COMO FAZER CINEMA NO BRASIL

Alberto Flaksman responde quais são as qualidades esperadas de um profissional que o Brasil precisa hoje

 

Por Márcia Matos

 

Zoom Magazine apresenta entrevista com o roteirista e produtor de cinema Alberto Flaksman – um dos grandes nomes do mercado e que teve papel importante na entrada de filmes nacionais no mercado exterior.

Veja nossa entrevista com Flaksman e fique por dentro do tema!

ATUALMENTE, QUAL É O PAPEL DOS PRODUTORES EXECUTIVOS NO MUNDO DAS ARTES?  

Mais do que produtores executivos, prefiro falar em produtores. “Produtores de verdade” são figuras raras no mundo artístico, pois um produtor competente é um maestro que sabe tocar muito bem uma série de instrumentos, e que tem liderança para conduzir uma equipe de artistas. Para isso, é preciso capacidade profissional, conhecimento, talento e sensibilidade em diferentes áreas. Por exemplo: para intuir qual tema, assunto, história, livro etc. poderá render um bom filme e interessar a um número expressivo de espectadores. Depois, precisa ter competência para negociar e adquirir os direitos do material original, contratar um roteirista adequado, acompanhar e aprovar o trabalho desse roteirista e assim por diante. Isto, sem falar nas questões relativas ao financiamento do projeto. É uma figura tanto necessária quanto, ainda – infelizmente –, rara no cinema brasileiro.

 

QUAL A DIFERENÇA ENTRE PRODUÇÃO EXECUTIVA NO CINEMA E NA TV?

A maior diferença diz respeito à dimensão e estrutura empresarial. Nas emissoras de televisão, que são grandes empresas organizadas e equipadas, temos executivos de produção assalariados que oferecem títulos variados, como gerente de produção, produtor etc., trabalhando com normas traçadas. Já os produtores executivos de cinema – e particularmente, os que produzem filmes de longa-metragem – são, geralmente, free-lancers e trabalham por tarefa. Há exceções, como no caso de empresas de maior porte, que têm um produtor executivo como sócio ou como colaborador permanente. No entanto, as atribuições de ambos se assemelham. O que muda são os níveis de responsabilidade, as relações de subordinação e a prestação de contas.

 

POR QUE HÁ TÃO POUCOS CURSOS DE PRODUÇÃO EXECUTIVA NO BRASIL? 

Alguns profissionais costumam oferecer cursos de curta duração, voltados especificamente para as funções de produtor executivo (gestão financeira, negociação e contratação de pessoal e serviços, bem como gerenciamento do dia-a-dia da produção). O que falta são cursos como o nosso, que dão uma visão global do negócio audiovisual, não apenas para quem quer ser produtor executivo, mas para os que querem trabalhar como executivos nos setores de distribuição, exibição e televisão, que crescem no mundo inteiro e sofrem modificações o tempo todo – novas tecnologias, novas plataformas, novos temas, novas demandas, novas dificuldades…

 

É FUNDAMENTAL QUE UM CINEASTA SEJA, TAMBÉM, SEU PRÓPRIO PRODUTOR? POR QUÊ? 

Não, não é fundamental. Em filmes nos quais o produtor é um profissional maduro e independente do diretor, há maior probabilidade de acerto. Isto porque o cinema é, antes de tudo, uma arte coletiva, que depende da qualidade do trabalho de um grande número de artistas: o roteirista, o diretor, os atores, o diretor de fotografia, o diretor de arte, o montador, o autor da música etc. Não conheço nenhum diretor que seja capaz de desempenhar a contento todos esses papéis. Houve alguns gênios na história do cinema (como Charles Chaplin) que produziam, escreviam, dirigiam, interpretavam e ainda compunham a música, mas eram outros tempos e não se pode depender da existência de gênios para que o cinema continue. No entanto, é importante que o diretor tenha uma compreensão profunda do papel do produtor, assim como o produtor deve conhecer profundamente a arte e a técnica de se fazer filmes.

  • Alberto Flaksman é formado em Engenharia e Economia e pós-graduado em Administração e Gerência de Empresas pela Universidade de Paris e em Ciências Políticas pela IUERJ. Trabalhou nestas áreas até o fim da década de 1970, quando passou a assessor de diretoria e superintendência da Embrafilme, em 1976. Nesta função, foi um dos grandes responsáveis pelos filmes brasileiros terem entrado, de maneira expressiva, na disputa no mercado nacional e internacional. Como produtor executivo, trabalhou nos longas-metragens Eu te Amo (1981), de Arnaldo Jabor, Baixo Gávea (1986), de Haroldo Marinho Barbosa, e A Grande Arte (1991), de Walter Salles. Entre 1985 e 1992, foi diretor e produtor executivo da Videofilmes, produtora dos irmãos João Moreira e Walter Salles, onde viabilizou diversos filmes e programas para a TV, como séries exibidas pela Rede Manchete e o documentário de Walter Salles, Krajcberg – O Poeta dos Vestígios.

 

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