir para um ator “ficar nervoso”, ele vai acelerar a respiração, movimentar-se rapidamente de um lado para o outro, falar mais depressa etc., criando a caricatura de um estado de espírito. Se você pedir a um ator para “ficar triste”, ele poderá automaticamente usar seus clichês de tristeza, como: olhar para baixo, morder os lábios, falar mais baixo e por aí afora. Não é isso o que queremos, certo? Buscamos uma personagem viva e orgânica. Desse modo, lembre-se que a “emoção” ou o “estado de espírito” de uma personagem são, na realidade, consequências de fatos, situações ou eventos. Dessa forma, se você quiser que o ator “fique triste”, por exemplo, não pense na emoção, mas naquilo que provocou tal emoção na personagem – e estimule seu ator/personagem a reagir a esse estímulo oferecido pela obra (por exemplo: “Sua namorada acabou de deixar você, lembre-se de reagir a isso!”).
  • ∙ Nunca demonstre aos seus atores como fazer ou falar alguma coisa! Isso caracteriza o famoso (e tenebroso!) “diretor de imitação”: ao demonstrar algo para um ator, você estará sugerindo a ele que o imite e, portanto, precisaria de bons imitadores, não de bons atores, correto?
  • ∙ Nunca deixe o ator preocupar-se com o posicionamento da câmera ou com o plano que está sendo gravado. Isto pode estimular a vaidade ou o nervosismo e, como consequência, alguns atores poderão tentar “posar” ou “se posicionar” para a câmera, gerando uma performance artificial e mecânica. A câmera é da alçada do diretor de fotografia e do diretor; e se, por acaso, um ator lhe perguntar sobre o enquadramento, um simples e cordial “Fique tranquilo, isso não é importante” deverá bastar.
  • ∙ Para chegar a resultados interessantes, estimule seus atores com perguntas; afinal, isso os fará pensar e refletir sobre as personagens e cenas e buscar resultados cada vez melhores (Exemplo: Por que sua personagem está gritando? Este é o melhor caminho para que ela consiga o que quer? Por que sua personagem se movimenta tanto? Ela está com algum problema específico? etc.). Muitas vezes, os atores preocupam-se demais em decorar falas e posições e acabam esquecendo de pensar sobre a coerência de suas personagens nas cenas, o que pode levá-los a agir de forma mecânica. Perguntas estimulantes são geralmente o melhor caminho para se obter resultados.
  • Feedback: ao dar seu feedback (“retorno”) aos atores, lembre-se de ser respeitoso, cordial e educado; afinal, eles estão extremamente expostos e se esforçando muito para realizar seu projeto. A figura do diretor grosseiro, que ofende seus atores, grita e se impõe pelo medo, é, no mínimo, melancólica e desprezível. Humilhar seus atores não fará com que as performances melhorem; ao contrário, somente abalará a auto-estima do elenco, gerando um clima de insegurança no set. Além disso, se a performance do ator não é satisfatória, a culpa  também é do diretor, que falhou em dirigir eficazmente para atingir os objetivos desejados. Grosseria e desrespeito são terminantemente proibidos em um set profissional.

Com isso, encerramos as funções e responsabilidades do diretor e dos atores. Sim, há muita informação para digerir… Mas, com certeza, valerá a pena. Leiam e releiam. Dirijam e atuem!

Veja Também